eu do seu agora

(as vírgulas é a respiração da minha escritura, apenas respire nos seus versos)

na massa amorfa curvas sinuosas demarcam territórios, derradeiros senderos do ser que se manifestam no arbítrio do nós, somos mais a casca de um caroço, delicioso e de raro sentir que ajoelhado, na espera de um grito feroz do existir pelo sol d´estes olhos, neste instante ou de um tempo sem fim, na mordaça do ego, avistamos a seqüência, a experiência plausível, infinita do estar, reagir, brisa quente, fato feitos, sombria a angustia de uma escolha ou o silêncio da dúvida, um muro entre a mão e o fazer, entre os pés e este ir, o convexo, o alheio ou o amparo, sombra inócua da sinceridade, um sorriso, um suspiro, um bocejo ou o gozo sem medo diante do amar, você estica a silhueta, confiante ou entregue, diante da berlinda parede, uma massa amorfa que se manifesta sem eco, sem sombra, sem gestos, toda ciência é um pertencimento, um abraço, um afeto ou um apego, dentre estes versos que escrevemos no fazer que sonhamos, na dança silente de um com os outros, elas sempre, ou a vida certeira de estar vivos, nós e outros, nossas almas, puxamos a corda, a raiz do sem forma, do indigesto, da falsa moral da verdade, ou a vertigem do mandato altruísta, da opressão deste verme, quase humano, imparcial, produtor de afazeres e destempos, esse algoz do fortuito e dos sonhos, estopim do fantástico, sedutor, insistente, e rente e salvos, um respiro do ameno, despido das mágoas, águas do ventre que fluidas desembocam nos fluxos da terra, suas serpentes veredas, umectantes, sofridas, da vencida massa ora amorfa ora destituída, convertida no afã da sua força ou a potência da voz da sua palavra, emergida, destoante, de costas ao grávido púlpito, sem demarques,,nem curvos nem tortos apenas o eu do seu agora, ou este verso…

olhe as árvores

eu vi a sombra elástica de uma árvore presa ao chão deste mundo, eu plantava meus olhos no fim daqueles galhos bem altos de céu, pendurei-me às memorias de todas minhas árvores, sombras e galhos do que uma vez havia sido, mas por outras razões, esquecido, eu era aquele no pulo, eu arremesado pelas minhas raízes, era o fruto podre na boca de um pássaro que por comer não trinava, eu o tronco rasgado no vento, vindo livre em queda sobre o teto de um futuro imperfeito, porém florido de verdes folhas, eu era a casa do meu gnomo, pequeno andarilho de manhãs e formigueiros, eu me escalava, atónito da altura da minha envergadura, antes fosse a morte, um novo galho que sobrevivira e com a aguda esperança de receber um novo fruto!

rascunhos à beira-mar

à espera da entrada da gruta

só o caminho do tempo

executa

 

 

todo destino me parece parcial

ou fardado

iludido.

 

 

no olho no fim da serpente

o escuro do sempre

vida rente

 

 

o som de quantas lágrimas de chuva

fazem sinfonia

num mar em calma?

 

 

sob o teto do mundo exerciam sua humanidade

um homem e uma mulher

na aventura do amor humano

numa praia deserta

solitários

 

 

o amar veste formas do materno

rainha o carinho

o incesto

alimenta o ego do eterno

é selvageria

antropofagia sensorial

é água no sol

(o sal no mel)

 

 

(Pequena serenata diurna)[para falar da dor exaustiva da] Solidão Interior

A cada instante algum sorriso me devolve o sol do meu olhar: um brilho meu do qual  desconfio a cada instante, de mim.

Em nós persiste a vontade comum de estarmos no lugar exato de existir; e nele, por todas sermos feliz, incluso quando não é possível, quando não queremos, quando não conseguimos.

Assim se vão dias inteiros de alguma breve satisfação, de alguma efêmera realização, de algum ínfimo amor fora de nós.

Estamos felizes?

Assim que emana o escuro da retina interior, o soluço do silêncio, a paz infinita da morte ou a imensa gratidão do amor próprio de si surge o vazio de vida que vivemos por pretender, por agradar, por euforias, por sutis belezas, por palavras de agrado.

Eu escuto um silêncio nas vozes: é o grito da dor da solidão, que apenas dilui-se no abraço de um sonho inédito, no olhar próprio no espelho (prenda a respiração, conte em silêncio hasta cem, se conseguir chegue até os mil), na morte que espero, sem saber, sem querer, sem temer.

Eu tenho saudades de morrer… dentre de mim.

Natureza Sangue (sete cenas de um mundo animal)

casa de libélula

de pequeno, no rio, eu pinçava instantes com as mãos, entre as pedras redondas do tempo,  e numa daquelas  descansava seus sonhos de voar uma libélula, eu escolhi a casa dela, o casulo foi-se correnteza abaixo, até o mar… voou!

 

cauda viva 

tratei de pegar viva a lagartixa, fria e verde, ela queria viver toda sua vida, deixo-me a cauda, saltimbanco entre meus olhos, tive medo de uma vingança repentina.

dela corri.

 

olho de gavião 

no pátio a céu aberto, a quietude de uma montanha senhoreia, os animalecos pastam restos, frutas e minhocas.

no céu aberto, o gavião antecipa sua comida.

um disparo de escopeta. outro. vários. meu tio grita: “essas galinhas são minhas, joéputa”

 

minhas mortes matadas 

já degolei galinhas e um ganso. vi a morte de mais de cem porcos, carneiros, bodes e peixes dançando em redes.

eu sou criança viva. sobrevivente!

 

dragón de fuego 

ela tinha um cachorrinho e um dragão de fogo entre as pernas. eu era vitimário de aquele bicho faminto.

O cachorrinho tinha sede e não medo daquele fuego. Veio ser feliz entre nossas pernas.

beijo-língua …. fogo dentre.

ela, eu e o cachorrinho.

 

brilho de uma cena kafkiana 

dóis cachorros deitados. la noche. 

babam-se com sede – ou será fomes?

perto: menos de um metro, uma chuleta descansa! (what?)

Um dos cachorrinhos (me vê)

sagaz, pega para ele, a chuleta. .. la boca. 

(eu o vejo)

 

delivery 

salvei uma esperança (Tettigoniidae) de um morte vidrada. com os meus anseios a levei a voar ao vento funesto. ela tentou se salvar, retornando à gaiola de vidro.  o pássaro foi mais ligeiro.

assim morreram minhas últimas assas.

 

 

 

 

cenas para um roteiro em branco

CENA 1 _ EXT / DIA / PRAIA
na onda verdeazulada, o vento modula as formas do mar e dos corpos, ela surge sorrindo, o sol se encanta com o brilho, que se opaca traz uma nuvem de adeus e destino.

CENA 2 _EXT / RUA VAZIA – NOITE

um gato transita sem sombra. ninguém percebe o movimento da noite. somente a mariposa que apaga suas cores de luz neste beijo.

.                                        DESCONHECIDO (voz em off)

.                                              Você tem fogo?

CENA 3 _ INT / BANHEIRO / DIA

não há agua, nem luz, nem pessoas. somente um silêncio transita os azulejos e as torneiras, restos de umidade escorregam os vidros, semen no tapete, sorrisos no espelho.

.                            OUTRO DESCONHECIDO (fuera da cena)

.                                         Tem alguém no banheiro?.

 

ode final para um amor

o amor passional é uma ilusão. o oásis espelhismo do nosso deserto interior. a febre dos olhos. o falso serviço do ser na resistência à solidão.

um pulo confiante de si diante do nada provável de alguém. na fome insaciável da alma a busca pelo alimento final, satisfação divina do eu.

a conjura em promessas do eterno, a sutil esperança de um abraço fugaz que nos salve do morrer. o feliz do encontro, numa certa infalível verdade.

o amor é a mais cruel das mentiras que ansiamos viver, pois o deserto é agreste demais, solitário demais, sem águas demais; e a solidão tem tão poucas palavras, tão poucas ressalvas, tamanha imensidão.

e o salto no abismo é de um oco infindável, sem beiras nem estradas para percorrer, nem a alma – tem calma – sossega ao chegar no silêncio do eu.

e o eterno é tão somente tão pouco, tão vácuo e distante que o fim se finge de cálido amigo, amor ilusório, única maneira de sobreviver, e ainda sorrir.

Solilóquio escrito no trem, entre a Luz e Guainazes rumo a Mogi das Cruzes

a arte de escrever é traduzir sensações em palavras,
sempre antes de que estas,
percam a esperança!

 

As palavras não tem mais fluidez que o reflexo; no vidro obtuso, procuro respostas que é, bem provável, não HÁ! As vezes enquanto aparece a questão, aparece uma parede de tijolos se colora, uma vida afundada sob os trilhos, uma rua aquietada, avenidas sem faróis nem pessoas; já viu crianças um dia comum corriqueiro? não né! os adultos as encerram para não lembrarmos de uma vez fomos crianças; FULMINOU o sol esse pensamento, um prédio novo, dois, vários edifícios de uma cidade que não acaba; nos meus opostos: um senhor de óculos lê um livro e um homem de fone fixa seu além num android; logo um muro interminável de grafias de um silêncio que é – e será – infinito: para que essa assinatura citadina, inteligível, inacabada? é a mania de existir que nos acaba, de brindar em vão nossas palavras: blasfemo, não me oculto; o dEUs que me cabe é vadio e me come dia e noite e madrugadas; silhuetes no viaduto, atravessamos à contra-luz aquelas sombras, um circo de lona desligado, de manhãs os palhaços folgam, pois quem de olhos vê o amanhecer não deve ser são as tardes que adormece – há uma pausa/pensar, a saliva acalma, tenho fome, esse corpo meu no fundo é meu inimigo; qual o sinal dessas nuvens que aconchegam o brilho natural dos acordes matinais, uma praça, tantos chorões pingando folhas e sonhos: a semente: uma nova paixão que me extravasa; acho que não há nada mais belo que ver sorrir por amar – aliás amor é fazer sorrir, nada mais -; suprema equação: este instantes de olhos transbordando, mente inquieta, queria atravessar-lhe suas pernas molhadas; toda insegurança é como o trem do retorno, do outro lado, vem da  volta o terror da sinceridade; queria mentir, ser melhor nos desacertos e nas ambições, me conformo: pecado sem religiões; o tempo despenca, eu lhe aceito, aceite-me também: azeite-me….

Espelho de giz na calçada

Fui de uma calçada à outra da Avenida Paulista, subitamente. Olhando de perto, o que do outro lado parecia distante; e agora no longe o que me parecia tão meu. Troquei somente de calçada sem nenhum motivo qualquer. Aliás, aqui entre-nos, faço isso sem pensar, nem predeterminar muitas vezes quando estou nos fluxos pela cidade.

Isso além de ser somente uma escolha fútil, na maioria das vezes não dá em nada especial, apenas o fato de eu mudar de calçada.

Hoje, porém, a calçada estava tomada por fileiras de palavras escritas com gesso. Estas avançavam vindo do asfalto em direção do muro, bem na frente da última casa antiga da avenida, ali na altura do 1909.

De chinelos, de joelhos, de toca até as orelhas, aparentemente bem agasalhado, com a pedra de cal na mão: um homem escrevia. Não me interessei pelo homem: apenas naquelas palavras dele.

Parei para ler desde a primeira linha, e para ler, era necessário ir se deslocando no compasso dos rascunhos brancos, à direita – isso poderia parecer óbvio – por ao menos cinco metros e em algumas frases, um pouco mais.

Eram passagens da vida dele, através do seu filtro filosófico, algumas cenas de violência, sua intuição literária, a experiência lingüística dos seus traços, unido à força da suas mãos, a tristeza eminente de seu passado, as mágoas e os perdões, palavras de ordem e amor, de desapego e altruísmo, de magia e conjuras de outrem, vários desejos devaneios fugazes percursos de o seu acontecer e existir.

O homem permanecia em si, escrevendo, e não se importava comigo, apenas com as palavras dele. Os transeuntes evitavam caminhar sobre os escritos, e menos, não se importavam com nos: um homem escrevia, outro que lia no compasso das letras de gesso.

Eu me vi no espelho de giz no asfalto: as escolhas determinantes, os acasos ocasos do horizonte, minha própria outra calçada, escura e cintilante, com minha pedra de gesso, as minhas palavras dos gestos, eu escrevia de joelhos, outro homem em pé quem me lia.

Chorei paz no silêncio da cidade, dentro do meu abraço e meus pensamentos.

No fim do texto, o homem não estava mais lá. Seu nome assinava o manifesto na calçada, espécie de tag do efêmero sob pisadas e futuras garoas. O enxerguei lá, do outro lado, onde começava o texto – sorte de metáfora da outra calçada – e desta vez por impulso do etéreo, por sede do encontro, e agradecido pelo momento fui até lá.

Apresentamo-nos, de voz e de mãos. Perguntei se ele aceitaria um casaco de lã – algum presente de há anos –, já abrindo a primeira jaqueta que eu levava por cima. Ele a aceitou, e aceitou um caderno de notas novo, e uma caneta preta – havia outra vermelha.

“O caderno eu estava muito precisando” agradeceu e o hálito esfumaçou a voz. Eu lhe agradeci pelas palavras de gesso, uma outra calçada na avenida de mim, e me despedi.

Copiei seu pseudônimo de artes no fim das palavras, outra vez do outro lado deste começo: SANTOLIVE ZIRANCHINHO.

Sobreviventes!

 

Amar: entre sentir e o ego de ser

É sempre bom saber quem somos. Quem sou eu. Quem somos: eu.

 

Amamos-nos – ainda que nos pareça egoísta – primeiro a nos mesmos. O amar nos conecta com o afeto (e efeito) do amor que vem dos outros. Isto é, cada amor nos presenteia com um novo amor de si (nos) próprio(s).

Amar é sempre aquele oceano. Entregue dos pés aos fios do cabelo, inteiro. O corpo naquela sensação de voo cego. Sempre que amamos os olhos brilham no incandescente do escuro. Raios de luz iluminam cada breu numa sorte de sorriso interior que permeia e inunda cada traço e gesto de nos. Quando amamos, cintilamos nas andanças, recriando uma harmonia a todo que nos rodeia.

Então, não é do acaso que no meio de estar amando alguém – e nos mesmos – ; outras pessoas ou recentes paixões se encandeiem com o brio do amor que nos acontece. É o cheiro intenso da flor da sedução espalhando aquele odor irresistível do amar; e logo, o inevitável efeito de sentir um novo amor, em si, na forma de um novo ser.

Aquela sensação que muitos temos: “só basta eu começar namorar, que aparece todo mundo querendo me pegar”.  Coisas de tabela periódica de Química.

Do amor sempre é assim: enquanto mais amais, mais se sente vontade de amar. A flor da sedução exala cada vez mais irresistível o cheiro do amor. Então é sempre inevitável o efeito de sentir a chegada de um novo amor, em nos, na forma de um novo ser: aqueles oceanos. Amando os amores que vivemos, descobrimos cada vez, uma forma diferente do “eu” de ser.

Sempre que amamos, se ama demais. Não é possível medir até onde vai o amor, assim sentimos o amor chegar, em formas de seres distintos dispostos na vontade de amar, e na seqüência da entrega, a paixão, o tesão e o amar, sentimos também todas as inseguranças, temores, e dores que carrega um verdadeiro amor.

O abraço longo do amor, segura a pele e restringe o corpo. A mente mede o medo, resiste-se a dor da possível perda ou compartilhamento do amor. A flor murcha tentando impedir o exala do amor, e incluso o mais provável, até o total extinguir desse amor, na tentativa infeliz de não compartir ou da não perda do amor.

Nessa balança entre o sentir – nativo do ser do interior – e o ego de ser – a constituição social do ser – , trava-se uma batalha final pelo amor de si, de nos; e finalmente quem sempre perde é o amor. O corpo escolhe pela sensação de mais conforto ao amar. Pelo cheiro leve na brisa de nos. Ou até mesmo, pela mais sombria das escolhas: não amar.

Então, definitivamente o amar na sua forma binária e seletiva, contrasta com o amor que exala a flor do amar, que não escolhe até onde vai o cheiro daquela emoção. Escolher a quem amar, é escolher quem de nos queremos ser: aquele eu – nos – que se resume aquele amor e aquele amar.