Amanhecer: nasce uma estrela

Também não precisa sair assim
Espere o dia amanhecer

Itamar Assumpção

 

a festa terminou, avisou o outono com as folhagens caindo desde os céus. a brisa austral anunciou mudanças, e a rosa-dos-ventos apontou pro poente. um azul sangue tingia os caminhos da noite. uma estrela antecipada cravou um diamante no escuro.

cada um vai a procura de si, disse o rio, caindo aos prantos desde a montanha. e rasgo-se em pequenos miúdos, todos úmidos e deliciosos, abrindo feridas de água na pele do mundo.

era inevitável o brilho dos sóis, desenhando silhuetas distintas, outras formas de se projetar sobre a grama, nos fiapos líquidos que vinham da montanha, nessa rara distância que semeava infinitos.

a luz brilhará infindavelmente, até o fim, disse o sol e calou-se diante de uma singela nuvem que usurpou sua voz. as sombras sumiram, afogadas no riacho, no denso das árvores ou fugiram tentando sobreviver.

a estrela descolou-se dos fios. veio incessante destino do chão, era um alma tardia, senhoria do humano e do agreste, da sombra sem luz, a solidão.

era quem,  esse corpo jazido entre muge e silêncio? o ardor sob a pele úmida, que estilhaçava insetos e gemidos. não tinha luz diante dos olhos, nem remorsos do acontecer, não angariava destinos ou fatos. respirava para sobreviver.

este é o fim, diz a relva colada aos suspiros e secou-se instantânea com o bafo daquele soluço. restou-lhe diante, a terra, firme nas ânsias do ser ou jamais.

a vida, é da morte o começo, diz a noite, e amanheceu numa suave manhã, de outres sóis e suas sombras,  um diamante nas lágrimas do adeus. a mão arrancou um pouco do tanto, com as unhas. um abraço de si, solitário, sem ter fim, o existir.

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coisas há fazer

estou desfazendo os fios da dor

que se tecem

cotidianamente

sob lençóis,

nos abraços,

entre nós.

 

estou desfazendo os fios da dor

que se tecem

cotidianamente

nos cafés

dos instantes

deste viver.

 

estou desfazendo os fios da dor

que se tecem

cotidianamente

nos meados

ao começo

e afins.

 

estou desfazendo os fios da dor

que se tecem

cotidianamente

entre o eu

os alheios

e este parecer.

 

estou desfazendo os fios da dor

que se tecem

coti…

diana…

mente.

testemunho

queria deixar meu testemunho de medos, o espelho do que ainda desconheço dos meus gestos; a beirada do gozo, da lágrima, do silêncio; o meu medo de uma felicidade instantânea-constante; o afeto do outro sem mais que o afeto; um sono profundo, com toque de sonho irreal, verdadeiro; o fundo de mim no brilho do seu sorriso; e tantas outras pequenas verdades que prefiro mentir…. eu queria poder amar-me sem medo

ar de diáspora humana

faz quase uma semana não sei de minha familia em cuba. lá estão sem “tempo” de internet. porém a distância há criado uma forma de comunicação diferente, que é o de confiar e de desejar bem sem a pressão da nostalgia. porque cada um escolhe estar onde está. nos amamos e sabemos de nosso amor pelos nossa familia, ora distante. esse amor as vezes machuca pois a distância se perpetua. temos crescido nesse ar de diáspora humana. ter imigrado me fez de outra especie. um ser que habita com ausências e solitudes em demasia. haja sol para estas sombras longincuas. haja vida para esta temporada de hastios. #sobrevivente!

eu do seu agora

(as vírgulas é a respiração da minha escritura, apenas respire nos seus versos)

na massa amorfa curvas sinuosas demarcam territórios, derradeiros senderos do ser que se manifestam no arbítrio do nós, somos mais a casca de um caroço, delicioso e de raro sentir que ajoelhado, na espera de um grito feroz do existir pelo sol d´estes olhos, neste instante ou de um tempo sem fim, na mordaça do ego, avistamos a seqüência, a experiência plausível, infinita do estar, reagir, brisa quente, fato feitos, sombria a angustia de uma escolha ou o silêncio da dúvida, um muro entre a mão e o fazer, entre os pés e este ir, o convexo, o alheio ou o amparo, sombra inócua da sinceridade, um sorriso, um suspiro, um bocejo ou o gozo sem medo diante do amar, você estica a silhueta, confiante ou entregue, diante da berlinda parede, uma massa amorfa que se manifesta sem eco, sem sombra, sem gestos, toda ciência é um pertencimento, um abraço, um afeto ou um apego, dentre estes versos que escrevemos no fazer que sonhamos, na dança silente de um com os outros, elas sempre, ou a vida certeira de estar vivos, nós e outros, nossas almas, puxamos a corda, a raiz do sem forma, do indigesto, da falsa moral da verdade, ou a vertigem do mandato altruísta, da opressão deste verme, quase humano, imparcial, produtor de afazeres e destempos, esse algoz do fortuito e dos sonhos, estopim do fantástico, sedutor, insistente, e rente e salvos, um respiro do ameno, despido das mágoas, águas do ventre que fluidas desembocam nos fluxos da terra, suas serpentes veredas, umectantes, sofridas, da vencida massa ora amorfa ora destituída, convertida no afã da sua força ou a potência da voz da sua palavra, emergida, destoante, de costas ao grávido púlpito, sem demarques,,nem curvos nem tortos apenas o eu do seu agora, ou este verso…

Olhares de sempre

Era meio da tarde. Sob o asfalto, nos túneis do metrô, o ar aclimatado deixava num raro conforto o ambiente, apesar do sol que atravessava os vidros da estação Butantã.

As pessoas esvaziaram os vagões, e enfileiravam-se  em torno a escada rodante, que ia em direção à superfície.

Do outro lado do tumulto, uma menina olhou-me. Eu, deste lado, a olhei. Por uns instantes prendemos, fixado, o olhar de um no outro.

Éramos desconhecidos, e no olhar, de sempre e agora, nos fizemos presentes.

Nos olhos, as almas conectam. A essência se projeta em forma de luz invisível que somente é captada no olhar, até então alheio, do outro.

Ela acha que me conhece. Eu tenho certeza que não. Ela duvida, tem quase certeza. Eu brinco que a conheço de outra vida, há quinhentos anos atrás.

Perceba uma criança qualquer, na rua. Olhe aos olhos da criança. Se o olhar coincidir com dela, muito provavelmente, enquanto ela caminha se afastando, ela tornará várias vezes, tentando conectar novamente com você.

Ela agora coincide que antes não me havia visto. Diz que eu lhe lembro alguém. Um primo. A gente sorri, nessa alegria de sê reconhecer no outro.

No olhar de fora, a gente se reconhece. Vê-se o dentro de nós, num simples brilho: é a alma, ou eu. Às vezes, pode-se confundir com amor passional, aquele amor-a-primeira vista. As vezes, recebe-se o grito de um ódio, lá dentro de nós, e sem mais, você despreza uma pessoa comum, qualquer, sem saber porque.

Ela segue escada arriba. Eu me despeço até o próximo encontro – se houver. Mas ela fica em mim, vibrando a freqüência dela, comum cotidiana, neste instante conectado com o sempre. Eu fico, na dela.

E assim que vamos todos…. conectados. Conectando-se!

Olhe aos Olhos.

cenas para um roteiro em branco

CENA 1 _ EXT / DIA / PRAIA
na onda verdeazulada, o vento modula as formas do mar e dos corpos, ela surge sorrindo, o sol se encanta com o brilho, que se opaca traz uma nuvem de adeus e destino.

CENA 2 _EXT / RUA VAZIA – NOITE

um gato transita sem sombra. ninguém percebe o movimento da noite. somente a mariposa que apaga suas cores de luz neste beijo.

.                                        DESCONHECIDO (voz em off)

.                                              Você tem fogo?

CENA 3 _ INT / BANHEIRO / DIA

não há agua, nem luz, nem pessoas. somente um silêncio transita os azulejos e as torneiras, restos de umidade escorregam os vidros, semen no tapete, sorrisos no espelho.

.                            OUTRO DESCONHECIDO (fuera da cena)

.                                         Tem alguém no banheiro?.

 

Olhos de dentre

Ontem sonhei um sonho sem lua, onde o que iluminava era o escuro de uns olhos que eu havia esquecido, e desse preto da desmemoria, eu lembrei das lembranças de uma outra vida que eu havia vivido antes de todos meus sonhos com lua.

Daqueles olhos de dentro, olhando o que era minha vida, olvidei-me de tudo de antes e do resto que ainda me seria; no entanto de tanta confiança de este segundo que escrevo, me lembrei que tive tantos outros sonhos mesmo antes de té-los vividos.

Assim, de meu escuro de dentre, olhei-me bem por perto – silente – e vi que o que eu havia visto, era tudo que eu já havia morrido.

Despedidas da viagem*

“Negro, estou indo embora…” a despedida era eminentemente em breve, lhe disse a Meple ainda num abril há quase dez anos, casi diez años. Despedidas naquela ilha-à-deriva eram infinitas ou definitivas: eu não sabia, como poderia eu saber?

Nos demos o primeiro dos longos abraços: um aperto demorado de silêncios, tus cabelos despencando entre nossos peitos, a respiração continua e perdurável de nossos hálitos, os olhos fechados adentrando nos corpos de um, e do outro. Era, seria uma espécie de último e pôstrer abraço.

O tempo havia se detido caprichoso desde então, no primeiro daqueles últimos abraços nossos. Era uma esquina qualquer de La Habana, que hoje não mais lembro, naquela ilha que jamais voltou ser nuestra.

Daquele instante em diante, até que definitivamente minha partida-vinda ao Brasil se concretizou, passaram-se cinco meses “… estamos nos despedindo, Negro” (a memória recria suas próprias palavras, salvo-condutos de auto-afirmação e sobrevivência); e durante aqueles instantes o tempo se encolheu entre as mãos daquele agarre, entre dedos e unhas, o suor de nossa caribenha continuidade, tus dreadlocks y los mios aún sin hacerse, futuros, eram nossos olhos pretos, tão perto.

Ninguém compreenderia nossa despedida solitária, intuída, de finais exorbitantes e misteriosos, sem antes saber da nossa amizade de asas voadoras e de ensonhos. Nadie, talvez, ni siquiera nosotros.

Nos cinco meses posteriores ao momento do primeiro-último abraço a promessa seria cumprida a riste: o encontro é no presente: começa nos olhos, termina no fim do abraço, e será único sem aguardar o próximo abraço porque não há amanhãs na terra dos homens, nesta terra nossa, sua e minha.

Assim fora o antes que seria: vimos-nos sempre como se aquele instante fosse o último de nossas vidas.

E Meple… cumprimos com honra: hoje é sempre ainda: todavías.

ExifJPEG

Renaces 

  • ExifJPEG

    Renazco 

    *o título foi dado por você, Benjamín.

Mijando como as meninas

“É mejor mijar sentado…” me disse o Casio, lá na primavera dos meus doze anos, é provável que tivesse o rosto cheio de espinhos, na época eram mil e uns, “… experimenta para você ver” estávamos no corredor do terceiro andar da Escola Célia Sánchez – uma escola interna para crianças e adolescentes com asma crônica e diabetes, onde eu cursei dos anos.

Ele estava sentado no chão, abaixou as calças amarelas – uniforme da secundária – e sem pudor nenhum acertou o jorrinho dele no buraco por onde escorria a água em caso de chuva ou limpeza do corredor. A imagem é mais engraçada do que funcional.

Eu achei esquisito aquele gesto dele, risonho e provocador. Não lembro ao certo si naquela época eu concordei ou não, nem sequer lembro se testei, mas daquilo nunca esqueci.

Mijar sentado, ou como muitos diriam, como as meninas, é muito mais confortável: uma sensação de esvaziamento preenche o abdômen, que permite liberar também as pernas. Em casa é assim. Na casa dus amigus, assim é. A opção em pé fica para quando é inevitável: tem banheiro que não dá.

Na casa da Cló, quando o amor trasbordava pelas janelas e as lajes de La Habana, ela simplesmente exigia “faz xixi sentado, não suporto o barulho quando homem mija” era aquele som mais forte devido à altura da queda que lhe incomodava; e nos recém se conhecendo, e com ela era tudo ou nada: um sempre.

Então, entre banheiros limpinhos ou no conforto da casa, esse feito sempre que é possível… pois bem, eu mijo mesmo como as meninas: sentado.