Aquele (im)possível

Era ela, e ela. Eu era.

Era o sem-fim de um beijo, basto e sem beiradas. Sem fundo. Sem cume.

Tamanho aquele possível, que o mar diante, era pequeno e menos profundo. E nos nadávamos no abraço ínfimo de nossas línguas. Dela. Minha. E dela.

Era um pulo nos campos-pele. Nas peles morenas torradas. Morenas mais claras. Morena suada.

Era o encontro do momento. Instante diminuto do segundo. Ela no meu olho. O olho meu no dela. Ela e ela. Eu mesmo.

Era a base da grã pirâmide. De ponta-cabeça todos os argumentos. Eu amava o mar, sendo apenas testemunha do corpo dela, e o meu, e o dela, trançados num só agarre. Nús num só beijo.

Beijo no tempo da sétima onda que veio. E depois voltou, e veio, antes de acabar o tempo. Era eu dela, e dela. Delas eu mesmo.

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vou vivendo

sou mais menos sendo
sendo mais menos tenho
ainda menos desejo.

sou mais você sendo
sendo menos você me querendo
ainda mais você me tendo.

estou tendo menos isto
mais do aquilo que não tenho
nem quero nem tento

quero ser, ainda que desistindo
do que não quero e nada tenho
estou vendo.

vendo que vivendo o que quero
menos tenho e mais querendo
vou vivendo.

outro sonho

era um sonho, tipo real, sonhado. eu queria falar com ela, por amor, ou por ausência do amor. doia-me a dor. liguei, mas ninguém atendeu. reparei, tinha errado um dígito. dígitos em sonhos são detalhes, combinações de cor, algoritmos pulsantes que parecem número. digitei de novo. uma mulher atendeu, solícita, entregue, acho que gostou da minha voz. eu não, eu queria falar com ela, não com esta mulher que se jogava em mim, para mim, pela voz no telefone celular. desliguei. meu filho durmia num cómodo. não estava preocupado, só queria falar com ela, para minha vida continuar. ela não queria falar comigo, era obvio. senão, talvez, só talvez ela teria ligado para mim. a policia chegou. sonho muito com policiais se fazendo reais no meu sonho. psicológos dizem explicam, mas eu não ouço, nem acredito muito na explicação dos sonhos. sonho. cadê ela? liguei de novo, meu filho no quarto, a policia invadindo a casa querendo pegar alguém, sei lá quem. ela não atende. o número é o correto, minha mente lembra perfeitamente o número de la. ela não atende. não quer falar comigo….

pão café leite margarina

todo dia não faço nada igual
pão café leite margarina

a rotina que me prega os pés
margarina pão leite café

não sei dizer não a qualquer luxo bobo
croissant café leite manteiga de minas

o que sei que eu gosto
de não cortar do mesmo jeito transversal o queijo
nem repetir movimentos no pote
não sei dizer quantas colheres de açúcar
nem quantas xícaras
leite pão café margarina.