Obama, presidente de uma ilha-à-deriva

Barack Obama é o novo presidente de Cuba. Ou ao menos, isso aparentou nesses três dias que esteve passeando com sua família e comitiva pelas ruas habaneras. Além disso, fez discurso histórico no Gran Teatro de La Habana, no mesmo palco onde o Enrico Carusso, cantara lá pelos anos de 1920. Depois presidiu jogo de béisbol entre um time profissional de Miami e a seleção cubana. Ainda se reuniu com alguns opositores políticos do governo cubano.

A política de governo de Obama com relação a Cuba contrasta opostamente com tudo que tem acontecido desde os anos que Fidel Castro comandou sua toma de poder no ano 1959. De fato é tão contrastante que diante dos discursos proferidos em terras cubanas, Obama parece mais engajado com o porvir da sociedade cubana que de fato, seus vetustos comandantes.

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Air Force One antes de pousar no Aeroporto José Martí

O jogo de poder dos Castros – tenho muitas dúvidas sobre a existência ainda em vida do Fidel – é permitir essa injeção de capital que tanto se precisa para manter girando o rotor enferrujado da pseudo-política pseudo-comunista cubana. Depois de ter visto desgastadas as relações com Venezuela, e após o fracasso de tentar atrair investimentos brasileiros de mais peso, Castro preferiu se aliar aos americanos.

Estes acordos com os “yanquis”  permitem várias mudanças em questões de comercio e cooperação, mas que beneficiam diretamente somente as instituições cubanas, que dito seja, pertencem ao governo; enquanto discussões sobre direitos humanos como livre associação ou liberdade de imprensa continuam fora dos assuntos a serem tocados.

Na conferencia de prensa onde os dois mandatários estiveram, foi apenas Obama quem falou, pois Castro não teve nem sequer máscaras para esconder sua despreparação política, sua falta de carisma e compromisso com o povo o qual ele representa, e ainda por cima, tirar uma onda com a figura de Obama – porque aquele gesto que evidentemente caracteriza uma marionete passa longe de ter sido um acaso.

O falso titeriteiro e o fantoche verdadeiro

O falso titeriteiro e o fantoche verdadeiro

Para quem é cubano, sabemos, todo o que o presidente cubano-americano Barack Obama presenciou não passa de um teatro paraplégico com roteiro assinado pela Seguridade do Estado (G2) onde até cada pessoa que ele cumprimentou ou ouviu fazem parte do elenco. Talvez – eu tenho quase certeza – alguns dos opositores presentes na recém reinaugurada Embaixada dos Estados Unidos em Cuba fazem parte das hordas castristas de repressão. No estádio de béisbol onde os Tampa Bay derrotaram a seleção cubana todos os presentes eram quadros políticos ou até mesmo policiais à paisana.

Por outra parte, a postura do Castro é vergonhosa e patética, assim como as dos apoiadores do governo que nas falas que tem vazado nas redes sociais, tentando desmoralizar os discursos do Obama.

Longe está de haver mudanças significativas na sociedade cubana, isto porque os chefes, militares e gerentes das empresas estatais vivem bem demais como para querer por em cheque suas vantagens. O povo, silente e amedrontado, silenciado durante anos não consegue ver a realidade pra além dos noticiários estatais – onde diga-se não devem ter passado as íntegras as intervenções de Obama – continuará longe dos benefícios que os governantes usufruem, e continuarão a cegas, ameaçados pelo medo que tem, de ver as bombas norte-americanas caindo sobre suas casas.

Obama partiu – quase há dois anos ele dava o primeiro grande passo. Ele ganhou individualmente, por méritos, o posto do presidente norte-americano que decidiu descongelar as relações diplomáticas. Saiu no lucro, pois colocou no bolso uma nação que há cinqüenta anos estava pronta para morrer ou viver pela pátria, esperando que os norte-americanos nos bombardeassem, nesse jogo dos governos totalitários usam para manter o povo do seu lado.

ps. me antecipo a dizer, que esta minha íntima observação sobre recentes acontecimentos acontecidos em Cuba, com o presidente Obama e o povo cubano, não serve como régua para quaisquer interpretação sobre a política bipartidária que acontece hoje no Brasil. 

Aos meus amigos de vermelho

Estamos todos, num momento crucial nas eleições presidenciáveis no Brasil. Um momento tenso, onde está em risco a luta de uma sociedade à procura de erradicar a desigualdade social que historicamente vive-se neste país há quinhentos anos. Nesse contexto, na briga entre a Dilma e Aécio, tem se mencionado muito a relação do Governo com o meu país de origem: Cuba.

Sobre o programa Mais Médicos já comentei na época sobre os prós e contra do mesmo.

Nos últimos dias, os debates tocaram a favor ou contra sobre a presença brasileira no porto do Mariel. Obras que teriam sido financiadas pelo BNDES e executadas pelas maiores empresas brasileiras do ramo.

O porto do Mariel ficou famoso no ano de 1980 quando após a invasão da Embaixada do Perú por centenas de pessoas insatisfeitas com a situação na ilha, o governo cubano em acordo com o governo dos Estados Unidos, permitiu a saída de vários presos políticos. Nesse momento histórico da emigração cubana, o governo da ilha permitiu, ou exigira, a saída de reconhecidos detratores da ideologia castrista, de homossexuais, artistas e escritores de oposição.

Naqueles dias minha mãe me carregava na barriga, e foi ela, negando-se ao pedido do meu pai, que fez que eu nascesse em Cuba.

Sobre os fatos atuais, minha compreensão, para os amigos que defendem como eu a continuidade do governo da Dilma e usam os investimentos do BNDES no porto cubano, como ponto a favor nessa campanha.

O porto do Mariel pelas suas caraterísticas geográficas é muito importante para o acesso entre as Américas e Europa. Pela profundidade da Baía do Mariel permite a entrada de barcos de grande porte, que viriam ou iriam através do Canal de Panamá. Lá o governo cubano, com apoio brasileiro, está concluindo um dos maiores Polos industriais do Caribe, algo assim como o Polo industrial de Manaus. Grandes empresas multinacionais estariam radicando-se na ilha por ter boas condições de pagamento e baixíssimos custos de mãos de obra.

A mão de obra cubana contratada, seria mais ou menos nos mesmos moldes que o dos profissionais cubanos que atuam no Mais Médicos. Uma empresa estatal faz o meio campo entre as empresas no Porto e os professionais. Nesse meio termo, a empresa estatal fica com a maior fatia do contrato, e repassa aos trabalhadores apenas uma porcentagem.

Tanto neste caso, como nos médicos que estão no Brasil, eu não tenho a menor dúvida, que os professionais cubanos ainda ficam contentes, porque o salário nestes contratos internacionais ainda é bem superior ao que eles receberiam se trabalhassem dentro das normativas cubanas comuns.

A questão principal nestas transações é que a fatia que fica com as empresas estatais termina financiando o governo do meu país, que – agora berrem aos prantos, vermelhos – deixou a muito tempo de ser um governo de esquerda com interesses sociais como prioridade.

Hoje em dia, e há muito tempo, Cuba é um país comandado por militares e famílias de políticos que por anos, ficaram à frente dos ministérios, parlamento, bancos, terras, hotéis e forças armadas com a caraterística fundamental de não ter nenhum diálogo com a classe trabalhadora.

Para os extremistas de esquerda, não estou abdicando nem negando as reformas politicas e sociais dos idos anos dourados do governo cubano, e das quais, conheço aqui no Brasil, vários fiéis seguidores. Porém, há muito tempo estas propostas estão longe de ser palpáveis para o povo cubano.

Ainda, o governo de Cuba, durante todas estes anos tem sido intransigente com questões de diversidade ideológica, não permitindo nenhuma oposição ao seu modelo de gestão. Perseguindo, encarcerando e até matando opositores para manter a hegemonia partidária e ideológica na ilha.

Então, nesta reta final dos debates a eleição, e defendendo a democracia que todos queremos para o Brasil, eu não aceito que um ponto a favor seja a vantagem de ter cooperado no Porto do Mariel, e que desta maneira aceitar que o governo brasileiro, apoie sim, um processo político muito mais complexo que a simples margem de lucro entre empresas no Polo industrial do Mariel e seus assalariados cubanos.

Não, aquela ilha no Caribe, não é mais o berço de ouro das igualdades latino-americanas. Deixou de sê-lo, para não arriscar e dizer que nunca fosse, pois se é para todos, tem que se ouvir os que discordam. Não é, e não será enquanto a família cubana esteja dividida nos cinco continentes, seja pela simples vontade de angariar e ter posse de coisas e valores, como o resto do mundo deseja, e tem; e obrigados a viver distantes porque existem leis que proíbem cubanos de voltar na sua terra. Não é, nem será enquanto quem dirige o barquinho-à-deriva sejam os mesmos de sempre, caudilhos cinquentenários que apelam a pátria e os costumes revolucionários mas que banham suas contas e poderes se distanciando sempre de quem não tem nem pode.

Aos meus amigos de vermelho, eu sou o mesmo que conhecem, eu mesmo, mas um povo sofre na distância isolada do Caribe, o silêncio de não enfrentar esse marasmo politico, dita ditadura, com o qual o atual governo brasileiro compactua.

FACTOR COMÚN: A História Real

Amanhã ia ser um dia especial. Tudo porque com ajuda de vários amigos íamos projetar pela primeira vez em Cuba, a web-serie animada Factor Común que eu idealizei e escrevi durante o ano 2011 e que foi produzido para internet. Factor Común é a historia de três jovens cubanos que juntam seus esforços para criar um projeto sociocultural comunitário, enfrentando-se aos desafios de se organizar numa realidade institucional burocrática e com um governo totalitário como o cubano, e que o único que possuem é a vontade de fazer seu projeto acontecer.

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A energia não poderia ser mais bonita. O lugar escolhido para a Premier Real – já que a serie jamais foi vista em Cuba por causa da censura a internet – seria em La Oficina, um projeto independente que trabalha com audiovisuais e fotografia que nascera há pouco tempo no Vedado, no bairro mais movimentado de La Habana.

O principal objetivo era mostrar os muñequitos para os amigos, e com umas copias mais assegurar que Factor Común começasse a circular pelos computadores cubanos. Fizemos uns flyers– mó bonitinhos – para repartir em outros eventos e ativamos uma corrente de sms para avisar mais pessoas.

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Estava tudo pronto, mas hoje cedo, o Joan quem lidera o projeto de La Oficina me ligou para dizer que a projeção não poderia acontecer. Disse-me que os vizinhos – o projeto fica numa casinha num conjunto com várias outras casinhas que aqui chamam de solar – teriam começado a reclamar dos eventos que vem acontecendo lá.

No primeiro momento, aquele cancelamento me ferindo a alegria pessoal e o projeto de ver aquele trabalho sobre a realidade cubana ser projetado, era um acaso fortuito. Mas eu, sendo cubano, e vivendo o acaso com a perspicácia e desconfiança que por aqui temos, isto  era, simplesmente um dos fatos da realidade cubana que a própria série denuncia durante seus oito capítulos: a impossibilidade de fazer por ação individual ou de um grupo, qualquer evento independente paralelo às políticas ou instituições cubanas.

Na serie, os personagens lutam contra a rigidez dos burocratas, a má vontade e falta de diálogo dos militares e policiais, das pessoas frente às instituições, a presença de indivíduos em todas as capas sociais  que trabalham para informar o governo e instituições policiais sobre o trabalho de grupos independentes. Assim mesmo, os personagens debatem-se com as diferenças comuns entre indivíduos e os conflitos naturais de quem precisa se organizar para fazer algo acontecer.

Factor Común se fez real nesta manhã. Era a ação evidente de pessoas mal intencionadas, da ação de pessoas próximas de mim, que informaram do evento a pessoas responsáveis por censurar e limitar a ação de pessoas, grupos independentes, artistas, intelectuais que de uma forma ou outra, manifestem e denunciem as arbitrariedades de um governo totalitário como o deste país.

Mas na série, o desejo de triunfar dos três protagonistas e da comunidade onde o projeto atua se faz valer, e mesmo contra todo prognóstico e contra as adversas situações da sociedade e os dirigentes das instituições, logram manter Factor Común funcionando.

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Então hoje – o momento que vocês estarão lendo isto – será um dia especial. A pesar do que não se espera, meus amigos e eu – e até algum desses Juan e Pedro que trabalham encobertos favorecendo o controle governamental sobre a liberdade dos cidadãos cubanos – faremos a Premier Real de Factor Común, e como nos tempos de guerrilha urbana, transferiremos a projeção para outro sitio. O objetivo de mostrar para os amigos uma história que deixa uma semente de luz e possibilidade dentro de uma sociedade catatônica e medrosa, sobre os sonhos de uma geração que nunca deixou de lutar pela liberdade real deste país, que nos pertence por herança histórica e que o poder dos homens insiste em nos tirar, será realidade.

Factor Común existe! Factor Común es real!

Assista a série em http://www.youtube.com/playlist?list=PLiY0yLBAjk8H6erGe1EXxN-Bah8OD1eOU 

Roupa de Mulher

Ontem testamos ao absurdo. A mecanicidade do aparato social humano. Olho no olho não bastam para explicarmos as razões do que sentimos e somos. Fomos diretos e incisivos no alarde, felizes com os sorrisos. Fomos contra o macho e a submissão feminina. Desta vez,
apesar de não passar as barreiras – nem assistir o filme – ganhamos.

Depois que me proibiram entrar no Cine Charles Chaplin vestido de homem, trombei uns amigos que, também indignados, sugeriram um contra-ataque: iriamos vestidos, os homens como mulheres e as mulheres de homem.

No fundo no fundo sinto que não nenhuma diferença entre homens e mulheres, não ser aquelas que cada individuo queira para sí mesmo assumir e permitir-se. Diante das leis, nossas instituições e espaços públicos, a sociedade deveria exigir e ter os mesmos direitos de gênero, raça, condição social, e é obrigação de cada um lutar por estes direitos.

Durante quase uma semana fomos avisando a todos os amigos que no sábado iriamos assistir o filme na sessão das 17h30 no Cine Charles Chaplin. Imprimi uns quatrocentos flyers, frente e verso, sem muita manha para o desenho, nem recursos.

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Aquilo não era uma questão pessoal, e isto tinha que ficar esclarecido. Eu me sentia magoado pela situação ocorrida mas era o fato de que aqueles funcionários do cinema, e até a própria organização do Festival de Cinema, não dialogassem nem entendesse esta situação discriminátoria, de caráter violátorio dos direitos elementares do humano.

Na noite de 6ª, descobri que o filme que passaria na sessão escolhida seria “Flores raras”, uma produção brasileira, que agora está em cartaz em São Paulo, segundo soube (é só pesquisar a sinopse para ver que até o Cineclube das Sete Cores, com a experiência que tenho vivido nos últimos meses no Centro de Referência da Diversidade, também conspirava). Aquilo seria perfeito.

Ontem sai depois do almoço com Alain, meu melhor amigo e quem esteve o tempo todo, encorajando-me e ainda mais, nos divertindo muito. Pegamos ônibus, caminhamos pelo Centro da cidade, conversamos com as pessoas que nos abordavam, parávamos para fazer fotos ou para que fizessem fotos de nós, e íamos entregando os flyers sobretudo à aquelas pessoas que pareciam não aprovar nossa vestimenta.

Em geral, as pessoas pegavam como brincadeira nossa atitude, tiravam onda ou faziam careta. A discriminação de gênero, o machismo e suas atitudes, moram nas pessoas e nas relações interpessoais cotidianas. Em Cuba, além do idiossincrático, as instituições reafirmavam estas situações. blog2

No cinema, além de outros amigos que não se vestiram como sugerimos, estava minha mãe, e coisas de filho, isto me deixou feliz pois durante a semana havíamos conversado muito sobre o ocorrido. Sei que ela estava preocupada, mas ao mesmo tempo, era uma forma de mostrar seu apoio.blog

Eu, e acho que outros, não tínhamos muitas expectativas, mas o desejo e aquela felicidade contagiante e trasvestida me convenciam de que poderíamos assistir ao filme. A euforia se traduzia nas nossas conversas, na minha respiração, na companhia de minha mãe e dos amigos, em total contrapartida e paradoxo, da presência de muitos policiais.

Ao princípio, poderia-se pensar que eles estavam ali só por segurança, mas quem vive em Cuba ou esteve aqui, sabe ou imagina como funcionam os mecanismos de repressão. Hipóteses surgem, algumas delas, nenhuma pode ser descartada: escutas de conversas telefônicas, amigos avisados do evento e que trabalhem para a Seguridade do Estado, alguém que pegou um flyer e que ativara a resposta policial. Quem acha isto exagero, simplesmente descarte este mero detalhe real da presença dos uniformizados.

Vou realmente poupar as conversas na tentativa de entrar ao cinema. Elas são muito similares ao que acontecera na terça feira no mesmo cinema com as funcionárias do Chaplin. Desta vez a diferença é que não apareceram as tals compañeras e sim três homens, que não eram do cinema. Eles não deram explicação alguma, apenas responderam com negações sucessivas, sem entender nem querer entender. Desta vez, não era só eu quem dava meus argumentos e sim um grupo ciente de que aquilo era uma arbitrariedade, uma burrice, uma estupidez.

Os policias ficaram sempre calmos, observando. Em algum momento se aproximaram das vidraças, quando estivemos todos no saguão do cinema. Intentei conversar com eles, mas eles não respondiam, também não aceitaram os flyers que eu pedia que lessem para entender nosso apelo. Apenas um me chamou em separado e foi receptivo. Conversamos durante alguns minutos, mas ele não aceitou nossas reivindicações. Entendia não ser este o local para expressar nossas demandas, apesar de que entrelinhas lhe entendi, não estava de acordo que nós proibissem entrar ao cinema.

Então, decidimos irmos. Desta vez, felizes e trasvestidos.

PS. Se alguém tiver uma copia do filme Flores Raras, assim que estiver em Sampa, me passa para eu ver. Ok?

Roupa de Homem

La Habana, dez da manhã, trinta e poucos graus de calor, mais de setenta por cento de umidade no ar. Visto bermuda, regata e chinelos daqueles que todo o mundo usa. Levo na bolsa meu caderno de notas, caneta, câmera, uma garrafa de água, celular e uma garrafinha de rum. Minha carteira com algo de dinheiro, a foto de meu filho e o passaporte do Festival de Cinema. O Festival do Novo Cinema Latino-americano é de meus maiores presentes para esta viagem, começou no dia 5 de dezembro. Estes dias com esse passaporte faço uma fila, bem provável que nesse instante já encontrei alguém conhecido com quem converso dos filmes ou da vida.

Ontem ia a caminho do Cinema Charles Chaplin na Rua 23. Esta rua é a que mais se aproxima da Avenida Paulista. Mas não há nem tanta gente, nem bancos, nem trânsito. O sol racha qualquer intento de imaginação e restam poucas chances de sair da ilha.

Fiquei sabendo de outro filme brasileiro e como bom filho da mátria brasilis, lá fui eu, tentar me conectar com aquilo que me faz homem, pai e escritor. Na entrada de grandes vidraças, atravesso suado e ao entregar meu passaporte do Festival, “Senhor, não pode entrar ao cinema de regatas”. Bloqueio. “Moça, você viu o calor que está lá fora?” “São as regras, não pode”. Esquento. “Oi moça, entenda, está calor”, “Senhor não escutou? assim de regatas e chinelos de tomar banho não vai entrar, pode sair”,“Gente, olha o calor. E outra chinelos de tomar banho? Eu tomo banho descalço” “Faça-me o favor de se retirar”, “Mas, por favor, que coisa é esta?”

Suspiro fundo, sei são intransigentes as pessoas que trabalham em instituições cubanas. É provável que não haja argumentos que os façam mudar de ideia.

Uma menina com regatas lhe rasgam o passaporte e a deixam passar. O quê? “Moça, e essa mocinha ai que você deixou passar?” “Ela pode, é uma blusa de mulher” “Como? Roupa de mulher? Como assim?” “Senhor, não adianta homens não podem entrar em regatas” “Senhora, é o mesmo, é uma roupa, está um baita calor” “Não pode, não vai entrar” “Isso é uma violação do meu direito, é um crime de discriminação de gênero”. Ela fecha o rosto, não responde.

Outra mulher se aproxima, diz ser a administradora. Tem o rosto tenso, não quer conversa nem entendimento. Isto é incrível. Chama-me com a intenção de sair da entrada do cinema e de chamar menos a atenção. Dirige-se a uma porta, abre e pede para entrar. Não fala, nem pensa. Repete: “Assim de regatas, e bermudas e chancletas não podes entrar”.

Essa altura convenço-me que não me deixaram entrar alegando ao tipo de roupas, mas eu avanço pelo lado que me chama atenção e do qual eu acho, tenho razão. “Senhora, explique-me, como é que mulheres podem usar saia curta, blusa com decote ou regatas e sandalinhas, e homens não?” “é a regra, já disse você não vai entrar assim vestido ao meu cinema”.

Não acredito. Ofusco. Fecho-me. Sobe a raiva.

Já havia sentido fortemente a grande diferença em questões de direitos entre as pessoas em meus dois países. Mas em Cuba, depois de tanto tempo, e depois dos meus aprendizados e experiências no Cineclube das Sete Cores e no Centro de Referência da Diversidade em São Paulo, isto era simplesmente um absurdo.

“Escute, não há diferença entre homens e mulheres, temos todos os mesmos direitos, isso ao menos em principio é um crime, uma violação dos meus direitos, entende?” “Não me interessa, você não vai assistir esse filme hoje, assim vestido” “Vou acusar vocês com o Festival, com o Cenesex, com os Direitos Humanos” “Faça-o, vai lá fazer, vai” ela convicta do seu pequeno reino não corre risco e que sua vontade conservadora, direitista e retrógrada lhe asseguram a razão neste episódio.

Não, não entende. Então saio da sala e volto à entrada do cinema. Sarcástico, vendo que minha prioridade que era assistir o filme estava já perdida, investi em tentar que aquele bando de velhas percebesse o ridículo que faziam. Assinalei: Meninas com saias mais curtas que minha bermuda, mulheres de regatas suadas do calor de trina e cinco graus, senhoras com sandálias ou chinelos. Foram perdendo o controle, se aproximaram dizendo que eu gritava. Um homem de braços cruzados se aproximou. Era tensa a situação.

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“Senhor saia daqui” era um grito repetido por várias daquelas mulheres. Ninguém dali achou aquilo um absurdo. Incluso uma senhora com blusa curta que ia assistir ao filme, aproximou-se gritando que a roupa dela era de mulher e a minha de homem, não poderia entrar. “Ai, ai que loucura, gente”.

O homem de braços cruzados sai fora em direção de policiais do Ministério do Interior, algo como a Policia Federal, e conversa com eles. As mulheres se aproximam de mim, já não as escuto, pois gritam os mesmos argumentos vazios. Estou nervoso, então dou dois passos fora das vidraças, um território que considero não podem mais gritar. O homem sai de perto dos policias e entra ao cinema. De imediato, os uniformizados me chamam para conversar. “Eu não tenho que falar nada com vocês” um deles assombrasse “Oh, vem aca” Alço a voz olhando nos olhos, não há medo “Se você quer falar vem aqui onde eu estou, eu não tenho nada que falar contigo”. Ele cala, tem raiva nos olhos, nos músculos do pescoço e o rosto “Quero é rachar tua cabeça” mal escuto isso “o quê? Como é que é?” ele não responde, não há medo, agora é raiva porque tudo aquilo é marca do poder mal administrado da Ditadura, que reparte sem leis ao que cada um interpreta de situações e necessidades. As mulheres com cara de vitória pedem licença e fecham a porta de vidro. Caminho em direção dos policias e passo justo entre eles, em desafio. Eles não se mexem.

Suspiro fundo a derrota dos meus direitos e minhas convicções. A derrota dos homens e mulheres pelo pequeno poder da burocracia. A perda do ser humano pela sociedade. Estou triste. Raivoso.

Dirijo-me sem pensar a um lugar que sei que fica perto, mas não lembro. O CENESEX é um lugar que ganhou conotação depois que Mariela Castro, a filha do atual Presidente da ilha, e defensora dos direitos GLBT tomasse frente nessa luta neste país tão machista, e em matéria de direitos civis e humanos, tão atrasado como a administradora do Cine Charles Chaplin.

Pergunto ao segurança como agir e ele me sugere procurar o advogado. Tenho que esperar ele voltar do almoço. Como conheço o tempo cubano, arrisco-me a falar com a primeira menina com crachá que passa na minha frente. Ela trabalha com comunicação, mas se dispõem conversar.

Explico tudo. Sei que não sendo de nenhuma das minorias normalmente violentadas pelas desigualdades sociais, procuro meu direito.

Ela não dá asas e me aconselha não usar a regata para ir ao cinema. Reconhece que é um absurdo, mas as leis, leis que desconheço, sustentam essa interpretação por parte da administradora do cinema e da sua turma. Explica-me como agir com relação ao advogado, mas adianta que é um processo que demora muito “e em Cuba, você sabe, pode não levar a nada”. Último, surpreende-me, diz-me “Você deveria agradecer que não tenham encrencado com meus dreads”.

Eu fecho os olhos e saio andando. Injustiçado.

Um Hospital Cubano, Crônica de um Paciente

“Olá J. já cheguei” uma ligação curta no celular de uma antiga amiga que estudou medicina. Depois da explicação dela, entrei por um saguão sem que ninguém me perguntasse nada, subi uma escada até o segundo andar e esperei num lobby lotado de pessoas que esperavam. O cheiro era nauseabundo e forte e havia pouquíssima luz. Estava no Instituto de Nefrologia de La Habana, conhecido como o Hospital de 26.

Em Cuba, os médicos ganham baixíssimos salários, por isso muitos preferem ir a missões internacionalistas como o Mais Médicos do Brasil;  recurso ademais que o Governo usa para ganhar dinheiro em contratos nos quais tem direitos de mais do cinquenta por cento. Por isso, também, pacientes pagam propinas, lanches, e até outros serviços em troca de atendimento médico. É de conhecimento popular estas possibilidades, uma atitude que não ajuda no fluxo natural de pacientes que não podem pagar ou não acham esta atitude correta. Os médicos, quase sem alternativas financeiras, aceitam estas regalias que os converte, inevitavelmente, em profissionais facilmente subornáveis .

Minha amiga J. não estava neste instante agindo dessa maneira, porém eu realizaria meus exames dentro desta brecha administrativa.

J. apareceu sorrindo pelo corredor, nos cumprimentamos e me levou numa sala onde haviam outros profissionais. Deu-me uns encaminhamentos para exames de rotina: sangue, urina, ultrassom. Explicou-me o que fazer, qual sala ir, e o que devia dizer em cada caso. Pediu que a encontrasse antes de eu ir embora.

Então me dirigi à sala dos exames de sangue. Esperei ser atendido. A sala era muito bagunçada. Tinha balcões cheios de caixas, vidros para mostras de sangue, papéis amontoados. Várias pessoas conversavam na sala. O local a simples vista, não parecia um estabelecimento de saúde. Sentei-me perto da porta, e logo a técnica do laboratório se aproximou, pediu o encaminhamento e meu braço. Sorri e lhe pedi bom trato “no me maltrates, muchacha”.

Sai com o braço dolorido e um algodãozinho no antebraço direito.

Fui numa sala próxima. A placa dizia “Medicina Nuclear”, não me assustei, mas era ali que ficava o banheirinho separado para quem tinha que fazer exames de urina. De especial, o banheiro só tinha uma chave pendurada de um arame grosso, assumo para que não se perdesse facilmente. Dentro, para minha surpresa não havia tampa no vaso, nem papel, nem luvas para manipular o frasquinho. Depois que acertei o xixi no plástico, tentei fechar a tampinha, e saiba, a tampinha era maior que o recipiente. Então a tive que pressionar fortemente para manter fechada. Afora, uma menina me sorriu e disse “passa o bastão”, ela teria que acertar o xixi dela no frasquinho naquele banheirinho especial. Dei-lhe a chave com arame e fui entregar minha amostra no laboratório.

No mesmo corredor, duas portas afrente, estava a fila para o ultrassom, pedi o último, pois aqui não há senhas nem ninguém que organize o processo. Esperei por quase quarenta minutos conversando com minha mãe e logo antes do meu turno, a doutora aparece e pede para todas as meninas, mesmo detrás do meu turno passarem à frente, explicou-me que era para economizar tempo “vão limpar a sala, preciso terminar rápido”. Não me incomodei, nem eu nem o outro senhor de mais ou menos setenta anos, que ainda me sorriu perspicaz. Esperei, mais uns quinze minutos até entrar na sala de ultrassom. Durante a vistoria dos meus órgãos, a doutora explicava para uma médica nova todo o relacionado ao exame. Todo parecia estar bem.

Procurei minha amiga na U.T.I. como havíamos combinado. Estava num doutorado. Ela me disse que procuraria os resultados e me chamaria para conversar sobre eles. O dia era quente e convidei-a para um sorvete, que ela negou “não posso sair das aulas”. Despedimo-nos.

Antes de irmos, compramos um lanche de presunto e queijo e um refrigerante para ela. O almoço nos hospitais não é nada gostoso. Minha mãe levou para J. e eu fiquei fazendo anotações para esta crônica.

Eu já vi o Papa em Cuba

Eu já vi um papa. Na época era o Juan Pablo II.

No ano 1998 quando o Papa esteve em Cuba. O pais não teve como não se mexer com a presença dele.

O Estado Cubano desde sua pose militar no 1º de janeiro de 1959 se posicionou contra a Igreja. Na real, a pose do Fidel Castro que veio anos depois, foi contra qualquer uma das religiões, sobretudo em cargos políticos, públicos ou administrativos.

Pessoas comuns, trabalhadores e funcionários também eram aliciados a não reconhecer suas crenças religiosas temorosas de perder seus empregos. Altares, medalhinhas, pingentes, oferendas eram secretamente ocultas de olhos alheios.

Quando o Papa desceu no aeroporto em janeiro do 98, meus amigos e eu corremos até uma avenida que ele passaria no papamóvel. Ao longo da larga avenida que liga o aeroporto ao Centro da cidade uma multidão de cubanos tínhamos se juntado.

Depois de quase quarenta anos de perseguições da inquisição socialista, crentes fidel y el papade todas as religiões estavam de mãos dadas por aquele gesto episcopal. Fidel foi receber o rei de ouros do Vaticano e apertou a mão, de homem para homem. Mas aquilo era a mão branca, endinheirada à custa dos plebeus e vítimas da igreja católica e a mão vermelha, ensanguentada, do líder comunista cubano.

Certo era que eu cresci entre pessoas que mantinham sua religiosidade bem escondidinha. Minha mãe de família evangélica. Meu pai agnóstico de família católica. Eu, desde sempre, perseguidor da felicidade em todo canto, fui batizado na Igreja Católica; e abençoado em festas Yorubá e filho da mãe Oshún; e o suficientemente eu, como para não acreditar, até então, em nenhuma dessas religiões – eu também sem preconceito algum. Minha irmã batizada encontrou-se no espiritismo e frequentou festas de Santería. Minha prima Yami, fez “santo” e fazia nos anos noventa tambores e festas em casa, onde se dançava e comia demais.

O Papá fez missa em várias cidades de Cuba. Sacramentou à Virgen de la Caridad del Cobre , a padroeira de Cuba, sincrética de Oshún no Yorubá cubano. Em cada um dos atos, compareceram milhões de pessoas “saídas do armário” religioso. Ainda, a pedido do Juan Pablo, constituiu-se o dia do nascimento de Jesus Cristo em feriado nacional, isso em plena ilha comunista.

Significava aquilo uma abertura política do tal regime Castro? Era mais uma jogada do craque das relações públicas do governo cubano?

O fato foi que quando o Papa passou pela Av. Rancho Boyeros eu estava lá. “A gente” tinha um monte de bandeirinhas cubanas de papel e a fazíamos ondear com orgulho. Ele passou num súbito segundo, de tarde nublada. E eu, eu não me lembro dele.

No domingo daquela semana, na missa proferida na mesma Plaza de la Revolución onde Fidel proclama seus discursos, o Papa falou para mais de dois milhões de cubanos. Eu, entre bandeirinhas e brincadeiras, puxe uns binóculos comuns e consegui lhe ver a bata branca, e a mãozinha fazendo o sinal da cruz: abençoando-me!

¡Amén!

ps. O Papa Benedicto XVI esteve na ilha em março de 2012. 

Pioneros pelo comunismo! Seremos como quem?

Até poucos anos atrás era impossível, para mim, desacreditar nos valores da Revolución Cubana, seus fatos e façanhas. Não era possível desconfiar de seus líderes e heróis. Também não de seus mártires.  

Eu fui criado no berço desse processo revolucionário que a maioria, por aqui, conhece pelos jornais conservadores. Ou, em visitas guiadas por partidos políticos, da chamada esquerda em conluio com o governo cubano. Outros que foram de turistas, e tem as boas e más impressões que os deixam mais perto dessa incerta realidade.

Há dois dias acordei com barulho de crianças entrando numa escola. Era o som da alegria que não veste fome, nem classes sociais. Gritos, correrias, vozes de professoras tentando manter a ordem.

Era o som do meu filho num futuro quase palpável.

Era eu, há uns anos atrás, num outro país, através da janela.

Pioneros por el Comunismo…” se levantava uma voz firme por sobre todas as cabeças, enfileiradas, divididas por salas, num pátio estreito de alguém com muito dinheiro, numa casa abandonada depois da chegada do Fidel, e pelo processo revolucionário, agora feita uma escola “… seremos como el Ché” respondíamos todos, ao uníssono, com a mão firme, dedos esticados e polegar na testa.

Assim era o fim de todo ato matutino, depois de cantar o hino nacional e ao ver a bandeira se hastear no alto. Diga-se, em Cuba a bandeira não se eleva até o fim da haste em protesto à base naval americana em Guantánamo.

Assim era, e é bem provável que ainda assim seja até hoje, em toda instituição educacional ao longo da ilha.

escuela

Na frente de todos nós, um busto de José Martí, poeta e apóstolo, de todas as lutas cubanas, presidia a cerimônia cotidianamente. Era comum uma criança, uma menina, uma mãe ou pai, uma professora trazerem flores e coloca-las perto daquele rosto branco de cal, sem gesto, nem tons.

Lembro-me de Cecilia com seis anos como parte de seu ritual para chegar à sala. Ela era feliz, também.

Para se ter uma ideia, na escala de punição escolar as piores causas poderiam ser, brigar com colega ou “faltar” ao respeito de um professor, seguidas de intento de colar nas provas, incorrer em algum furto e as piores, as ideológicas, deixar cair a bandeira no chão ou ferir imagens de heróis, em especial o busto de Martí. O castigo a estes últimos era severo.

Por anos, idolatrar homens ou mulheres que tinham lutado até chegar neste processo que o país vivia – naquela época no presente – foi parte da minha formação ideológica. Até hoje é difícil não acreditar naquela vida de herói semideus, íntegro, valente, desapegado do seu eu em prol da luta de uma nação, sem defeitos, e com um final feliz na História da minha pátria.

Era como os super-heróis da sociedade capitalista, só que de carne e osso, com árvore genealógica e túmulo para se visitar.

Na sala, sempre havia um quadro ou foto do Fidel, que estava lá como Deus, cuidando de nosotros, acompanhado muita vezes do Ché ou Camilo ou José Martí. Era, supremamente, a quem mais devíamos respeito, a quem louvávamos e a quem proferíamos nossas naturezas. Ao sermos justos ou não com a presença daqueles “seres” nossos valores e ações eram avaliados e logo depois, validadas pelo resto da sala, a professora ou toda a escola.

A berlinda ideológica entre o bem e o mal era sempre um abismo ao qual se entregar ou do qual se manter a salvo.

Na televisão, nas propagandas políticas, nos cartazes espalhados pela cidade ou estradas, nos jornais, na rádio, até em casa, essa imagem do Deus Castro, dos filhos da Revolución, dos mártires mantinha o cerco sobre nós. Sobre mim. E o amávamos bem, a ele e a todos os outros.

El Gran Hermano de Orwell. O Big Brother do Bial de vocês.

Demorei-me nos questionamentos. Isolado na minha realidade como muitos, foi difícil começar a dissolver aqueles gestos da Revolución, e a figura do Fidel, Raúl; e entender a complexidade, o funcionamento, as duplas intenções, o terror, e mais importante ainda, a vontade de algumas pessoas ou grupos que já acordados, começavam se postular contrários.

A soberania, porém, não está em julgamento, a pesar de há tantos anos sermos presa dessa construção política que deixou de dialogar com o nuestro pueblo, e óbvios interesses externos aos cubanos pretendam tomar conta da situação.

Aos cubanos de aqui e de allá:  VIVA CUBA LIBRE!

Yoanis Sánchez, a cubana do momento.

Amanheceu a semana ansiosa, querendo saber de posturas, posicionamentos de esquerda ou direita porque a blogger mais famosa cubana chegou neste, precisamente meu nuevo país. Carpe diem geográfico.

Yoanis é a escritora do blog Generación Y que descreve a realidade de Cuba de uma maneira bem crítica. A história disso tudo você se informa melhor na Veja, no jornal da Cultura e até na Piauí. Com uma pluralidade dessa magnitude você pode fazer um mestrado sobre jornalismo político no ciberespaço ou sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea.

Nestes dias assisti novamente no ringue batalhas de pessoas com opostos ideais, defendidos a gritos sem escuta, sem diálogo. Os que negam a Yoanis com insultos e agressões, usam cartazes xerocados de guerras alheias, a maioria sem ter pisado jamais em Cuba para ver o cenário real das suas utopias. Os que apoiam a blogger se aproveitam da fúria dos rojos – aqueles que gritam para calar o que a Yoanis tenta dizer – e a usam como se ela fosse defensora dos ideais da direita e acho que até acertam na hora que a apadrinham.

No discurso dela, se escuta apenas a vontade de expor a injustiças políticas do governo Castro, o direito a oposição, ao diálogo civil, e alguns outros poucos direitos ditos humanos com a intenção de criar uma sociedade justa e comum a todos os cubanos. Os cubanos todos, onde quiser que estiverem deveríamos desejar cada um, um pouco disso para nossa ilha, nas diferencias e necessidades respeitando a origem e as diversidades. Isso tem se mostrado difícil entre os novos atores políticos.

Acúsa-la de se apegar a políticos ruins na chegada ao Brasil, é de fato a maior bandeira de os movimentos políticos de base, movimentos alternativos de poder e outras organizações civis caem na armadilha da mídia e dos homens de negócios, que de fato são os maiores interessados num diálogo futuro com a ilha.

Confesso que não leio o famoso blog. Daquilo tudo que a Yoanis escreve, eu já vivi o suficiente, de um modo muito particular, obviamente. De qualquer maneira quando leio seus textos, me sinto viajando, cada vez, aos meus próprios episódios habaneros.

Cuba sorri morrendo de fome. Temos a audácia de divertimos a desgraça. Choramos no Carnaval.

Ela é mais reconhecida representante de um movimento civil que vem se posicionando diante da crua e unilateral política do governo cubano. Movimento que existiu desde a chegada do Fidel Castro ao poder, mas que nunca foi tão articulado e maduro como o que hoje se pratica na ilha e nas suas diásporas. Perante o absurdo de imaginar um país sem contrários nem opositores, Yoanis usa sua imagem para disseminar esse espírito revolucionário que nós, cubanos, sempre tivemos, do qual somos conscientes e pelo qual sempre lutamos.

Dizem os que a criticam, e não é difícil acreditar, que a força dela – do Generación Y – se deve ao financiamento do governo norte-americano. Eu mesmo acho bem possível exista apoio monetário e tecnológico dos filhos do Obama, mas a Yoanis regularmente nega essa ajuda. Porém concordo que muito do que ela recebe atualmente deve-se a doações de seguidores que ela tem pelo mundo todo.

Ao que interessa, gente. Aquilo que ela escreve é um retrato cotidiano daquilo que realmente acontece em Cuba. É a luta de um povo por residir num país que não valoriza o potencial dos seus moradores em detrimento da ação do conservadorismo marxista-leninista-castrista e de uma nova onda de investimentos estrangeiros que mantenham o saldo positivo nas contas do Estado. Em contrabalanço, um assédio violento à livre escolha de pensamento, ou de reconhecimento da individualidade tudo isso sustentado por um aparato repressivo que persegue quem, como ela, se coloca do outro lado, questionando as adversidades.

Aquelas fotos, por demais um ótimo trabalho do OLPL, o amigo fotógrafo que ilustra o Generación Y, demostram que aquelas imagens de uma vida derruída, quase miserável, que flutua na aquela mi isla são cruéis demais como para não denunciá-las ao custo que seja necessário.

Atacar a postura monolítica do governo do Raúl – não toca mais Raulito – leva-a e aos outros, a se colocar em situações de riscos típicas das mais cruéis ditaduras militares do século passado na América Latina – aqui no Brasil, até esse capítulo da história ainda veicula nos Senados e Parlamentos de interior de Goiás para ser no mínimo investigado. Esses capítulos de resistência são relatados no domínio dela, para combater o silêncio de uma mídia governamental tão poderosa quanto as grandes mídias que simulam manter os níveis de liberdade de expressão exigidos nas democracias modernas, tipo Brasil.

Em 2011, última vez que estive em Cuba, entrei num restaurante no bairro chinês. Na primeira mesa, Yoanis conversava com um homem, depois soube era seu esposo. Claudia que me acompanhava a cumprimentou, perguntou algumas coisas pessoais. Fui apresentado e eu me senti, lembrando outros momentos onde tinha estado no mesmo espaço que ela, que podia olhar nos olhos dela sem sentir nenhum ódio ou inveja ou orgulho.

Subimos ao segundo andar e jantamos. No local onde estávamos não teve nenhum tumulto nem presença policial. Yoanis era uma pessoa comum num restaurante comum de uma cidade comum num país que parece incomum.

Yoanis viajará na sequencia para outros países ao redor do mundo. Talvez a imprensa brasileira prove que ela realmente é um messias mediático e acompanhe o percurso dela por outras democracias ocidentais. Se ela for experta como aparenta ser, algumas pessoas acordem para a realidade que se vive no meu país. Lembrar que não é necessário cair na ingerência na qual caem os fanáticos. Ainda encontrar um jeito de entender o momento histórico que se vive em Cuba, e do qual Yoanis, é uma das peças, pessoa midiática, e hoje bode expiatório.

Os da esquerda, acordem, acolham o fato de aquilo que deveria ser em Cuba, não é. Aproveitem para escutar da cruel realidade. Um alicerce, talvez seja mais proveitoso salvar o bom que temos naquele país que de fato tende a se resistir a um capitalismo feroz – difícil acreditar, mas…

Acho que o Brasil está choramingando heróis.

De reformas migratorias (e do orgulho de ser cubano).

Na tevé a imprensa notícia as novas políticas migratórias cubanas; pela internet, pequenas notas, crónicas cubanas de todo o mundo e em todas as línguas rescrevem, reeditam a realidade.

Nos fatos um DETALHE muda: uma permissão de saída que era emitido pelas autoridades cubanas para poder viajar fora da ilha. Nesse detalhe era onde se administrava quem poderia ou não sair, um dos reais poderes do governo sobre seus cidadãos.

Eu não fugi da ilha. Ou sim. Perpassei a porta que se me abrira na busca de um eu perdido na floresta concreta paulistana. Um amor à deriva que flutuava entre prédios, viadutos e o trânsito. Detive-me na faixa, a luz mudou para o green. Desandei.

Meu passaporte fora feito dias antes da minha primeira viagem ao exterior. Um intercâmbio na Dinamarca, país dito europeio, lá pelo 2006. Integrante de uma ONG Cubana, Asociación Hermanos Saíz, foi através deles que fiz todo o meu papeleo. Em Cuba existem pouquíssimas ONGs por razões obvias à natureza política de aquele país, mas elas existem para além dos absurdos e outras, para além da vontade do governo cubano.

Na ilha, as filas de interessados em tirar o passaporte com as novas medidas vão ser manchete, e tal vez, os mesmos não terão que enfrentar o frio na barriga de ver seu processo negado por causa de um papel que em qualquer principio humano é um tolice. Entre eles haverá a cumplicidade de serem os primeiros beneficiados depois de uma secessão familiar que dura há muitos anos.

Do outro lado da bancada, os que carimbam com cara fechada, cães felizes do governo, acreditam ser a ponta de lança de um sistema invulnerável e sadio da evolução humana e se acham que salvam o país de escorias que não aguentaram a pressão de ser o único país dito comunista das Américas. Depois, na culpa, recebem de presente chocolates ou sucos, às escondidas dos seus chefes, quando mais aceitam alguma grana por fazer aquilo para o qual lhes pagam. A inteligência treme e certa ética balança.

Aquele mesmo passaporte entraria no Consulado Brasileiro numa rua do centro histórico habanero menos de um ano depois. A mãe do meu filho e eu tínhamos feito sentencia no destino, algo para acontecer.

Eu viria pro Brasil. Aprenderia o português.

Nos aeroportos haverá mais despedidas esperançosas de se tornar um cubano de mais perspectivas. Outra família se separa depois da linha amarela. Outra família se encontra num outro lugar. O sonho não é só americano. O sonho de todos é de objeto, luxo, pódio e poupança. Disso, o Brasil bem sabe.

Detrás da bancada, os segurosos encarregados de todo saber ou averiguar, terão a responsabilidade de deixar partir. Olham os registros, os B.O., acompanhamento detalhado do comportamento do individuo no Comité, pagamento das alíquotas governamentais, parecer do chefe empregador, não matou ninguém, não foi pego em atividades ilícitas ou de caráter dissidente.

Até o novo passaporte vai dar trabalho, aposto. Começando porque os preços do tal novo documento liberado vai custar o valor de quatro a cinco salários médios cubanos.

Novamente haverá um chutão nas cotações da Western Union. Vindo das fronteiras o sobrante das contas e pequenos luxos dos cubanos emigrados aparecerão como sustento das opulências dos governantes cubanos.

Nas filas de Imigração, os sorrisos espalhados e espelhados quebraram os recordes Guiness do povo mais feliz do mundo.

Entretanto perceber que o mundo é maior do que uma ilha que sobrevive a furações e a ascensão dos oceanos deixa atordoado até o mais malandro.

Na testa, todo cubano tem um que de orgulho. Haver sobrevivido à fome. Aos descasos sociais de último século. A vida sem internet. Aos desígnios do marxismo-leninismo. Às vontades da dinastia Castro. Ao derrube do comunismo soviético. Ao bloqueio norte-americano. Às despedidas mortíferas do aeroporto. À colonização, à neorrepública, à revolução, e a última ditadura.

E continuar vivos.

E tentando ser felizes.