Páginas Amarelas

A poesia não paga as contas, Baudelaire. Poesia é coisa leve, sem osso nem sustento. Ninguém que lê paga um centavo por palavra nenhuma. Agora que acabaram os tempos de Lautremont e as peles de Schiele, agora que cessaram as noites de Bukowski e as ninfas de Nabokov, o que fazer com este caminho apalavrado que me inventei de estrada.

Ponho do lado o copo. Jogo janela fora os meus livros empoeirados. Não teve nenhum ensinamento dos poetas de outras vidas: como viver de poesia? como sobrevive um poeta?

E agora Milton? Fazer o que com os projetos de romance, com o livrinho de 30+1 contos das nossas peripécias cubanas? Será que acaba assim, o destino de nossos verbos e o happy ending de nossos personagens? 

Não importa a fome. Nem o sobe-desce da espiral do cotidiano. Não me preocupa não ter como pagar os ônibus, as contas, as cervejas. Me ocupo: como fazer para viver escrevendo? o único sentido que tem esta existência.

Me diz algo Caieiro: não é que as vezes, o real és real em demasia?

Necessito um trabalho…

Voo 758

O que é que será eu não sei. Está vez, de mochilas a travessia é em direção da ilha.

Marco a data no peito… 4 de novembro estou à reencontro daqueles que há anos só moram no meu peito.

Até aqui o desafio foi longo, fundo, largo… quatro coraçoes palpitando no centro da vida.

Deste lado, continente, vão ficar aqueles que me abraçaram todos estes anos… não há mais palavras. Estão chamando para embarque…

LUZ!

Só o cume interessa

Para Tatinha, Shiê, Caue, Marcela, Rui, Nana, Ailton, Bruno, Juliano e Pri… e os outros que não chegaram.

No cume da Pedra Selada, em Visconde de Mauá, o horizonte tem todos os possíveis graus do olhar humano. A vista se perde no infinito dentre nuvens suspensas, montanhas verdes e um vale distante. De pé sobre pedra fria, o vento bate em toda e qualquer direção… O voo é alto, sem limites: o céu…  Essa sensação de liberdade imagética é incomum de se viver.

Lá embaixo, as riscas retilíneas do homem, escrevem uma história para lá de contada – y no me interesa saber.

No cume da Pedra Selada, onze sombras erguem-se em corpos: a liberdade deslumbra, intimida… abisma!

No ponto supremo é possível pela festança, esquecer-se da extensa trilha, das mordidas do mato, do íngreme da caminhada, o calor na pele, a sede intermitente e duradoura. É possível até parecermos vencedores, quase divinos, semideuses. Éramos onze… (cada um com o seu nome). E eu, um desses.

Só o cú me interessa...

Só o cú me interessa…

O silêncio se rasga em tantos sentidos para esta travessia: “nadie dijo que sería fácil…”

Diante de tanta beleza o hálito fraqueja, o som da consciência se interpõe trazendo as lembranças do esforço real que me lembra do inútil do meu ego. A vastidão da serra coroada pelos meus pés – e a presença destes outros dez semideuses – me faz reivindicar minha convicta escolha de solidão. Solidão de espirito na minha luta por sobreviver e ser feliz, juntos aos outros.

Na vigília daquela paisagem, aqueles onze corpos dispostos e sorridentes, algum deles nus, flertam com o perigo do abismo.

Então, entrego-me ao abraço coletivo da confiança e me deixo ir sem medo de cair… lá no fundo o que é verde esfumaça, o branco tornasse azul e o terror da queda, bate na porta do peito, e me enche de satisfação.

Somaiê, Pedra Selada, Visconde de Mauá, RJ.

Somaiê, Pedra Selada, Visconde de Mauá, RJ.

“Nadie dijo que sería fácil…” Pense que é possível confiar. Pense, é possível o corpo comportar outro corpo, e não morrer tentando. É possível se entregar. Possível é, ensaiar o nascimento e viver esse reencontro com nosso ser. Pense, é possível diante de um espelho não se reconhecer. É possível, não ter que mentir. Possível é, amar ou do contrário, morrer. É possível…

 

Vergonha!!!

Poucas vezes senti vergonha do ser humano. Já senti medo, raiva e até rancor de algum ato de essa natureza. Mas as imagens de “médicos” brasileiros xingando médicos vindo de Cuba foram fortes demais.

Minha vergonha vem do fato de ter um filho nascido no Brasil, e por esse detalhe eu me sentir também um pouco brasileiro, e por hoje, profundamente envergonhado.

O fato de “médicos” brasileiros pedirem exames que comprovem aptidões dos médicos cubanos ou de outra nacionalidade, justo!

O fato de milhões de seres humanos – por infortúnio geográfico, brasileiros – não terem nem nunca tiveram atendimento médico, injusto!

O fato de o Governo brasileiro criar decretos que “ferem” a Constituição, mas que curam pessoas, justo!

O fato de essas campanhas, ditas populistas, definirem depois as eleições a favor de quem criou decretos a favor dos menos favorecidos, justíssimo.

O fato de “médicos” brasileiros não se alistarem para preencher vagas em municípios que nunca viram – não fosse este impasse político – um médico na vida, justo! Mas reclamar e xingar outros professionais, não é só injusto mas vergonhoso e pior, antiético.

O fato de o Governo cubano lucrar sobre o trabalho e esforço dos médicos cubanos, injusto! O fato de que médicos cubanos não têm permissão de saída de Cuba e que vivem sobre estritas normas de vigilância, injustíssimo!

O fato de que médicos cubanos – alguns – vão se aproveitar para fugir do régime imposto pelo Governo cubano, justo e injusto! (eis um paradoxo)

O fato de pessoas, acostumadas ao descaso e a miséria, não serem escutadas sobre o que pensam sobre as leis populistas – como esta dos médicos – do Governo brasileiro, lamentável!

O fato de negar auxilio médico básico por omissão e desinteresse, seja por “médicos” brasileiros ou qualquer governo, vergonhoso.

O fato de a mídia acompanhar do lado burguês – não poderia ser diferente – e acarretar com isso, a opinião vazia de quem nunca viveu na situação que se encontram os brasileiros onde os médicos cubanos ou não, irão atuar, é desleal, vergonhoso, antiético e esperado!

O fato de estarmos discutindo leis, acordos, constituições, origens, valores, atestados e provas antes do que discutir as crianças, os idosos, a saúde e a vida, VERGONHA! VERGONHA! VERGONHA!

Café forte em xícara pequena

Abro a porta de grade de um corridor, destravada, entro e perto da próxima porta, chamo pelo nome.

Familiaaa…” – abre-se a janela e aparece Ania. Surpresa. Destrava a porta e no encontro el abrazo.

Ania, é cubana. Mora no Brasil há uns anos. Somos amigos nessa confiança da “insularidad”, termo que caracteriza poeticamente quem nasce, vive ou morre numa ilha. Atravessamos a casa no silêncio e a magia de uma casa de artistas.

Depois de uns minutos, uma ligação de outro cubano “volao vem pa´ca…” e ela o convida para chegar.

Perguntamos-nos pelos nossos filhos, Samuca e Benjuki, (a versão carinhosa de um mangá cubano-paulistanêis) e planejamos um encontro que teimamos em postergar.

Temos há tempos uma ideia que beira a utopia de fazermos algum projeto com esta identidade bipolar, ilhadamente continente, que sobrevive ao desapego de uma identidade anterior, vinda de outro país, uma espécie de árvore imensa, de galhos escuros e raízes inchadas no fundo do mundo e que flutuou no tempo até se firmar neste outro pedaço de mundo, crescente no sentido presente de ser e viver, nesta terra que abre os braços, e colhe os filhos, e os vê crescer.

Todo a su tiempo” Ania me acalma. Aquilo que chamam de sexto sentido parece convencer.

Me despido e chegando naquela primeira porta, destravada do começo, aparece o outro amigo cubano. Yaniel es músico, toca e canta com a rara sutileza de quem é de Santiago de Cuba.

O acaso poético me convida voltar atrás.

Voy a hacer um café” e voltamos os três até a cozinha. Dois minutos depois estamos os três falando dessa sensação palpitante de algo que “ya no está más”, e que foi, ou ficou para trás: Cuba. As lembranças nos levam de volta naquele espaço-tempo que deixamos, numa espécie de triste alegria, que nos abraça nesta felicidade maior: É ESTE VIVER.

O café em Cuba, servido em pequeníssimas xícaras, fortemente adocicado sempre foi o pretexto para amarrar o encontro, quase sempre nas cozinhas, esperávamos  que quem estivessem fazendo colocasse el poquito de café que nos correspondia. Era um instante corriqueiro, cotidiano mas sublime, roçando o divino.

Assim era em Cuba e assim me pareceu hoje.

Essa ponte estabelecida no fato de estar juntos num lugar comum, distante de outro lugar comum, nos fazia mais próximos do que nunca de nós mesmos. Algo assim como assistir um filme com outras pessoas e depois sentar para conversar sobre o que aconteceu.

Era algo simples, cotidiano e corriqueiro como um café, porém sublime, beirando o sublime.

Chegam Samuca e Kike e naquilo só faltou um dominó, um musiquinha bem alto, um rum, e de um danzón. Era a transposição poética de um passado inexistente, possível, e real no presente. Partilhamos algumas memórias, os amigos comuns, os planos sobre ese PUENTE que precisa ser levantado. Os filhos de este novo país que cresce no peito e na consciência nossa de sobre vencer. A constatação de uma natureza transumante, individual em cada percepção, sobre este ser que abandonamos num corpo que partiu de outro território, humano e temporal. As devidas nuances. Os tons. As afirmações,  contradições e negações de cada um. As mortes, passadas e futuras.

Depois saímos juntos pela mesma calçada e o sol. Ao principio numa mesma direção: era o leste. Em pouco mais que uns quarteirões, cada um tinha pegado seu rumo. Eu resolvi escrever.

822, el valor de la vida.

822 reais. Es real. Dinero bruto entrando en la caja. Salario único, básico, poco.

1 real equivale hoy en días a más o menos medio dólar. Es una mierda pero todo en el mundo se compara con el dólar. Entonces, 2 reais por 1 dólar.

Trabajo como educador en el Projeto Quixote que además es el proyecto que me acogió desde que antes de llegar a Brasil. Vale la pena, un lugar rico en experiencias y personas muy diversas y muy queridas. Ochocientos y veintidós reales. Eso y nada, por ahora.

Llego al buteco. Le pisco a la garçonete que me sonríe. Le pido un vaso y me siento con los amigos. La mesa está mojada de tanta cerveza que rodó y rodará. Los conozco a todos por el nombre. Saberse el nombre de alguien es lo que te salva de llamarlo de humano, o de bicho, animalejo. La noche escuchará muchos chistes y mentiras y por debajo de las mesas, manos y brazos jugarán a la suerte con el futuro. Al final de la noche la cuenta, me espanto, no tanto y me alejo del tumulto. Son 822 reais, lo poco ni siquiera alcanza a suficiente.

Todavía me le acerco a la garçonete que trató en vano de adivinar de dónde yo era, y le regalo la respuesta. Si supiera todo lo que le puedo decir en el más fino portunhol caribeño no se alejara cabizbaja, dándose por vencida, yéndose. Cuando regreso a la mesa, la cuenta está paga. Suspiro el alivio.

En el mercado de la esquina de la casa, los precios no son los mejores, pero tener un mercado en la esquina de la casa no tiene precio. Por los no muy extensos corredores, vecinos del barrio exhiben sus nuevas camisas de fútbol, la señora con los espejuelos, las muchachitas flaquitas sin ajustadores, un tipo, otro, dos niños. Entre cada mirada que acierto, le hecho un ojo a las etiquetas rojas: son las promociones. Muy a menudo son productos que no les queda poco tiempo de validad. Los pobres consumidores nos alegramos y pagamos la diferencia de la rebaja en la cerveza. Antes de digitar la seña de mi cartón de débito le rezo al Dios divino Bradesco.

Camino despacio, acostumbrado a rasgar ciudades de esquina a esquina, São Paulo no conoce todo lo que yo le conozco. Soy un cómplice y soy su testigo.

Atravieso kilómetros de gente, absurdamente triste y trasnochada, mientras pienso en qué escribir por la noche o dónde estará mi hijo. Tropiezo con los ejecutivos, algunos más jóvenes que yo, con aquella mirada gastada de quien no es feliz. Me arriesgo en el semáforo, luz vermelha, y me esquivo del carro, la moto y los dos muchachos andando de skate.

La vida de quien no quiere rendirse al majestuoso monolítico del dinero, es el simple deseo de estar vivo.

Una sombra en el parque, compartida con dos palomas que insisten en no decretarse monógamas, disputada con la hoja seca cayendo en la brisa, agitando el brazo la niña de diez me enseña un dibujo a lápiz que hizo hace un instante, el hombre bosteza sin taparse la boca, Angélica – el nombre lo descubro de su broche – se maquilla caminando, el oficial de tránsito se molesta con su novia, un rubio largo en chinelos muestra su guía como si fuera una medalla, dos rapaces se divierten con una revista entre las manos, yo abro mi cartera, la bailarina recoge del suelo un arete con la magia de una Giselle descalza, Batman canta en inglés algunos blues, sin dinero el cielo es azul como nunca, el asfalto tiembla cuando pasan dos o tres carros al mismo tiempo, la sombra de un payaso esconde del sol su maquillaje, el del banco con miedo protege con sigilo algún documento, dejo escapar mi ómnibus con la consciencia de quien no quiere pagar aquel absurdo.

Bilhete único es un cartón de integración de transporte público de São Paulo. Con el me muevo más fácil e increíblemente es más barato. Con el precio de un viaje usando el Bilhete único , en el transcurso de tres horas, puedes pegar cuatro líneas diferentes de ómnibus, y si usas un metro o incluso el tren, pues te cobran más otro poco. Con los cálculos precisos y un reloj afinado, voy de ida y vuelta a la mayoría de los lugares pagando sólo una vez. A veces como quien no quiere las cosas, fuerzo bajarme por delante sin pagar mi tarifa. Otras, con unos de esos “tickets” sociales que me consiguen, pues también hago mi viaje sin pagar nada.

Mientras tanto, mi hijo se divierte con cada transcurso, sea de tren o metro o “guagua”. En casi todos nos regalamos un conocido o alguien por conocer y aunque, es arduo, difícil y caro todo ese rolé en transporte público nos la pasamos muy bien.

Oitocentos e vinte e dois reais..

Es real. Realmente.

Y quítame la electricidad, el agua y el celular. Resta el papel sanitario, el arroz y el feijão. Sustráeme el pan, la mantequilla, la leche y el café. Unas cervezas de litrão compradas más baratas en el mercado de la esquina. Un chocolate en el antojo.

Ningún lujo ni pretensión. Me libré de ese estigma de completarme con las cosas ni de compararme con aquellos que quieren tener más.

Todavía me deleito con la vida y AGRADEÇO. Los amigos, todos y todas, pueden decir más porque sin ellos quizá la Policía Federal estaría buscándome – es un chiste, ok?. Pero el hecho es que sin lo que tantos y tantas ya pagaron por mí en estos últimos tiempos, ¿qué decir? Desde transacciones internacionales, deudas sin endeudar, préstamos disfrazados de Papa Noel, las cuentas divididas, el convite a la mesa para almorzar, un café, un viaje a cualquier lugar. Les agradezco a todos y todas.

Me detengo frente a las luces de neón – un cine, una fiesta, un concierto, una exposición, un libro abierto – y sonrío. Con esos monstruos de artistas, fue que mi corazón aprendió la felicidad. Vagamente los recuerdo: frente al espejo sólo una luz es la que se refleja. Discúlpenme Córtazar, J.L. Borges, Guimarães Rosa.

Hurgo entre mis cosas mi carteira de estudante: periodismo en una facultad de otra ciudad. Ese enmascarado delito me deja por la mitad cualquier valor a pagarle a los maestros.

Como se diría en Cuba: “A cultura não tem momento fixo”.

El día que vi la muerte en la ventana.

Existe actualmente en São Paulo casi una guerra civil. Casi porque no es declaradamente abierta, pero es descaradamente diaria. Existen tres grandes grupos que se dividen las fuerzas. Uno es el Primeiro Comando da Capital, de siglas PCC. El segundo, estaría formado por las Fuerzas de seguridad públicas: policías militares, civiles y federales; grupos de exterminio o cuadrillas formadas por policías que se aprovechan de su poder para intentar ejercerlo contra el primer grupo. Y el tercer grupo, las víctimas.

Esta guerra lleva sucediéndose por los últimos dos meses más o menos. En la prensa, las autoridades han intentado “embarajar” el tema, hablando que los ataques, muertes y asaltos son hechos aislados y que las víctimas se encuentran “no lugar errado no momento errado”.

El hecho es que por varias semanas, todas las noches en la ciudad de São Paulo, la más rica y desarrollada ciudad de la América Latina, en índices meramente económicos, son asesinados varios policías por parte del PCC – y no es el Partido Comunista de Cuba, otro PCC que consiente hace años otras varias muertes – además de otras tantas víctimas escogidas al azar en esquinas, bares, parques o ómnibus.

No hay reconocidos culpables. Hasta los más crueles asesinos – sean del PCC o de alguna de las policías – se divierten viendo en la televisión las imágenes de quien simplemente es más un número en la estadística de la Seguridad Pública.

En medio a esos hechos – que no me interesan profundizarlos – yo me hago como que no es conmigo, transito por las noches como si fuese la última estrella del cielo opaco de esta metrópoli, a la búsqueda de una brisa romántica que me abrace y me traiga de vuelta a esta Tierra, donde soy, solamente polvo. Mi vida me fue dada, divinamente, por el simple amor de mis padres; por el grande amor de mi hijo.

Es 2010, Natalia está embarazada. Estamos los TRES en la casa de una amiga en Guarujá, litoral paulista. Hacía ya varios meses que no entrábamos en el mar. Ese el peor y más grande defecto de esta ciudad. Pero ya están Naná y Benjamín, juntos, todavía siendo una sola persona entrando en el mar verde de unos ojos. Aquellos ojos profundos frente a la profundidad del mar. Él, todavía innombrable, apena deseo, sin ninguna memoria entrando con ella.

El agua es rasa, extensa la arena, algún gris en el cielo.

Final de la tarde caminamos de regreso, Baxinha, la amiga, y nosotros; conversábamos, nada importante. Recuerdo que había sol, que sólo teníamos que andar tres cuadras, que yo cargaba tres sillas replegables. Que sonreíamos.

Vi alguien que se aproximaba. Bermuda, camiseta, chinelos. Nadie importante.

Baxinha mete la llave, abre la puerta, el hombre está de nuestro lado, entre nosotros, muestra un revólver. No nos asustamos. De cualquier manera el tipo nos pide tranquilidad, esconde el arma, nos sigue dentro de la casa. Habla despacio, bajo, muestra el arma. Pregunta si hay más gente en la casa, alguien más llegando de la playa. Amenaza.

Natalia está nerviosa, visiblemente, no mucho. No la pierdo de vista, cercanos, pero sin exponernos demasiado. Tengo miedo, no del arma, del hombre que nos conduce a la casa y por nuestras indicaciones de cómo llegar al fondo, amenazados, llegamos donde están la caseira y sus hijos, un par de adolescentes algo más altos que yo. Nosotros nos presentamos antes, pidiéndoles que mantuviesen la calma, y luego el tipo, el arma, nos apresa a colocarnos juntos.

Todo ese tiempo, entre súplicas nuestras de que por favor nos dejase tranquilos, y una increíble frialdad del otro lado del revólver. Amenaza. Los muchachos no lo creen. Natalia nerviosa. Yo con miedo. Todos con miedo. Él advierte, cualquier movimiento, alteración de ánimo, intento de reacción, y las cosas pueden empeorar.

Pide los celulares. Los entregamos. Entonces el asaltante, un hijo´e puta flaco, pelo corto,  hace una llamada telefónica a los comparsas. Los muchachos, hijos de la caseira¸ quienes viven ahí hace unos años y que cuidan la casa, intentan conversar con el hombre. Apelan a nombres de lugares, barrios, gente que conocen intentando alguna condolencia. Algo que quiebre el frío empuñe del gatillo, el alarido casi ronco, bajo, que nos mantiene contra la pared, sobre una cama a nosotros seis y mi hijo.

Nos lleva hasta la sala. Es amplia con muebles viejos de madera, todo rústico sin alardes ni ostentos. Algunos cuadros pintados por algún amigo de la familia. Estamos de espalda a la puerta de salida y siempre de frente, mirando atentos al hombre armado. Nos pide que no hagamos nada, no quiere tener que hacer una mierda. Intenta llamar de nuevo por el celular, no lo consigue. Alejándose hasta un traspatio, un jardincito, consigue comunicarse. Otros tipos están llegando, se le deja entender en la conversación.

Natalia está más calma. No recuerdo si estamos abrazados. Si hay una mano de ella en mi mano. No recuerdo si dudo, si tiemblo. No sé y nunca sabré lo que sentía mi familia, ahí a mi lado. Sé que no recuerdo a la muerte, ni su frío ni su silencio. Sé que no estuvo rondando entre hendijas, resbalando entre los metales de la cocina. Sé que no pasó por la ventana.

En ese vacilo, o cara regresa sonriente, por la primera vez algo nervioso, lanza su mano sobre la mesa y rescata el arma descuidada. Un instante en que todo podría haber sido diferente. Un buen guion no habría perdonado  ese detalle.

Tocan la puerta, el hombre exige al menor de los hermanos que abra, allá fuera, la puerta. Amenaza lo peor, y no quiere que nada suceda. Escucho un carro, se apaga el motor. Dos hombres atraviesan la sala por un corredor sin dejarse ver el rostro. Uno raspado, muy joven, adolescente interrumpe y escupiendo gritos, ensayados y malévolos toma posesión del revólver. Tiene los ojos encendidos, por primera vez tengo miedo del arma porque la muestra y juega con ella entre la manos, haciendo que Baxinha, nuevamente, explique lo de Natalia embarazada.

El resto se dedica a llevarse cosas de la casa. Los más perjudicados son la caseira y los hijos, estos muchos más decepcionados. Aquellos había sido por tiempo, el trabajo de años de una familia creciendo feliz muy cerca de la playa. Aquel primero, regresa, subestimando que haya tan poco, pregunta por una tal de caja fuerte, por la joyas, acaricia los cuadros preguntando si aquellos no serían de otro valor más admirable. Atraviesa nuevamente el jardincito. Esta vez el revólver se movía en la mano del compinche, ojos encendidos rojos, un peligro adolescente – olha a morte borboletando na janela.  Regresa con nuestras mochilas y se burla de lo poco que tenemos, no se conforma. Natalia ofrece la cámara, es lo que más tiene de valioso – algunas fotos de Europa, de un viaje que había hecho el año antes y que todavía no había descargado.

A los que nunca les vimos las caras, ni les escuchamos las voces, desaparecen en el corredor. El primero anuncia la retirada y nos dice que nos dejará amarrados, en el baño, amordazados. De nuevo tengo miedo del hombre tras del arma. Pero es un riesgo para mi familia, y la estrella solitaria en la metrópoli avanza sobre la sierra, entre hojas húmedas de un rocío que no acaba, una lluvia lenta en mi espalda, el tiempo hecho instante detenido ante lo vulgar de la muerte, el pensamiento inerte, los ojos de la esperanza posados en la calma, en la simplicidad de un deseo en el centro de mi pecho – de todos, seguramente – que me agarra, cauteloso, en una luz violeta que recorre el tiempo, un sonreír, el silencio.

Todo para.

ESTOY VIVO. ESTOU VIVO.

Escuchamos el portón cerrarse. Un ruido de motor, el carro ronroneando, llevándose media casa.

Natalia me abraza, y yo, simultáneamente a ella. Debajo de los brazos, silencioso, nuestro hijo poco entendía que era aquel todo golpetear tenso que lo arrullaba. Todos lloramos y a los pocos, percibiendo que cosas se habrían realmente robado.

El cielo estaba anaranjado. Ninguna otra estrella ofuscaba las luces que la tarde brindaba. Probablemente en la playa, la mayoría se reía sin mucho sentido sin saber de todo el sentido de estar vivos.

Lo que es ridículo va a buscar sentido a donde exista alguna fe. Nos enorgullecimos de las posturas que no preservaran vivos. Nuestro hijo podría conocer la vida y a nosotros. Natalia y yo nos queríamos mucho, lloramos. Los muchachos percibieron cuanto más pobre serían, se lamentaban, crecían. La madre los abrazaba como el primer día. Para Baxinha era su segunda vez, la misma casa, que era asaltada; no estaba conforme pero tal vez conformada. Decidimos ni llamar a la policía, varias horas serían perdidas para nada. La noche y la brisa helada venían desde el océano, suavemente, como si nada pasara.

En el silencio perduraba el peligro de la muerte anunciada, nosotros completamente vulnerables, finitos, desechables. Éramos polvo. Un suspiro profundo dentro de otro abrazo a Natalia, nuestro hijo, y finalmente, mucho miedo.