manifestos de ser

o que estamos vivendo não conhece manifestos

não pertence aos manuais

nem sequer algoritmos

nenhum efeito paranormal conhecido

desconsiderem-se os mapas

bitácoras

bússolas despercibidas

qualquer objeto material concebido

desconhece acordos

beiradas

abismos

trilhas, senderos, veredas

fronteiras limítrofes

esferas hexagonais

intrínsecos e opostos

borderlines antropófagos

uma linha de luz

que se apaga no opaco silêncio

da vontade interior

de ser…

 

 

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ar de diáspora humana

faz quase uma semana não sei de minha familia em cuba. lá estão sem “tempo” de internet. porém a distância há criado uma forma de comunicação diferente, que é o de confiar e de desejar bem sem a pressão da nostalgia. porque cada um escolhe estar onde está. nos amamos e sabemos de nosso amor pelos nossa familia, ora distante. esse amor as vezes machuca pois a distância se perpetua. temos crescido nesse ar de diáspora humana. ter imigrado me fez de outra especie. um ser que habita com ausências e solitudes em demasia. haja sol para estas sombras longincuas. haja vida para esta temporada de hastios. #sobrevivente!

marcos

o fim de ano é um marco. marca de um tempo que veio e passou. do que poderia ter sido e não foi. do que era só desejo e do que aconteceu.

o tempo é um marco. marca o que está sendo e o que não existe mais. o que era para ter-se feito mas que com tempo não sucederá. marca o novo, o velho. vá frente ou dá para trás.

a vida é um marco. marca estar e o além. é de coisas que se vivem e das que deixaremos de viver. é de vida ou morte. de ser ou morrer.

a morte é um marco. marca o saber e o desconhecido. distam as palavras que vibram de um silêncio final infinito.  é tudo ou nada.

as pessoas são um marco, vários aliás. marcam a pele contra a pele. os lábios no encontro de um beijo. arranham, cogitam e mentem. as pessoas morrem, e isso é um ainda bem.

o bem é um marco. marca o juízo dos seus afins e contragostos. seu olhar sobre a luz e a sombra. o bem demarca os daqui e os de lá.

o eu é um marco. marca o que é seu e o que é de nós. divide a responsa, a fome e o insistir. aliás eu somos todos nós.

seja

raras companhias de um bípede com as mãos sobre o destino

Do sol é a luz,

a sombra é própria de um muro ou da árvore

destas mãos sobre o destino.

 

da água é o úmido

se molhar é afeição do que se mutila

daquilo que se amedronta na esperança.

 

a pedra é densa ( sutilmente parada)

se sentar é um acaso do caminho

do longínquo desafio de ser bípede.

 

a noite é clara

olhos despertos nunca viram a cor mais pura

preto é a essência da morte.

 

a palavra é inócua

verdadeiras intenções apenas se calam

num abraço de silêncio destemido.

 

o fim tem começo

inerente de escolhas e contextos

acontece com o tempo do bípede silente sentado à rocha do destino.

 

poesia não existe

a gente chora com palavras de outros cernes

com afã de se tornar desconhecido.

 

 

e você é tenra,

nada que em mim contraria

sua fé é de estima

e o sol

a água

a rocha

a noite,

a morte silente,

as palavras

minhas raras companhias.

no embaço do espelho

 

um espelho embaçado

orvalho da presença

muito próxima de sim mesmo

da boca, o hálito

do vidro, o reflexo

do sorriso, uma náusea

daquela outra imagem de si

(outro impróprio)

que se aplasta

e se disfarça alheio

semeando o sedimento

da maneiragem

do singelo

eu

que

doe-se

na pele contra pele

um raio desconforto dos olhos frente aos olhos

de sim

do singelo

eu

 

escrevesse com palavras de gestos

nada acontece no vácuo da vida

ela é mansa,

arredondada nas quinas e fundos

dissimula em fantásticas alucinações

o que seria

se fosse

talvez e impossíveis

ora chove, ora inunda

ora seca, depois floresce

e nos rejuntes do plural cotidiano

vai se tecendo o caminho

os encontros

este agora de ser

este ser

entre tantas e outras maneiras

então faço o risco…

o meu braço esticado à procura do vento

uma perna sustenta o altar de este corpo

uma mão dentre a outra

um sorriso que engulo no úmido da língua

meu reflexo na sombra contra uma parede

sou pouca coisa

apenas um corpo que emergiu deste caos

moléculas que combinaram na alquimia  do humano

esse bicho resiste no silêncio sutil da minha noite

no sonho da alta montanha sem lua

no grito da morte no talo do osso

as garras funestas da sobrevida

que brotam dos dedos da bestia encardida

ou a saliva do sangue nos olhos

o afã de desgarre

desejo da vida após esta vida…

por este, desando as palavras

desgaste banal do que faço (e admiro)

e repito os meus gestos de sombra

as mãos dentre as mãos

sorriso na ponta da língua

meus olhos nos olhos

e mais um fim…

(silêncio)

 

 

yo nací dos veces

hoy cumplo diez años. es mi segundo cumpleaños en menos de una semana. sí, yo nací dos veces.

la última vez que nací, me bajé de un avión y caminé acuñando papeles y sonrisas. la noche estaba fría y soñaban pocas estrellas. me bajé como quien bajaba de las nubes, un semi-dios perverso y juguetón que su deseo mayor era el de vérselas con los humanos.

cuando se nace dos veces, se aprende todo dos veces: a caminar, dos veces. a hablar, nuevamente. a leer y escribir, de nuevo, varias veces. a entenderse, infinitamente. hacer amigos, vivir amores, sufrir despedidas.

cuando se nace de nuevo, hay cosas que pertenecen solo a la vida anterior: extrañar, por ejemplo, el hecho de haber sido otra persona en otra vida no muy distante. se extrañan personas, voces de otras épocas, besos de otros labios, historias de otras esquinas, mares de otras orillas.

vivir, dijo Riobaldo, es muy peligroso… y cuando se nace dos veces, la vida es mucho más peligrosa porque uno vive con dos seres que batallan todo el tiempo, entre el estar y la memoria.

cuando se nace de nuevo, ni todo es nuevo, ni todo es conocido. así se aprende a matar al primer individuo, por razón de sobrevivir a este nuevo que colinda, que exige cuidados e cariños. así se pide, borrar recuerdos, imagenes de otrora vida antecesora. es interesante, ser sagaz y no exigirle al nuevo ser, carismas e poderes del primero.

y así aprendí estos últimos diez años mi más nueva experiencia del eu, un yo solitario y distraído, sin afanes posteriores que esta respiración que me sustenta, y poco menos que estas palabras que me invento.

meu livro aberto

Me dei este presente, um agora de páginas brancas, tardias, memoriosas. Uma caverna de idéias surgidas, agarradas com afã, com desdém ou ao acaso. Um arquivo de insígnias desenhadas com detalhes de vozes e cheiros irrecuperáveis no depois, no futuro. Um caderno suspenso, sempre aberto à riscos e lembranças.

Eram pessoas. Flagrantes instantes do ser e do estar com os outros. Eu e vocês: NósOutros.

Lugares distantes, recônditos, distintos. Um mapa rabiscado em paisagens, passagens, paragens. Todos em um sendo, no exato momento da sombra do corpo, este meu corpo insatisfeito, imperfeito e torto, de sóis imensos e luas funestas.

Palabras inscritas por dentro da pele, sob a língua, no furo dos olhos, colado à respiração ventricular do palpitante, ou nas sinapses do sutil, do ingênuo e perpetuo, da loucura, a fome, a insônia, o silêncio.

Dei-me este presente, esta janela na parede do tempo…

eu do seu agora

(as vírgulas é a respiração da minha escritura, apenas respire nos seus versos)

na massa amorfa curvas sinuosas demarcam territórios, derradeiros senderos do ser que se manifestam no arbítrio do nós, somos mais a casca de um caroço, delicioso e de raro sentir que ajoelhado, na espera de um grito feroz do existir pelo sol d´estes olhos, neste instante ou de um tempo sem fim, na mordaça do ego, avistamos a seqüência, a experiência plausível, infinita do estar, reagir, brisa quente, fato feitos, sombria a angustia de uma escolha ou o silêncio da dúvida, um muro entre a mão e o fazer, entre os pés e este ir, o convexo, o alheio ou o amparo, sombra inócua da sinceridade, um sorriso, um suspiro, um bocejo ou o gozo sem medo diante do amar, você estica a silhueta, confiante ou entregue, diante da berlinda parede, uma massa amorfa que se manifesta sem eco, sem sombra, sem gestos, toda ciência é um pertencimento, um abraço, um afeto ou um apego, dentre estes versos que escrevemos no fazer que sonhamos, na dança silente de um com os outros, elas sempre, ou a vida certeira de estar vivos, nós e outros, nossas almas, puxamos a corda, a raiz do sem forma, do indigesto, da falsa moral da verdade, ou a vertigem do mandato altruísta, da opressão deste verme, quase humano, imparcial, produtor de afazeres e destempos, esse algoz do fortuito e dos sonhos, estopim do fantástico, sedutor, insistente, e rente e salvos, um respiro do ameno, despido das mágoas, águas do ventre que fluidas desembocam nos fluxos da terra, suas serpentes veredas, umectantes, sofridas, da vencida massa ora amorfa ora destituída, convertida no afã da sua força ou a potência da voz da sua palavra, emergida, destoante, de costas ao grávido púlpito, sem demarques,,nem curvos nem tortos apenas o eu do seu agora, ou este verso…

olhe as árvores

eu vi a sombra elástica de uma árvore presa ao chão deste mundo, eu plantava meus olhos no fim daqueles galhos bem altos de céu, pendurei-me às memorias de todas minhas árvores, sombras e galhos do que uma vez havia sido, mas por outras razões, esquecido, eu era aquele no pulo, eu arremesado pelas minhas raízes, era o fruto podre na boca de um pássaro que por comer não trinava, eu o tronco rasgado no vento, vindo livre em queda sobre o teto de um futuro imperfeito, porém florido de verdes folhas, eu era a casa do meu gnomo, pequeno andarilho de manhãs e formigueiros, eu me escalava, atónito da altura da minha envergadura, antes fosse a morte, um novo galho que sobrevivira e com a aguda esperança de receber um novo fruto!