En ausencia que se mide el tiempo

minha mae é a ilha
eu o continente
o mar no entre

Única vez que viajamos juntos, solos tu y yo, Eva, era año 2002. No podíamos saber, quince años después que sería hasta este instante la última vez que yo visitaba Moa, tierra que te recibió en el mundo. La tierra que le puso árboles, ríos y tanta infancia a mi vida.

Nos fuimos en tren, atravesando por el centro aquella magnífica isla de nuestro encuentro, en un trayecto que terminó durando casi veinte horas, porque sabemos que en Cuba, los minutos y los días duran más que en otras latitudes. Aquella vía férrea, entre montañas y palmas, era agreste, de pueblitos secos y desgastados, como casi todo lo que ha quedado en ese país que hoy, diez años después apenas recuerdo, o quizá más realista, apenas olvido.

Habíamos llevado, por tus caprichos de llevar todo preparado, comida suficiente y hasta agua congelada, café.  Hoy, tanto de ti se repite, que debes ser tu quien prepara la mochila, cuando voy a viajar con tu nieto. Debimos haber hecho tantos planes: cuál casa de cuál tío primero visitaríamos, dónde dormiríamos las primeras noches, subiríamos a Farallones, nos bañaríamos en el rio, cuántos bichos matarían en las fiestas por nuestra bienvenida?

Atravesábamos el país en tren – nada conseguiría ser más nostálgico. Nosotros a través de las ventanas, atravesábamos nuestras memorias, reflejadas en los vidrios sucios de tierra marrón. De mirada en mirada, aquellos silencios metálicos, nos atravesábamos uno al otro. Yo, demasiado joven, sin saber lo que era el tiempo, menos el presente, quizá pensaba en mis mejores futuros, que de tan imposibles,  no serían como este ahora, tan distantes, tanto tiempo uno sin el otro. Yo sin ti. Tú, apuesto mis lágrimas, sin mí.

Y si es que, en ausencia que se mide el tiempo, tú bien sabes lo que siento, que también habías salido de tu tierra, lejos de tu madre y hermanos, lejos de tu padre, para irte a vivir tu sueño de ciudad grande, así como yo, hoy tantos años también vivo mi sueño.

Nadie, dicen, sabe lo que tiene hasta que lo pierde. Pero yo por distinto, sin haberte perdido, ya sé lo que de ti tengo, o peor, lo que de ti no tengo.

De aquel viaje por la isla-a-la-deriva, atravesando en tren la vida y las memorias, tuyas y mías, guardé quizá mi mejor recuerdo en mi segundo libro, y como todo buen secreto, tal vez nunca te comenté de eso: en Villa Clara, quizá en Camagüey, pero lo más probable es que haya sido por Las Tunas, mientras cruzábamos un caserío casi baldío, una niña observaba el trayecto férreo de nuestro existir, yo la vi y apenas me inventé su pequeña soledad. Le escribí… hoy ese cuento es para ti, mamá!

LEA:::  el cuento (des)conocidos

Natureza Sangue (sete cenas de um mundo animal)

casa de libélula

de pequeno, no rio, eu pinçava instantes com as mãos, entre as pedras redondas do tempo,  e numa daquelas  descansava seus sonhos de voar uma libélula, eu escolhi a casa dela, o casulo foi-se correnteza abaixo, até o mar… voou!

 

cauda viva 

tratei de pegar viva a lagartixa, fria e verde, ela queria viver toda sua vida, deixo-me a cauda, saltimbanco entre meus olhos, tive medo de uma vingança repentina.

dela corri.

 

olho de gavião 

no pátio a céu aberto, a quietude de uma montanha senhoreia, os animalecos pastam restos, frutas e minhocas.

no céu aberto, o gavião antecipa sua comida.

um disparo de escopeta. outro. vários. meu tio grita: “essas galinhas são minhas, joéputa”

 

minhas mortes matadas 

já degolei galinhas e um ganso. vi a morte de mais de cem porcos, carneiros, bodes e peixes dançando em redes.

eu sou criança viva. sobrevivente!

 

dragón de fuego 

ela tinha um cachorrinho e um dragão de fogo entre as pernas. eu era vitimário de aquele bicho faminto.

O cachorrinho tinha sede e não medo daquele fuego. Veio ser feliz entre nossas pernas.

beijo-língua …. fogo dentre.

ela, eu e o cachorrinho.

 

brilho de uma cena kafkiana 

dóis cachorros deitados. la noche. 

babam-se com sede – ou será fomes?

perto: menos de um metro, uma chuleta descansa! (what?)

Um dos cachorrinhos (me vê)

sagaz, pega para ele, a chuleta. .. la boca. 

(eu o vejo)

 

delivery 

salvei uma esperança (Tettigoniidae) de um morte vidrada. com os meus anseios a levei a voar ao vento funesto. ela tentou se salvar, retornando à gaiola de vidro.  o pássaro foi mais ligeiro.

assim morreram minhas últimas assas.

 

 

 

 

(Três) Ingênuas roubadas

O que me roubaram não foram às memórias, e sim o momento sadio feito peçonha e raiva; com a deixa, uma sensação de vazio e de injusta exposição, um furo, sempre um abuso…

Eu tinha 6 anos, e cursava a primeira serie de uma escuela – Pre-Eide Alfredo Sosa – que tinha como intuito incentivar os esportes nas crianças e descobrir habilidades esportivas. Minha mãe tinha me colocado lá, indicado pelos médicos por causa da minha asma crônica. Na falta de aptidão para saltos ornamentais, única modalidade aquática que ainda restavam vagas, eu terminei matriculando no fútbol.

Nosso time treinava nos fundos do campo de baseball, que era ao contrário do que no Brasil, o esporte mais popular, reservando ao futebol o raríssimo posto de esporte alternativo, contracorrente até. No meu caso tudo a ver.

Num dia de treino comum, eu fui pegar algo na minha mochila, e um cara se aproximou em bicicleta, do outro lado da grade, que dava a uma avenida. Ele me chamou, e depois de algumas palavras, elogiou a mochila de um colega, e pediu para eu mostrar para ele. Lembro de ter jogado a mochila por cima da cerca de peerless, com a força de tamanha ingenuidade que até consegui que voasse certeira até ele. Ele pegou a mochila, e de bicicleta, sem olhar para mim, foi-se embora…

Eu havia ganhado uma bicicleta do meu pai. Era uma mountain-bike vermelha vinda do Canadá, para os tempos era certa ostentação, que eu cuidava muito, mas porque era muito confortável. Durou-me pouco…

Uma manhã, conversava eu com uma amiga, que havia encontrado bem na frente da minha casa, e aparece um obrero que vem saindo da casa de uma vizinha,e oferece uma ajuda de custo se eu ajudar ele trazer um vaso sanitário para instalar, “ali na Aida, estou fazendo uma reforma para ela…” e convida à amiga, para acompanhar o rolé, e “… com sua bicicleta a gente consegue trazer num carrinho, puxando, fica mais fácil.”

Então, eu no flerte com a amiga, meus adolescentes anos, aceito o bico, e descemos a ladeira de casa: o carinha andando na frente, a menina, a bicicleta e eu, detrás, na nossa.

Caminhamos vários quarteirões, zigzagueando  ruas avulsas, até que o homem avisa que chegaríamos nos próximos vinte metros, “tá vendo aquele carro?” e se aproxima, pede a bicicleta “ … deixa eu aproveitar essa descidinha, posso testar a bicicleta?” e minha ingenuidade solta da mão o guidão, abraça a menina, e vejo mi bicicleta roja ir-se embora, e eu ainda perplexo, duvidando, espero definitivamente ver o cara desaparecer na próxima esquina…

No aeroporto antes de embarcar, a última vez que estive em Cuba, com as malas entregues, os carimbos no meu passaporte, me informaram, que mi hijo por razão de dois dias estava ilegal em nuestro país e que eu devia pagar um novo visto de turismo, para ele poder deixar a ilha.

Sem alternativas, fui fazer os novos pagamentos, e na fileira para trocar dólares pela moeda conversível cubana, um estrangeiro, de sotaque europeu, jovem, simpático, me diz que não tinha como tirar dinheiro com seu cartão de crédito, confirma que ele embarcaria no mesmo vôo que eu, mostrando a na tabela de embarques, e que “…em Cidade de Panamá, assim que desembarcássemos ele me devolveria a grana”.

Minha ingenuidade segurava a mão de Benjamín, e a outra liberava as notas que pagavam mais um descuido. Atravessamos os controles de alfândega, e chegando na sala antes do embarque vejo o menino, sentado, calmamente mexendo no seu notebook, escuto a chamada do vôo, e eu apenas me preocupo pelo meu filho e nossa já difícil despedida daquele país.

Entramos no avião, e ainda esperançoso, aguardo com o olhar, todo mundo se sentar. Ainda, percebo à espera, por um erro, de não ter visto o ladra tomar assento, e mais duas horas sobre o Caribe, até chegar no Panamá…

Lá no aeroporto conexão com o Brasil, vejo partir aviões em direção da América toda, infinita… o cara não apareceu.

Olhe ao Céu

“Olhe ao céu enegrecido, a ausência de lua, o mar escuro estrelado. Lá distante, brilha um astro sobrevoando entre as tantas um caminho certeiro através do universo”. Essas poderiam ser as palavras do meu pai, na poética da memória, vinte anos depois daqueles dias em La Habana.

Depois que o muro de Berlim caiu e a União Soviética desapareceu dos mapas e de nossas despesas, os cubanos conhecemos uma das piores crises econômicas de nossa historia: falta total de comida, transporte público praticamente nulo, crises nas relações pessoais, empregos em falta, prostituição renascente, e longos períodos sem eletricidade.

Apagões de mais de doze horas alternavam com o mesmo período com luz elétrica. Cidades, povoados, regiões inteiras eram acessos ou desligados. Em La Habana, uma grade semanal dividia municípios entre os “encendidos” ou “apagados”. De noite, a escuridão tomava conta das ruas e esquinas, dos céus e dos sonhos.

“Olhe pro céu. O escuro da noite sem lua. O véu enfeitado de pequeníssimos pontos brilhantes. Olhe fixo, alguma coisa acontece, e se mexe. É uma estrela? Um planeta cintilante?” Éramos meu pai e eu, sentados na calçada olhando pras únicas luzes que nos restavam. Sorriamos daquela felicidade simplificada, ínfima como o brilho que o céu nos regalava.

As noites eram esticadas com as conversas dos vizinhos que puxavam cadeiras, sofás e travesseiros para a calçada. Fugiam do calor insuportável de dentro de casa. As crianças corriam na rua, jogando de esconde-esconde, ou simplesmente sentavam a ouvir as histórias dos adultos: histórias do mesmo que se contavam cada dois dias, alternando entre “apagados” o “encendidos”.

“Olhemos o céu. Aquilo que brilha e se mexe não é um astro. Uma estrela cadente? Um sol errante procurando galáxias sem luz? Um planeta viageiro a procura de nos? ” Assim, a cada dois noites, meu pai e eu anotávamos – na memória – a cada novo satélite que descobríamos  no céu habanero – você já viu satélites? aqueles pontinhos de luz que se mexem entre as estrelas?

Ali, a cada nova descoberta de um desses artefatos luminosos, a nuestra euforia iluminava aquele breu do bairro, entre gritos e sorrisos, entre nossos abraços – as vezes minha irmã – assim como é a mesma cumplicidade daquela amizade que até hoje, diante do escuro estrelado, nos acompanha sob o único céu que nos abraça.

Despedidas da viagem*

“Negro, estou indo embora…” a despedida era eminentemente em breve, lhe disse a Meple ainda num abril há quase dez anos, casi diez años. Despedidas naquela ilha-à-deriva eram infinitas ou definitivas: eu não sabia, como poderia eu saber?

Nos demos o primeiro dos longos abraços: um aperto demorado de silêncios, tus cabelos despencando entre nossos peitos, a respiração continua e perdurável de nossos hálitos, os olhos fechados adentrando nos corpos de um, e do outro. Era, seria uma espécie de último e pôstrer abraço.

O tempo havia se detido caprichoso desde então, no primeiro daqueles últimos abraços nossos. Era uma esquina qualquer de La Habana, que hoje não mais lembro, naquela ilha que jamais voltou ser nuestra.

Daquele instante em diante, até que definitivamente minha partida-vinda ao Brasil se concretizou, passaram-se cinco meses “… estamos nos despedindo, Negro” (a memória recria suas próprias palavras, salvo-condutos de auto-afirmação e sobrevivência); e durante aqueles instantes o tempo se encolheu entre as mãos daquele agarre, entre dedos e unhas, o suor de nossa caribenha continuidade, tus dreadlocks y los mios aún sin hacerse, futuros, eram nossos olhos pretos, tão perto.

Ninguém compreenderia nossa despedida solitária, intuída, de finais exorbitantes e misteriosos, sem antes saber da nossa amizade de asas voadoras e de ensonhos. Nadie, talvez, ni siquiera nosotros.

Nos cinco meses posteriores ao momento do primeiro-último abraço a promessa seria cumprida a riste: o encontro é no presente: começa nos olhos, termina no fim do abraço, e será único sem aguardar o próximo abraço porque não há amanhãs na terra dos homens, nesta terra nossa, sua e minha.

Assim fora o antes que seria: vimos-nos sempre como se aquele instante fosse o último de nossas vidas.

E Meple… cumprimos com honra: hoje é sempre ainda: todavías.

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Renaces 

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    Renazco 

    *o título foi dado por você, Benjamín.

Nosso leite derramado

O leite ferve e derrama-se, quase sempre. Parece uma condenação. É o barulho da efervescência, instantes antes da ebulição. E cai fora, apagando as chamas. Quase matemática.

Minha mãe não havia um santo dia que isso não lhe acontecia. Nos reclamávamos, mas de fato, quase sempre acontecia. Parecia uma condenação. Ela dizia que o leite só estava pronto para beber, se se desligava a fervura justo antes de se derramar.

Hoje, eu pai, quase sempre me acontece. Pareço condenado: a uma memória que está escrita nos meus dias, minha mãe fervendo o leite até o ponto mais crítico, quase sempre a fervura sobe e derrama-se.

Minha mãe ferve o leite: derrama-me. É o barulho da fervura, instantes antes do derrame. É uma condenação.

Eu fervo o leite, meu filho observa: derrama-se. Estou preso a memória inscrita na minha pele, nos pensamentos, nos meus atos.

Depois o leite está quente demais. Então para esfriar-lo mais depressa se passa de xícara em xícara, várias vezes, assoprando o leite que vai pulando de xícara-em-xícara. Esse gesto, barulho, essa cena: é uma memória. Tudo inscrito. Minha mãe fazia, meu pai. Eu faço.

Estamos presos à memória: derrame-nos.

Detenha a fervura justo antes de derramar o leite. Se muito quente, troquei o leite de xícara em xícara, assoprando entre dentes: isto é uma memória, tudo inscrito.

Derramo-me.

Sob o céu da minha infância

Sob o céu da minha infância em Moa, o patio era de terra avermelhada no centro. Ao redor deste, a casa grande, de tabuas e guano. A latrina um pouco afastada por causa do mau cheiro. O chiqueiro mais distante, mas visível, de onde se ouviam os barulhos dos porcos enjaulados. Um cercado de um mato espinhoso, alto e perigoso, impossível de atravessar ou pular. Uma sombra de árvore aqui, lá e por todos os lados, e o solzão no meio. O murmúrio do vento nos galhos. E a barulhinho do rio, há poucos metros, umedecendo a rochas.

Assim era a terra nos dias mais incríveis que me lembro de pequeno. Tudo verde e vermelho naquelas montanhas sem fim. Meus pais e irmã por perto. E meus primos e tios. Meu avô Mâximo. Minha avó Dulce.

É dela mesmo que brilha a lembrança, andando devagar de chinelos e vestido gastado. Era quase sempre calada no que eu lembro, e com a minha certeza, de que estava chateada por algo que eu desconhecia. Naquela minha idade eu não sabia o que significava o silêncio. De tanto respeito que eu sentia por ela, eu quase que tinha medo.

Ao fim da tarde, os adultos começavam preparar a janta: yuca que aqui chamam de mandioca, aipim ou macaxeira; malanga sendo aqui inhame; plátano macho cozido que se conhece como banana-da-terra; boniato que é a batata-doce, e calabaza o que é a abóbora; tudo isso plantado por perto pelo Maximiliano, meu vô e pelos meus tios. Costumava ter algum feijão, que podia ser de vários tipos dependendo da colheita: negro, gandul, caballero ou  judias que é o feijão branco. Também havia arroz, que podia não ter, já que era daquela comida, o único que não se plantava na finca.

Avó Dulce, no meio do pátio e com um balde cheio de milho seco e outros grãos, começava-os jogar “tiu, tiu…” e chamar as aves “… tiu, tiu”. . Eram centos de galinhas e seus pintinhos. Alguns galos. Outros frangos sem alcurnia, aqueles sem crista. Patos e gansos. Vinham alguns porcos que perambulavam soltos, pois só os grandes crescidos, que estavam para engordar e depois abate, eram os que ficavam no chiqueiro.

Quase simultaneamente, nós nos aproximávamos. Éramos muitos os netos que sentávamos perto dela. Minha irmã e eu, vindos da cidade naqueles dias de férias, virávamos os prediletos, só que naquela hora, seria a destreza e o justo que prevaleceria.

Aquele quintal a céu aberto ia enchendo em minutos dos bichos que respondiam ao chamado da avó e dos grãos caindo no chão. Entre eles estava o plato fuerte da nossa ceia, que em breves instantes, seriam escolhidos pelo olho, dedo e voz da avó Dulce. Dentre nós, estava quem conseguiria pegar os bichos que comeríamos naquela noite.

Vó Dulce assinalava “vocês veem aquela galinha ali…” nos a percebíamos dentre as outras “… é essa mesma”,  éramos nós quem tinha que ficar prontos “quem pegá-la, vai ser quem degole ela” era esse o prêmio pela caça.

Éramos apenas crianças, mas naquela cultura montanhesa, já incentivados à sobrevivência.

Então íamos aproximando-nos, encurralando-a, discretamente. A coitada não sabia seu destino, apenas lutava por encher seu bico, na sua sobrevivência no meio de todos os outros bichos. Desavisadas, as aves iam pegando seu sustento, em perigo iminente de morte, mas somente a “dourada” estava marcada para morrer.

Assim avançávamos, até que alguém de nós, depois de várias tentativas conseguia finalmente pega-la. O efeito era instantâneo, assim que prendia a bichinha, depois que todos nos contentávamos com a alegria de ter pegado “nossa” comida, depois da confirmação da avó Dulce María, e da aprovação dela mesma, quem tivesse pego a galinha, simplesmente a apertava pelo pescoço e a girava bruscamente, até parar de estar viva.

Assim era a vida, simples. Logo, a morte.

Os bichos se dispersavam, mas em seguida voltavam inconscientes de que entre aqueles milhos jogados e o começo da noite, alguma possibilidade de continuar vivendo existia.

Numa mesma tarde, e dependendo da quantidade de pessoas na janta, avó Dulce repetia a escolha de três ou quatro animais. Pertinho dela, nós acompanhávamos o próximo “juízo” e já estávamos prontos para caçar a próxima vítima.

Uma vez obtive meu prêmio. Havia pegado a galinha para a janta, e dei castigo mortal sob comando da avó Dulce “olha o meu neto…” ela disse orgulhosa.

Escolhas que marcam

Aos catorze anos, no meio à maior crise econômica cubana, eu estava no fim do que aqui no Brasil se chama de ensino fundamental, e eu precisava escolher meu rumo escolar. A prova de “ingresso” definiria, entre as escolas dos municípios, o nível acadêmico dos alunos. Essa avaliação, computada à pontuação alcançada durante os últimos três anos de ensino fundamental dariam a colocação geral para a escolha de futuras carreiras universitárias ou técnicas.

Antes da prova, eu era, pela pontuação no ensino fundamental, o segundo melhor colocado da minha escola e um dos primeiros do município. Assim, se eu saísse bem nas provas de “ingresso” eu teria quase total prioridade na escolha do “meu” futuro.

Meses antes, minha mãe praticamente me obrigou a me preparar melhor para as provas. Contratou uma professora particular, amiga nossa, para aprimorar as matemáticas. Durante alguns meses, ia duas vezes por semana aprofundar aritmética, cálculo, equações.

Para língua espanhola e redação, eu estava acima da média e então ela confiava no meu desempenho.

Seriam duas provas: a de matemática primeiro, e  duas semanas depois, a de língua espanhola.

Naqueles dias, dentro de mim, eu tinha feito uma escolha, friamente, que mudaria minha trajetória pro resto da minha vida.

No dia, a prova de matemática seria aplicada numa outra escola, bem maior, que não era a minha, e lá misturados com alunos de outras escolas, para evitar que “colássemos” entre colegas. E lá sentei eu, dentre desconhecidos, para decidir meu futuro.

Às oito e trinta da manhã tocaram uma campainha, e entraram vários professores para explicar as regras. Escutei tudo atento. Entregaram as folhas. Fizeram maior protocolo na espera do horário exato,  depois a campainha, e o começo.

Olhei as questões. Sabia como solucioná-las. Fiquei em silêncio, olhando como ao meu redor, todos os outros meninos e meninas se jogaram sobre o papel para responder os itens, exceto eu, já previamente decidido de não entrar no caminho acadêmico, mesmo em contra da vontade da minha mãe, e contra meu próprio discernimento do que seria – e é.

Passaram os professores e perguntaram se estava tudo bem comigo. Sugeriram de eu apelar a algum problema de saúde e tentar na segunda chance. Questionaram sobre minha aptidão para resolver aquilo. Eu quase mudo, apenas acenando que eu estava sobre meu controle.

Naquelas três horas de espera eu mandei embora todas as chances de faculdade. A de medicina que minha mãe almejava para mim. As de ciências exatas que eu não desejava. As de humanas mas me dava preguiça a leitura.

Quando tocou a campainha, que marcava o tempo menor obrigatório, eu peguei minhas coisas, entreguei as folhas em branco e sai. Tinha decidido até então, e até agora, não fazer nenhuma carreira universitária.

A minha mãe não tive a coragem de dizer o que tinha feito. Somente uns meses depois, que eu decidi contar minha decisão. Ela ficou desapontada, porém sem mágoas.

Uma calça jeans, uma esquina e outros desapegos

Lembro-me de uma calça jeans, cheia de buraco, que eu insistia em não jogar fora. Minha mãe brigava comigo por aquele pedaço de tecido roído e velho. Eu me pintava de aquele azul, e por nada me permitia trocar ele. Uma tarde, brigando ela e eu, joguei o jeans pela sacada e caiu lá na avenida, onde ficou semanas, primeiro grudando ao asfalto e até finalmente sumir de tanto carros e ónibus que passara por cima.

A existência humana, entre dias e noites, é feita de ganhos e perdas. Ao longo da vida ganhamos ou perdemos algo, alguma coisa. Sempre.

Ganhamos de nossos pais e parentes, roupas e brinquedos de todo quanto é cor e tipo. Amigos de infância ou amores adolescentes, todos tivemos. Mesmo o mais tímido lembra-se de alguém que fez a diferença. Esquinas, praças, viagens distantes todos vivemos, e lembramos como algo que nos pertenceu ou até nos pertence.

Ganhar é quase a sentença de que iremos perder. Ou ao contrário, perder é a condição de ter tido.

Algumas coisas ou momentos, pessoas e ate bichos, marcam nossa existência ao longo da vida. Algumas se fazem tão importantes que é impossível imaginar-se sem elas.

Desses lugares eu lembraria a esquina onde cresci. Onde diariamente ia encontrar meus amigos do bairro. Uma escadinha num portal de uma bodega, uma espécie de armazém onde comercializavam os produtos básicos a população. Dias inteiros, madrugada dentro, zoando e curtindo, brincando e crescendo com os amigos. Eu apenas podia viver sem aquele troço de lugar, e a meninada toda.

Até hoje, quando vou a Cuba, dou uma passada lá e sento, só para ver como estou diferente. Quanto me distancie daquele lugar. Como cresci.

Coisas, momentos e relações que fazem nossa vida tão especial lhe são alheias aos outros, pertencendo apenas a nosso querer. Às vezes, algumas relações nos são especiais a mais de uma pessoa: amigos, amores, encontros que serão para sempre lembrados não importa o que acontecer.

Ao longo dos dias e noites, fatos e feitos marcantes, as mais belas imagens de nossa memoria, os mais incríveis instantes vão se apagando, esquecidas, trocadas por renovadas lembranças.

E o que é esse apego que nós faz sentir essa vontade incontrolável de manter, por afeto, coisas e momentos, pessoas queridas ou odiadas?

Essa sensação de que nada faz sentido sem aquilo, essa dor de imaginar-se sem aquele e que nos prende à coisa ou ser amado e que nos aprisiona e limita nosso existir. Essa sensação que costuma ser momentânea, como crianças quando privadas do seu mais desejado brinquedo, e que subitamente troca por outra nova paixão, pode ser um momento crítico, quase de morte.

Era a imagem daquele jeans, agora pintando de azul o preto asfalto frente a minha janela. Eu olhava para ele como se fosse o troféu. Um ridículo troféu para eu vestir.

Um pedaço nosso deixa de existir. Uma memoria apagada a contragosto. Porém passada a perda temos algo novo a ganhar.

Hoje, muitos instantes depois daquela esquina tardia de La Habana, eu sei que se tem algo do qual não consigo me separar, é porque me faz mal. Não que aquilo seja ruim para mim. Nem é que eu não queira ou deseje ter ou viver aquilo. Mas só se eu puder perder, é que tenho. É que quero.

Hoje (faz uns dias, já)… eu desapeguei mais uma vez.

O luxo do Sponge Rush.

Hoje eu fiz e comi Sponge Rush.

Na Cuba que eu nasci e me criei, os luxos eram poucos. Nem quem tivesse algo a mais de grana poderia adquirir produtos que os mantivessem digamos, fora do padrão. Ninguém, obviamente, que não fosse das cúpulas políticas ou militares.

Na época que “éramos” crianças, todos tinham as mesmas coisas, ou as mesmas faltas. Os mesmos brinquedos. As mesmas camisas xadrez. Os calçados de couro preto. As mesmas oportunidades de visitar museus ou locais turísticos. Ou mesmo, a falta de tudo isso.

A comida era basta. Produzidas no campo da ilha sob aquele sol feroz: frutas, legumes e feijões. Ou trazidos em latas em navios soviéticos – é, esse gentilício já foi mais famoso – sortiam as prateleiras dos mercados: maçãs, merluzas, vinhos, sopas prontas.

Hoje em especial lembrei-me de um desses luxos pedestres, daqueles que se vivem só nas condições precárias que los cubanos convivíamos, e que chamava sponge rush – na falta de informação sobre Cuba na web, el Bu perguntou a mi amiga Mailín Milanés, dois cubanos do pedaço. La temba quem confirmou o nome correto.. Era uma torrada doce, feita de bolo comum de baunilha. Digo eu baunilha, mas na isla poderia ser qualquer coisa nos paladares.

Naquela época aquele doce me causava uma felicidade imensa. Não sei se era o sabor diferente da forma torrada de um mini pão de forma. Não sei se era a frequência com que eu comia aquilo, só às vezes, sabe! Não sei se era o inglês contido nas palavras que designava aquilo: esse lado subversivo de quem vive afastado de todo do mundo El Capital ou das sequências imagéticas da leitura de 1984.

Demorei em ficar maiorzinho e começar perceber como se construía aquele país; aliás, como se desconstruía. Demorei em descobrir que o luxuoso doce era simplesmente um bolo comum torrado em forno industrial. Eram o fim de sueño cubano.

Eu era um moleque. Todos naquele país éramos. Sponge rush era incrivelmente delicioso, até hoje é.

Hoje eu fiz, e comi.