rascunhos à beira-mar

à espera da entrada da gruta

só o caminho do tempo

executa

 

 

todo destino me parece parcial

ou fardado

iludido.

 

 

no olho no fim da serpente

o escuro do sempre

vida rente

 

 

o som de quantas lágrimas de chuva

fazem sinfonia

num mar em calma?

 

 

sob o teto do mundo exerciam sua humanidade

um homem e uma mulher

na aventura do amor humano

numa praia deserta

solitários

 

 

o amar veste formas do materno

rainha o carinho

o incesto

alimenta o ego do eterno

é selvageria

antropofagia sensorial

é água no sol

(o sal no mel)

 

 

as beiradas de uma paixão

…é muito raro tudo que acontece: o acaso dos olhares cruzados, certeiros: sua voz dançando na roda: apenas para mim: era o perigo de ser você e eu: nos: eu queria o mesmo que você: mas o quê que é que nos quer: sentir: esse beijo acuado de públicos: esse sorrir ulterior de tão raro âmbar…

… não é o caos que rege o acaso, mas as continuas e ínfimas decisões que operam o milagre do encontro. mas eu me lembro de ter visto nascer o sol pelo poente, minha sombra era do avesso e o fim do sem-começo estaria por vir….

… oh o frio aquecendo uma rara distância, o mistério da luz anil no fundo da noite. você poderia ser essa única estrelinha que persiste…

… construí um castelo: as paredes eram sua pele, o portão alto é trajado com sua forma, leve e concreta nas linhas duras do seu ventre, as janelas são de um mel derretido no calor da vontade – que não cede – tem as saídas, numerosas, para as loucuras que temos de inventar por sanidade, brilham seus fios dourados, excentricamente colocados para atrair o sol no fim das tardes, tudo é aberto: o vento brisa o tempo pára. eu ainda almejo toda poesia que demore o tempo definitivo da esperança: levanto a bandeira, aplasto o ego, passados, concordância. nada é do acaso, menos este desejo que me abraça…

… quero fragmentos d´um instante, a metade do piscar, ainda menos que o suspiro, anseio o pouco do que resta, raspas dos sucessos, quero o som antes de ser palavra, quero roce divino minúsculo antes do tato… antes quis tudo, já uma vez quis tudo!

… a maioria das vezes não sei, nunca se sabe onde tramitam os afetos; por isso a rareza do hedônico é tão incomum como um abraço sincero de peitos nus…

… a desconfiança habita no que se dá por certo: de certezas, humanos não conhecemos nem onde nos espera a morte…

… penduro esta pele úmida no varal e vejo minha silhuete esticada no asfalto; estico as palavras dessa altura até o chão: as palavras não tem sombra nem mesmo a beira do sol.

O AVESSO DO TEMPO É VIVER.

ode final para um amor

o amor passional é uma ilusão. o oásis espelhismo do nosso deserto interior. a febre dos olhos. o falso serviço do ser na resistência à solidão.

um pulo confiante de si diante do nada provável de alguém. na fome insaciável da alma a busca pelo alimento final, satisfação divina do eu.

a conjura em promessas do eterno, a sutil esperança de um abraço fugaz que nos salve do morrer. o feliz do encontro, numa certa infalível verdade.

o amor é a mais cruel das mentiras que ansiamos viver, pois o deserto é agreste demais, solitário demais, sem águas demais; e a solidão tem tão poucas palavras, tão poucas ressalvas, tamanha imensidão.

e o salto no abismo é de um oco infindável, sem beiras nem estradas para percorrer, nem a alma – tem calma – sossega ao chegar no silêncio do eu.

e o eterno é tão somente tão pouco, tão vácuo e distante que o fim se finge de cálido amigo, amor ilusório, única maneira de sobreviver, e ainda sorrir.

espirais

Existe uma espiral no peito

destino próprio de si

no caminho crucial dos sentidos

avalanche comum do existir

de palavras que sucumbem na névoa

da singela voz interior

perguntas cotidianas

anseios do imenso

mascaradas do ego-sonhador

fantástica sapiência dos céus

evocados naquele dEUs infeliz

vingativo de rude substância

incapaz de assumir seu devir

a ilusória verdade dos além

d´um futuro sempre mais promissor

de infindáveis luxurias do corpo

nos outros corpos

(cada vez mais belos corpos)

no desejo do alheio

da esperança perdida

d´outros cantos

da mesma velha sereia

que abanica sua cauda infantil

na profunda galaxia

nos confins

do amar.

 

 

 

 

 

cinco flashes entre silêncio e esquecer

tengo brazos en varias latitudes,

memorias allende este presente que vivo,

recuerdos de otros instantes con personas que (quizá no) existen,

atemporal en el recuerdo y el olvido,

soy yo, ahí donde también existes!

 

 

sete ondas tem o mar que eu pulo num só impulso, aparecem frestas dos fundos, maresias do meu ser, andorinhas litorâneas, peixinhas escorregadias de olhos sem fim, onde é que some o horizonte? onde acaba esta utopia?

 

 

no sozinho do que sou, sendo, 
no silêncio de entender, histeria, 
no percurso de fluir, epicentros,
nos avanços de ter, desacertos, 
na entrega do amar, manifesto
na vileza de existir, amanheço! 

 

 

as palavras que não foram testemunhas silenciam a partida/
carimbam o desdem abrupto do que não é /
compreendo a desempatia /
o agreste lunar no grama dos dias /
apenas o esquecimento salvará a utopia /
de saber /
ou imaginar /
de inventar /
as sem-saídas /
este estágio anestesia o revés /
vai restar pouco nos registros /
a dor não reconhece memórias /
apenas apago /
ou sobrevivo.

no furo da terra
o fundo de um sonho
emana o abraço
o tamanho do mundo
sorriso do espelho
amor que te amava
no escuro do beijo
no outro destino
de línguas possíveis
te amei no silêncio
talvez tão miúdo
que parece outro sonho
morada ilusória
do tempo passado
no furo do peito
cacimba da águas.

profundas superfícies

A realidade é pouca nas sinapses dos poetas, inventar mundos é a única saída decorosa…

 

…gastar palavras e gestos,

inundar o instante e o ócio,

pretender máscaras e roteiros,

aborrecer a negligência e os afetos,

morrer de agrestes e alegrias,

fundar a raiva e a melancolia,

forçar adeuses e perdões,

desistir o que foi e o que não seria.

 

a alegria é contagiosa e popular,

ações de prevenção de pragas e vírus, 

devem ser aplicadas invariavelmente.

 

 

o silêncio são das relações, o que as palavras são da solidão!

 

descobri no meu silêncio as respostas de outras vozes, que confirmaram por sua vez, o sentido do meu “sem-palavras” e neles o grande sentido do meu recolhimento.

.

É no silêncio que existo

Eu falo e minto, porque se fosse para ser, eu calava. Entre os outros, o silêncio de mim mesmo é quem fala. As palavras que me expõem, saem compulsórias e me traem contra minha própria vontade.

A tendência é o agreste interno. O oasis  mutado do meu mutante. O novo do eu é o silêncio que desconhece as reais palavras do existir.

Deixei de saber dos versos que compõem os ensinamentos nas palavras. Esqueci da comunicação dos olhares que substituem sentimentos. Desconheço a veracidade do julgamento. O brilho do elogio. A raiva do xingamento.

Escrevo porque doe o silêncio: nunca doeu tanto.

Eliminei os substantivos: nada ou ninguém merece um aforismo. Triscam em mim os verbos, ações conseqüentes do tudo que é falar e ser conseqüente. Remoem-se os adjetivos pendurados das frases, brilhantes crus que cegam o que escuto. Nem tempo restaram as palavras massacradas no mutismo do meu fechamento, porque era o fim delas precisamente o que eu procurava.

Mas é tão banal esse processo, porque as palavras me traem e se manifestam.  Jogam-me na ciranda dos amigos, sorrindo, ou cantando ou fingindo, como se fosse eu mesmo quem ali se manifesta. E fazem o arquétipo do sabido, dos passados consagrados em destinos, dos sonhos feito reais, da dança dos corpos sendo um só quando amamos, do lirismo de estas línguas que me dominam e escrevo, da feliz idade de estar vivo, do desapego amoral do meu individuo, do abraço da morte que inspira estes sentidos.

Porém não é real nada disso: eu minto.

Do tamanho do meu amor…

Enxerguei naqueles olhos o brilho do amor que me observava. Um brilho tênue que refletia as sombras e luzes de um arco-íris.

O vôo era cego até aquele encontro. Dei um abraço apertado, sentindo as batidas combinadas daqueles dois corações-seres.

Era o mais grande amor que batia dentre aqueles dois peitos. E eu o sentia num silêncio que desconhecia palavras.

Era um abraço singelo. Fugaz e voraz como o fogo que arde entre chamas de uma lavareda. Era um quente que ardia. Queimando e sanando tudo que acontecia.

Era a dor do abraço. A certeza do adeus.

E assim, seguro entre dedos, o corpo do beijo, cabelos do tempo, aquela umidade de rios no meio a penhascos, aquela pele basta de campos e bosques e altas montanhas, a imensa caverna do eterno, aquele refúgio donde a vida se fingia permanente, e essa dádiva de me saber efêmero diante do amor, a paz do instante, a morte do eterno, e a dor do distanciamento.

E no instante da brisa geada entre um corpo e o outro, o momento do aquém e da ida, um continente se abrindo viagem no oceano, assim como a folha se aventura no vento, a semente estourando o caroço da terra em incrível crescida até os céus, uma dor de mil séculos, do filho no ventre, ou pior, muito antes, nunca nascido.

Era a dor de mais um adeus, do tamanho do amor que já fora. Insensível o destino de amar desmedido. Sangue nos olhos, pingando lágrimas destemidas, raivas silenciosas e desejos contidos.

Havia que aprender o silêncio do monge.

A paz do desterro.

O trino do pássaro na janela fechada.

Não haveria primaveras, nem tampouco perdões.

 

A metamorfose do peixe

Um dia qualquer, Gregório Samsa, acordou transformado num brilhante, prateado e liberto peixe. Ao começo, achando que tudo aquilo era um sonho, não percebeu que era de extremadamente urgência cair na agua. Gregório Samsa, como qualquer outro humano, não acreditou nele mesmo, e ali, ao pé da cama, morreu.

Gregório Samsa era eu mesmo, acordando de um sonho que podia ter sido meu ou que nunca aconteceu.

Diante daquela sequidade mortífera, eu acreditei em tudo aquilo e em mim, e dei um pulo magnífico: eu cai num copo d´agua.

Era um líquido aquoso, transparente, inodoro, sem-sabor e mais do que suficiente para sobreviver.

Gregório Samsa ou eu, descobrimos que era o justo necessário para viver: nadar livre na onda sem fim; tinha a luz infinita que atravessava o vidro e o mar; haviam todos as figuras possíveis que fossem possíveis imaginar: todas.

Gregório Samsa imaginou uma barata. Eu sonhei um pescador. Gregório queria uma bailarina, e eu um despertador. Gregório desejava mais que sete ondas de mar, e eu uma paz com orvalho, e grama verdinha, e areia finíssima, vários coqueiros, e um abacateiro, e uma página branca para escrever. Gregório queria dormir, e eu que ele voltasse sonhar que era eu.

A primeira onda era mansa como uma carícia, como um dengo, como um piscar. Ele sorriu da sua potência para se consagrar, e eu, abri os braços-aletas e deixei que agua viesse me inundar.

A segunda onda apareceu sem avisar. Chamou pelas costas e nos abraçou. Gregório Samsa desacreditou, e quase o peguei no fundo do copo d´mar.

Entre essa onda e a terceira, levei uma bronca do resgatado, pois não se brinca de vida e morte na vida real. Se vive e se morre, é tudo um simples piscar. Entre verbo e ato, eu vi o sol se arrastar e um terrível despertador avisar: era o começo de tudo e fim do que estava por começar.

A quarta onda nos pediu licença. Eu dei trezentas voltas em torno de mim. Cada vez eu sonhei este sonho maluco e cada vez houve um distinto despertar. Num dele o Gregório Samsa chorava por mim. Eu estava inerte, e sem fala, sem direito ao sonho e seu despertar. Ele chorava e suas lágrimas iam caindo sobre mim, mas eu não conseguia acordar. Estava morto nessa volta da vida. Mas era só o principio de um sonho de trezentas voltas entorno de mim, e eu não tinha medo de vê-lo chorar.

Eu disse ao Gregório Samsa, tem sempre uma nova onda, uma quinta mais forte capaz de tudo desequilibrar.  E não foi, que o desejo dele era mais real que o nosso sonho comum, de peixe brilhante, prateado e liberto num copo d´agua de mar? Então mergulhamos naquela que era impossível de pular, impossível de sossegar. Era necessário um novo tombo, desta vez quase sem fôlego e quase já sem acreditar.

Gregório Samsa acordou à beira do mar. Sentiu o orvalho, a grama verdinha acariciando a mão, areia finíssima, uns coqueiros, abacateiros e minha mão. Eu imaginei a sexta onda em forma de redemoinho, e a vida no meio correndo perigo. Gregório era o náufrago de mim mesmo, e eu o destino sem rumo daquilo que ele não tinha vivido.

Gregório Samsa desejava suas sete ondas, e essa última bateu só de levinho nos pés estendidos, o corpo inerte e sem fala, sem direito ao sono e ao seu despertar.

Ele pensava que aquilo era somente um sonho. A vida num copo sem vidro e nem beira. Um sonho sem despertadores nem rumos divinos. Eu era um peixe prateado, brilhante, liberto. Gregório Samsa meu espelho de orvalho.

Um copo d´agua num vidro. A vida atravessando na luz o destino.

 

Passando a nado a linha onde quebra a onda

Em Camburizinho, passando a nado a linha onde quebra a onda, em direção da calmaria após a espuma, se volteando em direção da beira-mar, da para ver distante levantando-se firme e alta, a Serra do Mar. Aquela massa verde se abraça as nuvens e ao azul. De lá se despencam, em formas de cachoeiras e trilhas d´agua as chuvas do entardecer. A noite começa sob tochas de luz e sombras de algodão.

A imagem é sublime, ainda mais naquele flutuar que puxa para baixo e leva para trás.  Mas aquela imagem só é possível se nadar para dentro do mar, se afastando de tudo e olhando do distante afastado.

Enquanto se nada, atravessando as ondas do ir e vir, não há instantes para perceber ou enxergar o ao redor: existe-se sem justificativas. O estado é de entrega e dádiva. Não vaga tempo para outra coisa não seja o nadar.

Na proximidade de outros, as sensações tem um impulso diferente, invadidas pela emoção e o afeto. Pela paixão. No estado de entrega, enamorado, os detalhes destacam-se sobre o contexto. Mas somente na perda, despido de interpretações e apego, é que se enxerga o todo do amor.

Ao sair da ilha, já morando há algum tempo no Brasil, demorei em começar me entregar ao novo jeito de vida. Tudo me lembrava à ausência do único que tinha como experiência, numa pátria flutuante-à-deriva num pedaço de terra onde eu nasci. Mas nada daquilo que eu tinha sido ou fosse; existia. Tinha ficado sob as águas do mar, no devir no existir.

A existência é essa flutuação sobre as ondas de vida. O lapso entre o nado para se afastar da areia e o justo intervalo para voltar olhar as montanhas à beira-mar. É o que se perde sob as ondas e o que há depois do anoitecer. É a aflita ausência daquilo que não é. A rara impossibilidade do que está para acontecer.