sobre emigrar e outros dados da loucura

eu nasci numa ilha. sair de uma ilha é um trâmite difícil, porque ou você nada muito bem ou aprende voar. migrar de um ilha é uma tarefa quase de um deus. ou de herói. ou de um mártir.

você provalmente nasceu num continente. um continente é uma espécie de ilha, só que bem maior. para você emigrar de um continente, você precisar nadar muito bem ou aprender voar. emigrar de um continente é missão de um quase deus. ou de um herói querendo ser mártir.

migrar é coisa de gente. pode ser se despedir da sua casa, da sua família ou de um amor. emigrar é coisa de quem abre um porta e parte, sem poder dizer adeus. migrar não é coisa de deuses nem de heróis. apenas de gente que precisa morrer antes de partir.

migrar é coisa de bicho. crisálida pendurada em caçulos futuros. botões de rosas em pleno jardim do jamais. assas batendo contra ventania. ou você fugindo de si. ninguém foge por opção: ou você é deus ou você é mártir do seu devir.

sair de si é coisa de louco. bater de frente com si próprio de frente ao espelho. ou você nada muito bem ou nos crescem assas. para migrar de si mesmo basta um silêncio de deuses, ou matar o herói que quer se mártir. abrir a porta e sair sem deixar adeuses.

eu nasci num ilha que teimava em ser continente. não tive deus, em troca de heróis e de loucos. o espelho o troquei pela minha loucura e as assas. então andei até o poente querendo ser gente. gente é um bicho sem medo da morte. gente é um deus sem adeuses.

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crônica de uma morte lembrada

a gente precisa olhar aos olhos da morte. ao silêncio mudo de alguém que se ausenta no estar. a quietude da respiração sob o véu  das pálpebras, sem gestos ou insônia , apenas o corpo do que era, um ser anterior.

ela havia partido num desejo de raro viver. com as mãos abraçadas ao sol que girava, os presentes, outras gentes, despediam-se do corpo funesto, alguém que partisse anterior a nós, sobreviventes, que aqui chorávamos meio vivos, quase exaustos.

minha avó Dora havia falecido numa tarde qualquer de um mês que não lembro. ninguém da família e vizinhança esperavam aquele súbito decesso. e do nada, a rua e meus entes ficamos consternados.

a morte nunca avisa. sempre surpreende.

no velório, entre o calor e o cheiro das flores, nos, os adolescentes, invadíamos os cantos daquela casa de grandes salas, com sorrisos e piadas. entre choros e lembranças íamos despedindo quem era matrona da casa onde eu havia nascido, criado e conhecido o mundo primeiro.

pelos corredores ou perto do caixão, aglomeravam-se abraços de perdão, chorumens de culpas e ressalvas. meu pai ajoelhava-se em dor. outros tantos desistiam, sentados nas cadeiras de balanços, em conversas de meio tom.

que da morte não se sabe, nem se arrisca de dizer nada.

uma hora , eu encostei no vidrinho. ela estava num gélido gesto do acaso, apertando os lábios pra dentro. eu olhava o rosto talhado, sem lembranças ou emoções. lembro que fiquei lá, absorto sem nenhuma impressão. era ela e eu. antes, mil jornadas de dias cotidianos desde pequenos até aquele último dia. agora eu aqui; e ela…

alguém veio me puxar de lá, preocupado no meu olhar no cadáver de abuela. um sem entender me abraçava, mais pelos outros que por mim, aquele ser destemido, de quem quer muito aprender a viver.

da morte eu tenho medo, que me agarre sem volta ou defesas. ou me amarre sem amor ao vazio.

depois, minha prima e tia vieram me pedir que no enterro, no próximo dia, fosse eu quem lesse as palavras de despedida. sobre o altar de um túmulo de mármore branco, diante de toda a linhagem daquela senhora do bairro, os amigos e família; eu, mais que vivo, leria ao adeus para sempre que Dora merecia.

lajes, varandas e quintáis

a roupa boiava na água escura, sujeira de dias convivendo cotidianos com minha pele, meus gestos, meus suores. no tanque mecânico, elas giravam fazendo espuma, liberando instantes passados no ar da memória.

minha mãe que gritava, no fundo do ouvido “posso lavar essas suas roupas?”. ela sabia do minha predileção por panos gastados, tecidos ungidos de mim e minhas andanças “não mãe, pode deixar” mas ela ao fim lavava, escondida de mim e contrária aos meus desejos.

a roupa cheirava novos destinos, outras estórias por ver e viver. um odor de uma fragância letárgica, ou quase plástica. roupa limpa é como uma manhã sem orvalho, ou sem companhia.

eu lembrava. revivia.

eu esfregava com minhas mãos os tecidos, este agora de roupas melancólicas. “o sol gasta as cores” dizia dona Juana, “pendure-as do avesso” e assim eu aprendia “brancas primeiro, logo depois as coloridas”.

cló pendurava as roupas respeitando suas cores. ou mesmo o cumprimento das calças e as camisas. colocava o arco-íris no varal, prendendo-o, até que uma noite pueril o apagava. eu sentava-me ao lado, apenas inesperando a próxima peça para ser pendurada.

as roupas grudavam em mim, como histórias perenes, como a própria pele. e eu me gastava. me rasgava ao vento da vida. destingindo-me com o sol que me secava em lajes, varandas e quintais.

minha segunda pele pululava.  dentre minhas próprias mãos ou dentre as de quem me abraçava. estica e encolhe. soltei as costuras que me prendiam. a pele caia, sozinha, enquanto eu caminhava.

hoje faz sol. a memória clareia. as roupas no varal secam-se. eu estico minha pele do lado da sombra. não falta mais nada, somente o orvalho da próxima manhã ou minha própria companhia.

versos de viento huracanado

Día, calor extremo, calma

alarma vecina del proximidad de un ciclón

categoría avasalladora por ahora desconocida

como el miedo y su más fiera condición: la muerte

el tiempo acalma

entre compras y cuidados de la casa

estantes rellenos con lo que falta

¿velas? ¿galletas? ¿vegetales congelados?

un vino de arroz, dos botellas de ron a granel

unos huevos luchados en la cola del mercado

frutas de estación si sobraron,

si algo quedó

si compramos

unas tablas asegurando una ventana

los vidrios con plásticos, en cruzes al centro

el radio encendido

en el paso a paso de las noticias que se repiten

la vecina grita “se fue la luz”

y el oscuro abraza la tarde

vientos huracanados se aproximan de la costa

el cielo nubla

el viento arrasa

palmas se tambalean

árboles enteros se vienen abajo

vuelan plásticos, maderas… y los sueños

una llama encendida sobre el lugar más alto

un silencio cortado por el aullar de las ventanas clausuradas

el dominó en el centro

un café dividido cruzando la sala

los cuartos cerrados, evitando lo mínimo de revuelos

la oscuridad agarrando los recovecos

un ruido más alto, lejos, desconocido

como explosión que incendia la noche

las alarmas son de abrazos

una calma a pesar de este peligro

no hay teléfonos

ni electricidad

y el agua ya fue cortada

entonces, nos queda la pausa de la familia abrigada

los chistes de siempre

un buche de alcohol, con el doble nueve en la mano

trancado,

algo friéndose en la caldera de aceite caliente

un café colado, dividido entre tantos

la vecina gritando “que es esto dios mío”

la vela se gasta en el último lumbre

un libro en la mano, leído en voz alta

estos versos – que aún no he escrito, quizá la memoria adelantada

la próxima vela y los vientos se calman

ya es la mañana,

un gris ceniciento

los árboles tumbados

los cables

la gente que anda en la calle,

buscando entre escombros pedazos de cielo

es más una ventisca

infierno terreno,

la astucia de tiempo

los nuestros, en casa, tranquilos

a espera del próximo sol

sin estos versos de viento huracanado

O silêncio das cidades

Seis da manhã, ou antes. O silêncio de uma basta cidade à beira-mar se quebra com os primeiros sinais do cotidiano humano irrompendo antes do sol quebrar a luz desta noite.

La Habana era silenciosa por natureza. Presagios de um convívio incomum com o que naturalmente acontece. Ninguém era abrupto. Ninguém no seu são existir revidava. Se era ou se era.

No silêncio das mais sutis manhãs o apito rouco de um trem de carga visitava todos os lares, um trem vazio, que avançava pelas frestas de uma cidade moribunda, que despertava para fazer o pão tardio, que derivava num refazer de fachadas desgastadas, ou de vidros umedecidos pelo orvalho caribenho de uma ilha à deriva.

O silêncio era a práxis. O refrão da canção mais cantada.

Um barco que abria uma senda no mar calmo de uma baía moribunda. O apito era oco e respingava nas ondas oleosas de um mar calado e putrefato.

Do alto das colinas da Víbora eu escutava antes do sol queimar as casas velhas do meu bairro silencioso. Andava, escadas acima, até a laje do prédio, e no frio matinal de essas horas, eu escutava o grito silencioso das nuvens que se penduravam de esse último amanhecer.

Hoje, eu acordei naqueles ruídos miúdos da minha outra estância. Vida que estilhaça minha memória terráquea, infância de este outro corpo, entre barulhos sinceros de um presente que me abraça.

Esta cidade é calada, a pesar do ruído do tamanho de suas bordas pragmáticas. Homens gritam pelas dores, e calam a raiva e o amor de seu raríssimo existir.

Um galo canta nas mesmas cidades do meu tempo. Um galo antecipado y sedutor que acorda bem antes de todos os seres e grita sem pudor de estar vivo. Eu o escuto, tão antecipado e sedutor como meu irmão de penas e grasnido.

Eu estou vivo.

En ausencia que se mide el tiempo

minha mae é a ilha
eu o continente
o mar no entre

Única vez que viajamos juntos, solos tu y yo, Eva, era año 2002. No podíamos saber, quince años después que sería hasta este instante la última vez que yo visitaba Moa, tierra que te recibió en el mundo. La tierra que le puso árboles, ríos y tanta infancia a mi vida.

Nos fuimos en tren, atravesando por el centro aquella magnífica isla de nuestro encuentro, en un trayecto que terminó durando casi veinte horas, porque sabemos que en Cuba, los minutos y los días duran más que en otras latitudes. Aquella vía férrea, entre montañas y palmas, era agreste, de pueblitos secos y desgastados, como casi todo lo que ha quedado en ese país que hoy, diez años después apenas recuerdo, o quizá más realista, apenas olvido.

Habíamos llevado, por tus caprichos de llevar todo preparado, comida suficiente y hasta agua congelada, café.  Hoy, tanto de ti se repite, que debes ser tu quien prepara la mochila, cuando voy a viajar con tu nieto. Debimos haber hecho tantos planes: cuál casa de cuál tío primero visitaríamos, dónde dormiríamos las primeras noches, subiríamos a Farallones, nos bañaríamos en el rio, cuántos bichos matarían en las fiestas por nuestra bienvenida?

Atravesábamos el país en tren – nada conseguiría ser más nostálgico. Nosotros a través de las ventanas, atravesábamos nuestras memorias, reflejadas en los vidrios sucios de tierra marrón. De mirada en mirada, aquellos silencios metálicos, nos atravesábamos uno al otro. Yo, demasiado joven, sin saber lo que era el tiempo, menos el presente, quizá pensaba en mis mejores futuros, que de tan imposibles,  no serían como este ahora, tan distantes, tanto tiempo uno sin el otro. Yo sin ti. Tú, apuesto mis lágrimas, sin mí.

Y si es que, en ausencia que se mide el tiempo, tú bien sabes lo que siento, que también habías salido de tu tierra, lejos de tu madre y hermanos, lejos de tu padre, para irte a vivir tu sueño de ciudad grande, así como yo, hoy tantos años también vivo mi sueño.

Nadie, dicen, sabe lo que tiene hasta que lo pierde. Pero yo por distinto, sin haberte perdido, ya sé lo que de ti tengo, o peor, lo que de ti no tengo.

De aquel viaje por la isla-a-la-deriva, atravesando en tren la vida y las memorias, tuyas y mías, guardé quizá mi mejor recuerdo en mi segundo libro, y como todo buen secreto, tal vez nunca te comenté de eso: en Villa Clara, quizá en Camagüey, pero lo más probable es que haya sido por Las Tunas, mientras cruzábamos un caserío casi baldío, una niña observaba el trayecto férreo de nuestro existir, yo la vi y apenas me inventé su pequeña soledad. Le escribí… hoy ese cuento es para ti, mamá!

LEA:::  el cuento (des)conocidos

Natureza Sangue (sete cenas de um mundo animal)

casa de libélula

de pequeno, no rio, eu pinçava instantes com as mãos, entre as pedras redondas do tempo,  e numa daquelas  descansava seus sonhos de voar uma libélula, eu escolhi a casa dela, o casulo foi-se correnteza abaixo, até o mar… voou!

 

cauda viva 

tratei de pegar viva a lagartixa, fria e verde, ela queria viver toda sua vida, deixo-me a cauda, saltimbanco entre meus olhos, tive medo de uma vingança repentina.

dela corri.

 

olho de gavião 

no pátio a céu aberto, a quietude de uma montanha senhoreia, os animalecos pastam restos, frutas e minhocas.

no céu aberto, o gavião antecipa sua comida.

um disparo de escopeta. outro. vários. meu tio grita: “essas galinhas são minhas, joéputa”

 

minhas mortes matadas 

já degolei galinhas e um ganso. vi a morte de mais de cem porcos, carneiros, bodes e peixes dançando em redes.

eu sou criança viva. sobrevivente!

 

dragón de fuego 

ela tinha um cachorrinho e um dragão de fogo entre as pernas. eu era vitimário de aquele bicho faminto.

O cachorrinho tinha sede e não medo daquele fuego. Veio ser feliz entre nossas pernas.

beijo-língua …. fogo dentre.

ela, eu e o cachorrinho.

 

brilho de uma cena kafkiana 

dóis cachorros deitados. la noche. 

babam-se com sede – ou será fomes?

perto: menos de um metro, uma chuleta descansa! (what?)

Um dos cachorrinhos (me vê)

sagaz, pega para ele, a chuleta. .. la boca. 

(eu o vejo)

 

delivery 

salvei uma esperança (Tettigoniidae) de um morte vidrada. com os meus anseios a levei a voar ao vento funesto. ela tentou se salvar, retornando à gaiola de vidro.  o pássaro foi mais ligeiro.

assim morreram minhas últimas assas.

 

 

 

 

(Três) Ingênuas roubadas

O que me roubaram não foram às memórias, e sim o momento sadio feito peçonha e raiva; com a deixa, uma sensação de vazio e de injusta exposição, um furo, sempre um abuso…

Eu tinha 6 anos, e cursava a primeira serie de uma escuela – Pre-Eide Alfredo Sosa – que tinha como intuito incentivar os esportes nas crianças e descobrir habilidades esportivas. Minha mãe tinha me colocado lá, indicado pelos médicos por causa da minha asma crônica. Na falta de aptidão para saltos ornamentais, única modalidade aquática que ainda restavam vagas, eu terminei matriculando no fútbol.

Nosso time treinava nos fundos do campo de baseball, que era ao contrário do que no Brasil, o esporte mais popular, reservando ao futebol o raríssimo posto de esporte alternativo, contracorrente até. No meu caso tudo a ver.

Num dia de treino comum, eu fui pegar algo na minha mochila, e um cara se aproximou em bicicleta, do outro lado da grade, que dava a uma avenida. Ele me chamou, e depois de algumas palavras, elogiou a mochila de um colega, e pediu para eu mostrar para ele. Lembro de ter jogado a mochila por cima da cerca de peerless, com a força de tamanha ingenuidade que até consegui que voasse certeira até ele. Ele pegou a mochila, e de bicicleta, sem olhar para mim, foi-se embora…

Eu havia ganhado uma bicicleta do meu pai. Era uma mountain-bike vermelha vinda do Canadá, para os tempos era certa ostentação, que eu cuidava muito, mas porque era muito confortável. Durou-me pouco…

Uma manhã, conversava eu com uma amiga, que havia encontrado bem na frente da minha casa, e aparece um obrero que vem saindo da casa de uma vizinha,e oferece uma ajuda de custo se eu ajudar ele trazer um vaso sanitário para instalar, “ali na Aida, estou fazendo uma reforma para ela…” e convida à amiga, para acompanhar o rolé, e “… com sua bicicleta a gente consegue trazer num carrinho, puxando, fica mais fácil.”

Então, eu no flerte com a amiga, meus adolescentes anos, aceito o bico, e descemos a ladeira de casa: o carinha andando na frente, a menina, a bicicleta e eu, detrás, na nossa.

Caminhamos vários quarteirões, zigzagueando  ruas avulsas, até que o homem avisa que chegaríamos nos próximos vinte metros, “tá vendo aquele carro?” e se aproxima, pede a bicicleta “ … deixa eu aproveitar essa descidinha, posso testar a bicicleta?” e minha ingenuidade solta da mão o guidão, abraça a menina, e vejo mi bicicleta roja ir-se embora, e eu ainda perplexo, duvidando, espero definitivamente ver o cara desaparecer na próxima esquina…

No aeroporto antes de embarcar, a última vez que estive em Cuba, com as malas entregues, os carimbos no meu passaporte, me informaram, que mi hijo por razão de dois dias estava ilegal em nuestro país e que eu devia pagar um novo visto de turismo, para ele poder deixar a ilha.

Sem alternativas, fui fazer os novos pagamentos, e na fileira para trocar dólares pela moeda conversível cubana, um estrangeiro, de sotaque europeu, jovem, simpático, me diz que não tinha como tirar dinheiro com seu cartão de crédito, confirma que ele embarcaria no mesmo vôo que eu, mostrando a na tabela de embarques, e que “…em Cidade de Panamá, assim que desembarcássemos ele me devolveria a grana”.

Minha ingenuidade segurava a mão de Benjamín, e a outra liberava as notas que pagavam mais um descuido. Atravessamos os controles de alfândega, e chegando na sala antes do embarque vejo o menino, sentado, calmamente mexendo no seu notebook, escuto a chamada do vôo, e eu apenas me preocupo pelo meu filho e nossa já difícil despedida daquele país.

Entramos no avião, e ainda esperançoso, aguardo com o olhar, todo mundo se sentar. Ainda, percebo à espera, por um erro, de não ter visto o ladra tomar assento, e mais duas horas sobre o Caribe, até chegar no Panamá…

Lá no aeroporto conexão com o Brasil, vejo partir aviões em direção da América toda, infinita… o cara não apareceu.

Olhe ao Céu

“Olhe ao céu enegrecido, a ausência de lua, o mar escuro estrelado. Lá distante, brilha um astro sobrevoando entre as tantas um caminho certeiro através do universo”. Essas poderiam ser as palavras do meu pai, na poética da memória, vinte anos depois daqueles dias em La Habana.

Depois que o muro de Berlim caiu e a União Soviética desapareceu dos mapas e de nossas despesas, os cubanos conhecemos uma das piores crises econômicas de nossa historia: falta total de comida, transporte público praticamente nulo, crises nas relações pessoais, empregos em falta, prostituição renascente, e longos períodos sem eletricidade.

Apagões de mais de doze horas alternavam com o mesmo período com luz elétrica. Cidades, povoados, regiões inteiras eram acessos ou desligados. Em La Habana, uma grade semanal dividia municípios entre os “encendidos” ou “apagados”. De noite, a escuridão tomava conta das ruas e esquinas, dos céus e dos sonhos.

“Olhe pro céu. O escuro da noite sem lua. O véu enfeitado de pequeníssimos pontos brilhantes. Olhe fixo, alguma coisa acontece, e se mexe. É uma estrela? Um planeta cintilante?” Éramos meu pai e eu, sentados na calçada olhando pras únicas luzes que nos restavam. Sorriamos daquela felicidade simplificada, ínfima como o brilho que o céu nos regalava.

As noites eram esticadas com as conversas dos vizinhos que puxavam cadeiras, sofás e travesseiros para a calçada. Fugiam do calor insuportável de dentro de casa. As crianças corriam na rua, jogando de esconde-esconde, ou simplesmente sentavam a ouvir as histórias dos adultos: histórias do mesmo que se contavam cada dois dias, alternando entre “apagados” o “encendidos”.

“Olhemos o céu. Aquilo que brilha e se mexe não é um astro. Uma estrela cadente? Um sol errante procurando galáxias sem luz? Um planeta viageiro a procura de nos? ” Assim, a cada dois noites, meu pai e eu anotávamos – na memória – a cada novo satélite que descobríamos  no céu habanero – você já viu satélites? aqueles pontinhos de luz que se mexem entre as estrelas?

Ali, a cada nova descoberta de um desses artefatos luminosos, a nuestra euforia iluminava aquele breu do bairro, entre gritos e sorrisos, entre nossos abraços – as vezes minha irmã – assim como é a mesma cumplicidade daquela amizade que até hoje, diante do escuro estrelado, nos acompanha sob o único céu que nos abraça.

Despedidas da viagem*

“Negro, estou indo embora…” a despedida era eminentemente em breve, lhe disse a Meple ainda num abril há quase dez anos, casi diez años. Despedidas naquela ilha-à-deriva eram infinitas ou definitivas: eu não sabia, como poderia eu saber?

Nos demos o primeiro dos longos abraços: um aperto demorado de silêncios, tus cabelos despencando entre nossos peitos, a respiração continua e perdurável de nossos hálitos, os olhos fechados adentrando nos corpos de um, e do outro. Era, seria uma espécie de último e pôstrer abraço.

O tempo havia se detido caprichoso desde então, no primeiro daqueles últimos abraços nossos. Era uma esquina qualquer de La Habana, que hoje não mais lembro, naquela ilha que jamais voltou ser nuestra.

Daquele instante em diante, até que definitivamente minha partida-vinda ao Brasil se concretizou, passaram-se cinco meses “… estamos nos despedindo, Negro” (a memória recria suas próprias palavras, salvo-condutos de auto-afirmação e sobrevivência); e durante aqueles instantes o tempo se encolheu entre as mãos daquele agarre, entre dedos e unhas, o suor de nossa caribenha continuidade, tus dreadlocks y los mios aún sin hacerse, futuros, eram nossos olhos pretos, tão perto.

Ninguém compreenderia nossa despedida solitária, intuída, de finais exorbitantes e misteriosos, sem antes saber da nossa amizade de asas voadoras e de ensonhos. Nadie, talvez, ni siquiera nosotros.

Nos cinco meses posteriores ao momento do primeiro-último abraço a promessa seria cumprida a riste: o encontro é no presente: começa nos olhos, termina no fim do abraço, e será único sem aguardar o próximo abraço porque não há amanhãs na terra dos homens, nesta terra nossa, sua e minha.

Assim fora o antes que seria: vimos-nos sempre como se aquele instante fosse o último de nossas vidas.

E Meple… cumprimos com honra: hoje é sempre ainda: todavías.

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Renaces 

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    Renazco 

    *o título foi dado por você, Benjamín.