o cheiro do lirio

os dias da semana, largos e corridos
o dinheiro avulso,
protocolos de inquestionãveis paradigmas
as borboletas do jardim,
as crianças, ele, elas todas
minha família destes mundos,
os amares, inconclusos e tardíos,
as poesias em folha branca, nunca escritas
as despedidas cotidianas como certeza do reencontro
não cabiam,
não haviam caixinhas suficientes,
nem para o desejo inconmensurável do meu ventre
menos ainda pr´aqueles na mente,
as palavras das sentidas emoções
estes riscos de imagem e memória
eu queria todos os instantes do meu tempo…
um beijo de seis línguas
em orgasmos de mil corpos
de sedentos verões e dessertos
um mel de aguas de outros mares
navegadas em jangadas sem velas
somente o remo destes braços
e a correnteza de profundas superfícies
era o que levava
o cheiro do lírio colorido
que aflora em noites destemidas
e o medo da postrer entrega
desta vida que termina em morte
apesar dos exilios e fronteiras
não cabiam,
nem haviam caixões para estes sonhos.
a pedra na mão
os dedos trémulos, os mamilos,
seios secos deste pai fraterno
eu insistia
a palavra angariava solsticios
elogios de infamia d´ego sofrido
um brilho do eterno deste agora
este instante de escrever que me permito
(mesmo que seus olhos me matem de desejo)
diante da latifundio de ser gente
pessoinhas de cidades e registros
de formulários, contratos e currículos
e o tempo administrado
em curtos suspiros e soluços
que não cabiam na caixinha
para serem vividos (ao invés escritos)
nestes cernes
Sobrevivente!
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vida podre

era o fedor da vida o que interessava

o cheiro podre do que viria morrer

o ralo

os lixão nas esquinas do bairro

o suor melado nas coxas da fêmea no cio

o pelo úmido do meu suvaco na crispa do dia

a batata moribunda na geladeira

o sorvete derretido e as moscas

a mão traíra dos traidores

no instante do contrato justiceiro da escravatura

eu era o hímem

a abertura do mundo

de um lado ou do outro

o podre dos dias

da vida

do humano

que por angariar,

apodrecia

a vida dos outros

na esquina do bairro

do estoque na geladeira

em mão inimiga

o sexo podre

eu era de mim, afã desta cura

mas por humano

também podre

que era o podre o que mais gosto tinha

as coxas duras

a batata mole

o contrato traíra

o perigo na esquina

a dor continua de uma vida

mais crua – ou nua,

ou então desejada

escondida

sem cerne

nem proibida

apenas ao tato

e ao cheiro, percibida

vida podre

que eu bem queria.

Andança

Caminhávamos Benja, na cidade, não lembro exatamente. Algum lugar entre este ou aquele. Eu quase sempre  dois passos a frente, eu acho que você demora no atraso, como quem comanda um andarilho com passos tortos, e nossas sombras.

Havia grades humanas, asfaltos beirando os caminhos, árvores altas com verdes infinitos no comum cinza dos prédios. Uma borboleta espiã. Cachorros andaluzes. Caçulos diversos, verdes, dourados, alvinegros. Você os contava. Eram muitos.

Caminhávamos, assim distraindo-nos e você me disse “Pai, vamos andar em silêncio”.

Barbapapá

Aos poucos meses de nascido, Benja, a mamãe iria voltar ao cotidiano laborar, por inevitável conseqüência, de eu também estar na época trabalhando cada dia da semana, teríamos que te colocar numa creche.

Eras pequeno demais, miúdo nos gestos, um bichinho de avulsos prantos, sorrisos e sons quaisquer. Eu te achava vulnerável à cidade: aqueles barulhos, o ar seco poluído, as pessoas desconhecidas, tudo me era raro.

Acho que não duvidei, e pedi para sair no Projeto Quixote. Era minha primeira, e até aqui, única vez que estava com carteira de trabalho assinada. Fizemos acordo, e recebi os benefícios. Não era muito dinheiro, aliás, na real, quase nunca é.

Então a partir de certo dia, e pelos próximos meses, eu fiquei cuidando de você. Daqueles tempos guardo belas lembranças de quando você começava comer, das papinhas que preparava em vários sabores de legumes e grãos, e que congelávamos para usar durante a semana. Dos instantes inteiros, entre brincar e dormir, entre choros e risadas, entre o exaustão do dia e o exaustão da madrugada.

Já nessa época, começamos visitar a praça Buenos Aires, que ficava perto, andando dava menos de dez minutos, e ali foi que você aprendeu caminhar. E foi lá, que cotidianamente conheci muitas babás do bairro. A configuração era mais ou menos esta: todas mulheres, tinham que se vestir de branco.

Com o tempo, fui fazendo amizades, ao final não era difícil pois as crianças brincavam juntas, pediam os brinquedos das outras crianças, sempre precisava-se de uma fralda a mais, ou enfim porque compartilhávamos os lanches, os aprendizados e as experiências.

O mais raro para elas era compreender que era eu, o pai, quem cuidava, quem preparava as comidinhas, o que não estava trabalhando para pagar as contas de casa.

Para mim, começou o entendimento da criação de muitas famílias. A maioria já tinha filhos próprios, que deviam deixar com alguém, muitas vezes outras babás, para poder cuidar daqueles filhos de outras pessoas. Tudo ficava mais raro ao eu perceber, que aquelas mulheres eram totalmente diferentes no jeito de viver, que as famílias para as quais trabalhavam. Ou seja, entre as crianças e aquelas profissionais, existiam uma fenda social e financeira que atravessava inevitavelmente o aprendizado e a sociabilidade daquelas crianças.

Na prática, elas eram muito cuidadosas com as crianças, sempre atentas, eram minuciosas na atenção e, sobretudo, muito prestativas com suas outras colegas de profissão. Na praça emanava uma sensação de comunidade que poucas vezes vi na cidade, acredito que no afã do cuidado do emprego, que com certeza era o principal sustento daquelas famílias.

Outra coisa comum entre elas, à qual, pouco a pouco foi tendo acesso com a confiança durante aqueles meses, era que a maioria guardava duras críticas às famílias para as quais trabalhavam, sobretudo na falta de afeto e cuidado para com os próprios filhos; e entre si, fofocavam das maneiras de viver dessas famílias de classe media alta.

Ainda compartilhavam naquela irmandade da praça, uma certa raiva velada, enfim por não estar com seus próprios filhos  pela obvia necessidade de manter aquela profissão de cuidar de outras crianças.

Seduzindo Milton

Milton garimpava roupas e máscaras para despedir o verão no melhor estilo. Eram tecidos rasgados, todos fora de moda e sem passar. Alguns com mau cheiro de pouco usar. “Falae, ficou bom, não ficou?” ele perguntava enquanto eu queria entender o por qué daquele proceder.

Nos últimos dias havia exagerado no pão com manteiga, nas cervejas, e no pouco dormir. Pendurava olheiras escuras sob o olhar e um sorriso desgastado. O cabelo estava ressecado e desbotado.

Milton me apressava para ficar pronto. Íamos juntos numa festa de uma amiga tal, onde a diversão e a esbórnia eram garantidas, as bebidas e a comida bastas, e até havia uma piscina aquecida. “É hoje que a gente não volta sozinhos…” soltou seguro, ajeitando a gola da camisa, e me olhando fixo através do espelho “… .

Chegamos naquela casa amiga fantasiada de Hollywood; mulheres esbeltas e homens sarados, todos numa finura clássica, com raros sotaques e inusuáis jeitos de vestir. Era a extrema representação da beleza e a sensualidade humana, “coisa estranha essa de se fingir de outro alguém…” martelou Milton ainda abismado com os olhares que recebia ao encontrar de frente com alguém.

Eu o observava distante, meio envergonhado meio desinteressado. De fato quem olhava para ele, também me enxergava a mim.

A música acariciava as salas, e os corpos dançantes se misturavam em gestos e formas de distinto agir. Milton executava seus próprios únicos movimentos, que eu insistia em repetir do lado de fora, perto da piscina aquecida. Era certamente bizarro, sobretudo porque era ele quem mais se divertia, girando no chão, dando pulos sobre as poltronas e sofás, jogando a bebida sobre si.

O resto das pessoas parou para observar, numa sinfonia de estupefata adoração ou de sinuosa inveja. Os mais robustos se acercaram para lhe chamar atenção. As meninas se afastaram. Milton fez-me um sinal “a felicidade é a ponta de uma faca no centro de alheios corações… “ eu lia seus lábios, que sorridentes, no mais intenso tesão, proferiam estas palavras “… e somente quem almeja é quem pode ser feliz”.

Era um absurdo tentar  conte-lo enquanto gargalhava. Eu me vi, dentre dos braços deles, sendo arrastado para fora do evento.

Éramos dois felizes sem causas.

Eu perplexo. Ele alheio.

Entre Pasárgada e Orión

Na minha viagem entre Pasárgada e Orión, o enfeite dos olhos era o vinho, um sangue remoto do humano, metade homem metade faisão, que me entregavam em frascos minúsculos, quase utópicos do real. Eu engolia com sede, com a ânsia fatal de quem em vida, apenas aguarda morrer, e a vida enfim era este raro efeito entre o submisso e o fingir. Daquele gole quase fantástico, eu me elevava naquelas assas que falavam as médiuns no alvará de canonização: eu era o filho do grande senhor, primogênito da única mãe de todos os cervos bípedes que estão a existir. Eu me merecia, do dedo gordo do pé ao último instante do único cabelo branco. Sim, eu perecia. O tempo esgotava sua poesia, que o verbo é apenas infinito sob as águas, sob as unhas corroídas do infame Poseidón, aquela última tartaruga que o mar demitiu. Eh lhe disse: “Tempo, você não escolheu me viver”e de súbito meus olhos fecharam-se. Sim, eu temia, que a casa da estrela real era falsa, nem havia cômodos divinos para atestar este efêmero existir, não haveria livros de histórias, nem penhores, alianças, testamentos, apenas este instante pueril, quase agônico, que eu sorria para a única imagem que tenho de mim. Sim, eu me adorava. Um silêncio cru que emanava do vil, do mesquinho, do trair. Eu usei minha mão… e confiei.

olhe as árvores

eu vi a sombra elástica de uma árvore presa ao chão deste mundo, eu plantava meus olhos no fim daqueles galhos bem altos de céu, pendurei-me às memorias de todas minhas árvores, sombras e galhos do que uma vez havia sido, mas por outras razões, esquecido, eu era aquele no pulo, eu arremesado pelas minhas raízes, era o fruto podre na boca de um pássaro que por comer não trinava, eu o tronco rasgado no vento, vindo livre em queda sobre o teto de um futuro imperfeito, porém florido de verdes folhas, eu era a casa do meu gnomo, pequeno andarilho de manhãs e formigueiros, eu me escalava, atónito da altura da minha envergadura, antes fosse a morte, um novo galho que sobrevivira e com a aguda esperança de receber um novo fruto!

rascunhos à beira-mar

à espera da entrada da gruta

só o caminho do tempo

executa

 

 

todo destino me parece parcial

ou fardado

iludido.

 

 

no olho no fim da serpente

o escuro do sempre

vida rente

 

 

o som de quantas lágrimas de chuva

fazem sinfonia

num mar em calma?

 

 

sob o teto do mundo exerciam sua humanidade

um homem e uma mulher

na aventura do amor humano

numa praia deserta

solitários

 

 

o amar veste formas do materno

rainha o carinho

o incesto

alimenta o ego do eterno

é selvageria

antropofagia sensorial

é água no sol

(o sal no mel)

 

 

À sombra de Milton

 

Milton caminha entre desconhecidos quaisquer. Em silêncio, passa sem chamar a atenção. Ninguém o olha.

Tampouco, ninguém olha para mim.

“Entre os outros…”  e ele aponta ao chão, à sombra amorfa de nós “nem mesmo nosso breu fica parecido”.

Diante daqueles, formávamos incríveis figuras que desenhavam outras distintas maneiras de ser, e nossas linhas, eram inimagináveis e imprevistas.

Milton continuou a brincar de descobrir outras imagens “olh´aqui, não parece muito com um camaleão?” que ele insistia em me fazer ver “veja bem, não é mesmo um deus nórdico?”

Eu assentia ou negava apenas para não deixá-lo falar sozinho.

“Nossa, vendo aquilo que belo…” diz-me surpreso, ao ver minha nova sombra misturada ao corpo singelo de uma moça que atravessou entre nós.

Depois, Milton se afastou. Continuou andar entre outras tantas pessoas que passavam por ali. “Uuuh, agora foi quase…” gritou-me depois de tentar apagar nos outros, o gesto discreto de nós.

A noite, enfim, diluiu a frustrante agonia de uma sombra esticada sobre o concreto vertical de um prédio. Ele firmou o olhar no último laranja acendido no seu rosto.

Eu era a sombra perfeita que ele precisava, e que também, desconhecia.

O novo ano de Milton

Pelas frestas das janelas, o murmúrio de alegrias alheias inundava o neutro sorriso do Milton. Ele degustava um cigarro, um som qualquer na rádio, e no copo esquentava uma cerveja. O olhar fitado numa sombra, avesso impresso da árvore, lá fora no quintal de casa, e agora invadindo a parede de dentro.

“Quer fazer um brinde?” pergunto-lhe a Milton, alçando meu copo gelado, tentando celebrar alguma alegria nossa. Eu sorria da cumplicidade do encontro.

Eu e ele à sombra da árvore: afora, avessa; aqui dentro, escura.

“Um brinde…” cuspe Milton, e engole a cerveja dele, “… nos merece mesmo isso” e levanta o copo em direção de mim, vazio.

“Muita saúde…” eu aproximo o meu, “… para nos” e batendo os copos, fito meu olhar no dele, e no mesmo instante, escutamos a explosão de um fogo de artifício e o copo cai da minha mão, fazendo aquele barulho úmido no chão de vidro quebrado.

“A Terra dando mais um giro entorno do Sol…” Milton murmura enquanto eu cato os cacos; ele dá um gole direto da garrafa de cerveja. “… e nos dando mais uma volta entorno de nos”.

Estouraram mais uns fogos em seqüência. Uns cachorros latiam. A alegria alheia transbordava dentro, as avessas da sombra da gente. Rara essa maneira de comemorar o fim de algo na linha infinita do tempo, nessa rara infinita forma de nos.