memórias do inverno mais frio

no palácio ateniense das musas, se trocam por centavos as paixões, os beijos na balança são por centeio, e os orgasmos se convertem em sete cordas de terrenos baldios. os homens sempre custaram menos, eu mesmo me troquei por um espelho.

faça frio, venha calor

a ventania da criança do inverno que trouxe suas folhas de fios dourados, e brindou sua noite amarela de danças circulares, quem desenhara o cais dos seus dentes, a língua do centro do beijo, entre tenras maozinhas de um cálido chão: era os ossos o abrigo do abraço, a carne estava quieta, não mordi.

faça frio, venha calor

no lumiar de um bosque de escuros matizes, no meio ao húmus das folhas úmidas do último outono, sob a tenra volúpia da terra inerte, um broto de vida suspira vulcões de afago e tesão no paralelo d´um instante: somente em olhos acessos que renasce o instante do agora… e tudo é possível no jardim dos tempos do Éden.

faça frio, venha calor

 

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quien seca la ropa?

Quien seca la ropa colgada es el tiempo: medio sol de luz de mañana, una llovizna súbita repentina, dos nubes que cobijan al Astro Rey al mediodía, un granizo casi eterno, está lluvia perenne de tu ausencia: no trinan los pájaros, ni me vuelan maripositas en el pecho. Quien seca la ropa es el tiempo! Cuántos meses tarda esta añoranza?

sobre anhelos y pertenecimientos

si en tu anhelo de tenerme tu duda se entrega antes que el deseo; si tu cuerpo límpido aún prefiere la pureza a mi cuerpo de guerras machucado, si al contrario todavía necesitas de este cuño de lo puro, de una vida que no conoce la aspereza de vivir, pues no me tengas, ni te preocupes en hacerte posible de este abrazo, no seré yo quien certifique mi franqueza de palabras, mi castigo de pasados, la libertad de mis besos.

encantado

… havia de me encantar com o sublime: um céu tingido de vida no fim da esperança, o mar deste abismo sem cura chamado solidão, a beleza contida numa flor singela de pétalas, o vôo desajustado dessa ave andorinha de ser, uma árvore despida, somente  fatos vadios de seus galhos procurando sobreviver, esta terra, tenra e saudosa, escapando dentre as mãos do fazer, a noite clara sem lua, solitária e ofegante, que deitava sobre todo o existir, uns passos distraídos de crianças destoando alegrias dentre os outros, o olhar satisfeito de um orgasmo entre as pernas da fêmea, mulher de este bicho perdido, obsecado por seu próprio si, com a boca mutada em palavras, a fome dos olhos fechados num escuro de raro viver, um abraço cedido à sombra, ao temor de deixar a alma partir neste jogo da vida, e o encanto era o brilho do instante, fulgurando em sóis queimando o agreste, estas sombras-destinos, onde o que mais me encantavam eram os meus dizeres, catatônicos da minha loucura, meu eu de este agora, imponente sobre todes os seres, diminutos,e eu me bastava incompleto, sem dar tréguas às fantasias alheias, ignomínias resultantes do vazio pueril destes outres, que cohabitavam meu ego final, manifestos finitos de mim, eu me amava sem mais, sem ninguéns, sem depois…

manifestos de ser

o que estamos vivendo não conhece manifestos

não pertence aos manuais

nem sequer algoritmos

nenhum efeito paranormal conhecido

desconsiderem-se os mapas

bitácoras

bússolas despercibidas

qualquer objeto material concebido

desconhece acordos

beiradas

abismos

trilhas, senderos, veredas

fronteiras limítrofes

esferas hexagonais

intrínsecos e opostos

borderlines antropófagos

uma linha de luz

que se apaga no opaco silêncio

da vontade interior

de ser…

 

 

notas sobre barcos e o naufragio

um barco a sós, desvenda rios agua abaixo. as rochas beiram a mordaça líquida e dividem o úmido entre fundo e quinas.

dois barcos demarcam correntezas, travessias do incógnito. afluentes levam a locais opostos, baixios de lama ou imensas lagoas cristalinas.

um barco de velas navega no vento, esticando asas brancas no céu das águas. um barco de velas trafega distante, dá para enxergar sua cauda de luz flutuando sobre as ondas.

a jangada cruza uma, duas mil vezes um rio. Nada a distância da outra beira, nem do velho caís de segurança.

uma armada é coisa rara. distintas naves todas alinhadas alavancam o destino de ser heróis ou náufragos de um destino pouco conhecido.

um barco afunda por si mesmo. o peso nele denota poucas manobras e o tombo é um fato entre o acaso e o destempo.

naufragio é coisa de marinho, invenções maiores deste humano. um náufrago escreve poucas palavras. seu destino é outro, o de viver para além do barco e destas águas.

otro carnavales

bifurquése, en frente hay siempre más de un camino; espérese, hay tiempo para otras decisiones; acéptese, los hechos son mayores que nosotros mismos; escúchese, dígase, escríbase, apáguese, olvídese, somos lo que queremos para ser aceptos entre miradas y cuchicheos, o comprése un espejito portátil; canjeése por platas, o por menos, plomos; mueráse, al fin este silencio oscuro es lo que más nos instiga en vida, la cotidiana muerte