eu do seu agora

(as vírgulas é a respiração da minha escritura, apenas respire nos seus versos)

na massa amorfa curvas sinuosas demarcam territórios, derradeiros senderos do ser que se manifestam no arbítrio do nós, somos mais a casca de um caroço, delicioso e de raro sentir que ajoelhado, na espera de um grito feroz do existir pelo sol d´estes olhos, neste instante ou de um tempo sem fim, na mordaça do ego, avistamos a seqüência, a experiência plausível, infinita do estar, reagir, brisa quente, fato feitos, sombria a angustia de uma escolha ou o silêncio da dúvida, um muro entre a mão e o fazer, entre os pés e este ir, o convexo, o alheio ou o amparo, sombra inócua da sinceridade, um sorriso, um suspiro, um bocejo ou o gozo sem medo diante do amar, você estica a silhueta, confiante ou entregue, diante da berlinda parede, uma massa amorfa que se manifesta sem eco, sem sombra, sem gestos, toda ciência é um pertencimento, um abraço, um afeto ou um apego, dentre estes versos que escrevemos no fazer que sonhamos, na dança silente de um com os outros, elas sempre, ou a vida certeira de estar vivos, nós e outros, nossas almas, puxamos a corda, a raiz do sem forma, do indigesto, da falsa moral da verdade, ou a vertigem do mandato altruísta, da opressão deste verme, quase humano, imparcial, produtor de afazeres e destempos, esse algoz do fortuito e dos sonhos, estopim do fantástico, sedutor, insistente, e rente e salvos, um respiro do ameno, despido das mágoas, águas do ventre que fluidas desembocam nos fluxos da terra, suas serpentes veredas, umectantes, sofridas, da vencida massa ora amorfa ora destituída, convertida no afã da sua força ou a potência da voz da sua palavra, emergida, destoante, de costas ao grávido púlpito, sem demarques,,nem curvos nem tortos apenas o eu do seu agora, ou este verso…

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Olhares de sempre

Era meio da tarde. Sob o asfalto, nos túneis do metrô, o ar aclimatado deixava num raro conforto o ambiente, apesar do sol que atravessava os vidros da estação Butantã.

As pessoas esvaziaram os vagões, e enfileiravam-se  em torno a escada rodante, que ia em direção à superfície.

Do outro lado do tumulto, uma menina olhou-me. Eu, deste lado, a olhei. Por uns instantes prendemos, fixado, o olhar de um no outro.

Éramos desconhecidos, e no olhar, de sempre e agora, nos fizemos presentes.

Nos olhos, as almas conectam. A essência se projeta em forma de luz invisível que somente é captada no olhar, até então alheio, do outro.

Ela acha que me conhece. Eu tenho certeza que não. Ela duvida, tem quase certeza. Eu brinco que a conheço de outra vida, há quinhentos anos atrás.

Perceba uma criança qualquer, na rua. Olhe aos olhos da criança. Se o olhar coincidir com dela, muito provavelmente, enquanto ela caminha se afastando, ela tornará várias vezes, tentando conectar novamente com você.

Ela agora coincide que antes não me havia visto. Diz que eu lhe lembro alguém. Um primo. A gente sorri, nessa alegria de sê reconhecer no outro.

No olhar de fora, a gente se reconhece. Vê-se o dentro de nós, num simples brilho: é a alma, ou eu. Às vezes, pode-se confundir com amor passional, aquele amor-a-primeira vista. As vezes, recebe-se o grito de um ódio, lá dentro de nós, e sem mais, você despreza uma pessoa comum, qualquer, sem saber porque.

Ela segue escada arriba. Eu me despeço até o próximo encontro – se houver. Mas ela fica em mim, vibrando a freqüência dela, comum cotidiana, neste instante conectado com o sempre. Eu fico, na dela.

E assim que vamos todos…. conectados. Conectando-se!

Olhe aos Olhos.

cenas para um roteiro em branco

CENA 1 _ EXT / DIA / PRAIA
na onda verdeazulada, o vento modula as formas do mar e dos corpos, ela surge sorrindo, o sol se encanta com o brilho, que se opaca traz uma nuvem de adeus e destino.

CENA 2 _EXT / RUA VAZIA – NOITE

um gato transita sem sombra. ninguém percebe o movimento da noite. somente a mariposa que apaga suas cores de luz neste beijo.

.                                        DESCONHECIDO (voz em off)

.                                              Você tem fogo?

CENA 3 _ INT / BANHEIRO / DIA

não há agua, nem luz, nem pessoas. somente um silêncio transita os azulejos e as torneiras, restos de umidade escorregam os vidros, semen no tapete, sorrisos no espelho.

.                            OUTRO DESCONHECIDO (fuera da cena)

.                                         Tem alguém no banheiro?.

 

Olhos de dentre

Ontem sonhei um sonho sem lua, onde o que iluminava era o escuro de uns olhos que eu havia esquecido, e desse preto da desmemoria, eu lembrei das lembranças de uma outra vida que eu havia vivido antes de todos meus sonhos com lua.

Daqueles olhos de dentro, olhando o que era minha vida, olvidei-me de tudo de antes e do resto que ainda me seria; no entanto de tanta confiança de este segundo que escrevo, me lembrei que tive tantos outros sonhos mesmo antes de té-los vividos.

Assim, de meu escuro de dentre, olhei-me bem por perto – silente – e vi que o que eu havia visto, era tudo que eu já havia morrido.

Despedidas da viagem*

“Negro, estou indo embora…” a despedida era eminentemente em breve, lhe disse a Meple ainda num abril há quase dez anos, casi diez años. Despedidas naquela ilha-à-deriva eram infinitas ou definitivas: eu não sabia, como poderia eu saber?

Nos demos o primeiro dos longos abraços: um aperto demorado de silêncios, tus cabelos despencando entre nossos peitos, a respiração continua e perdurável de nossos hálitos, os olhos fechados adentrando nos corpos de um, e do outro. Era, seria uma espécie de último e pôstrer abraço.

O tempo havia se detido caprichoso desde então, no primeiro daqueles últimos abraços nossos. Era uma esquina qualquer de La Habana, que hoje não mais lembro, naquela ilha que jamais voltou ser nuestra.

Daquele instante em diante, até que definitivamente minha partida-vinda ao Brasil se concretizou, passaram-se cinco meses “… estamos nos despedindo, Negro” (a memória recria suas próprias palavras, salvo-condutos de auto-afirmação e sobrevivência); e durante aqueles instantes o tempo se encolheu entre as mãos daquele agarre, entre dedos e unhas, o suor de nossa caribenha continuidade, tus dreadlocks y los mios aún sin hacerse, futuros, eram nossos olhos pretos, tão perto.

Ninguém compreenderia nossa despedida solitária, intuída, de finais exorbitantes e misteriosos, sem antes saber da nossa amizade de asas voadoras e de ensonhos. Nadie, talvez, ni siquiera nosotros.

Nos cinco meses posteriores ao momento do primeiro-último abraço a promessa seria cumprida a riste: o encontro é no presente: começa nos olhos, termina no fim do abraço, e será único sem aguardar o próximo abraço porque não há amanhãs na terra dos homens, nesta terra nossa, sua e minha.

Assim fora o antes que seria: vimos-nos sempre como se aquele instante fosse o último de nossas vidas.

E Meple… cumprimos com honra: hoje é sempre ainda: todavías.

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Renaces 

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    Renazco 

    *o título foi dado por você, Benjamín.

Mijando como as meninas

“É mejor mijar sentado…” me disse o Casio, lá na primavera dos meus doze anos, é provável que tivesse o rosto cheio de espinhos, na época eram mil e uns, “… experimenta para você ver” estávamos no corredor do terceiro andar da Escola Célia Sánchez – uma escola interna para crianças e adolescentes com asma crônica e diabetes, onde eu cursei dos anos.

Ele estava sentado no chão, abaixou as calças amarelas – uniforme da secundária – e sem pudor nenhum acertou o jorrinho dele no buraco por onde escorria a água em caso de chuva ou limpeza do corredor. A imagem é mais engraçada do que funcional.

Eu achei esquisito aquele gesto dele, risonho e provocador. Não lembro ao certo si naquela época eu concordei ou não, nem sequer lembro se testei, mas daquilo nunca esqueci.

Mijar sentado, ou como muitos diriam, como as meninas, é muito mais confortável: uma sensação de esvaziamento preenche o abdômen, que permite liberar também as pernas. Em casa é assim. Na casa dus amigus, assim é. A opção em pé fica para quando é inevitável: tem banheiro que não dá.

Na casa da Cló, quando o amor trasbordava pelas janelas e as lajes de La Habana, ela simplesmente exigia “faz xixi sentado, não suporto o barulho quando homem mija” era aquele som mais forte devido à altura da queda que lhe incomodava; e nos recém se conhecendo, e com ela era tudo ou nada: um sempre.

Então, entre banheiros limpinhos ou no conforto da casa, esse feito sempre que é possível… pois bem, eu mijo mesmo como as meninas: sentado.

Olhe Aos Olhos

assim como  o rio arredonda as pedras contra as pedras,
nos arredondamos nosso ser com o ser alheio.
haja rio. haja coração

 

Olhe aos olhos

Não a roupa que vestem os gestos

Olhe aos olhos

Não à palavra que alma o ego

Olhe aos olhos

Não às escolhas que fizemos em vida

Olhe aos olhos

Não ao consenso que juramos convívio

Olhe aos olhos

Nem as diferenças que politicam os dias

Olhe aos olhos

Não à fumaça do sucesso

Olhe aos olhos

Nem a fantasia de bastas lideranças

Olhe aos olhos

E olhe as crianças, as árvores e aos horizontes

Olhe aos olhos

De uma noite sem lua estrelada

Olhe aos olhos

Não ao salivar da boca

Olhe aos olhos

Não ao piscar de um medo apaixonado

Olhe aos olhos

De um orgasmo de dois ventres

Olhe aos olhos

Do fantasma de você no espelho

Olhe aos olhos

De fronte às palavras que sossegam seu próprio desterro

Olhe aos olhos

De um estranho e descubra o sem-fim da existência

Olhe aos olhos

De um prolongado silêncio

Olhe aos olhos

Da sua sombra, ela é a única que não mente

Olhe aos olhos

De uma solidão sem mágoas

Olhe aos olhos

Olhe

Olhe aos olhos

Olhe

Aos

Olhos.

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#OlheAosOlhos na Av Faria Lima com #Manoelando

Zóios do bem (pelo mal)

o silêncio são das relações, o que as palavras são da solidão!

 

 

Tão belos seus olhos que me enxergavam

Um brilho de luzes sem motivos

Tal o sorriso do encantamento

e tal o maravilhamento

que desconfiei da minha vileza.

 

Senti o breu de um rápido piscar

no véu de um súbito adeus

e sem tempo de me orgulhar

do meu surpreso reflexo

escolhi o silêncio para te sorrir.

 

Nunca arrisquei a flor-timidez

pétalas dessas não abdiquei jamais

uma estranheza de ser o que sou

(e apenas o que de mim consigo)

mas que raramente consigo despir.

 

Mas seus olhos de fino respirar

persistiam em me ver feliz

eu sem poder-lhe mentir

do seu tento preferi me afastar

assumindo apenas o que de mim, sou.

 

Assim dos zóios do bem

por presságio do ego falar

descobri que eu odiava por mal

num afoito do deus interior

que não esconde a raiva ao não viver nosso amor.

espirais

Existe uma espiral no peito

destino próprio de si

no caminho crucial dos sentidos

avalanche comum do existir

de palavras que sucumbem na névoa

da singela voz interior

perguntas cotidianas

anseios do imenso

mascaradas do ego-sonhador

fantástica sapiência dos céus

evocados naquele dEUs infeliz

vingativo de rude substância

incapaz de assumir seu devir

a ilusória verdade dos além

d´um futuro sempre mais promissor

de infindáveis luxurias do corpo

nos outros corpos

(cada vez mais belos corpos)

no desejo do alheio

da esperança perdida

d´outros cantos

da mesma velha sereia

que abanica sua cauda infantil

na profunda galaxia

nos confins

do amar.

 

 

 

 

 

faça frio, venha calor

estou afiando a faca para sepultar a morte,

o destino da ponta é meu peito,

o dos gumes nosso inverno. >>  <<

 

a mariposa não pousa na sua mão porque você a persegue. somente, num vento andaluz no instante seguinte ao sol se apagar no seu anseio, com os olhos fechados num beijo – de nos – , é que ela se entrega.

no vazio do trem, as pessoas. no interior do ser, o silêncio. no oco da voz, as memórias. no profundo de um sonho, maresias. na ventania do tempo, os preságios e os remorsos. na esperança do eu, nos e outros. no abraço a solitude, a esperança, ciclo de sete cavernas do escuro eterno.

nunca é azar o acontecer dos acasos, nem tem destino o respiro dos encontros, nem horizonte final o oceano de um sonho, não é o dia o amanhecer dessas noites, nem o inverno consegue esfriar nossa febre, não há palavras para escrever sentimentos, nem silêncio para calar a existência