apanhando lembranças

… tenho apanhado lembranças com intuito de escrever. miúdos instantes de um gesto, a mão quente me abraçando, por trás. o convés de um piscar, que é a chama de um olhar. uma manhã demorada até as seis, antes do entardecer. os passarinhos cinzentos costumam cantar. um compasso dos dias, o agora e o depois, do agora e do depois. os acordos sem limites entre o ser e representar. nada mentia aos fatos. outro beijo sagaz, infinito. desenhando angústias e sonhos, paradigmas sonolentos, nada escrito nas poesias de beira-sarjeta. um silêncio oceânico, insolente. feito uma basta montanha de verdes famintos, diante do qual eu me curvava, engenhoso e entregue, ao devir da sua natureza. ao eclipse entre lagos e sertões. entre mares e desertos. uma força atraente e outra incauta. que emancipavam solenes destinos pro agora e pro depois, o agora e o depois. umas palavras cinzeladas na pele, um mordisco, duas línguas, quatro mãos dilapidando contornos. sugando fluxos ou trasmutando corpos. um suspiro na cor do abismo. tantas ânsias. bocejos com sede. as carnes fritando na relva. impossível desistir do impossível. era uma outra chance, de ser diante do profundo dos céus, dentre do escuro dos olhos, um ser finito, pequenininho, quase nada, sobretudo, contra todo, aos avessos…

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manifestos de ser

o que estamos vivendo não conhece manifestos

não pertence aos manuais

nem sequer algoritmos

nenhum efeito paranormal conhecido

desconsiderem-se os mapas

bitácoras

bússolas despercibidas

qualquer objeto material concebido

desconhece acordos

beiradas

abismos

trilhas, senderos, veredas

fronteiras limítrofes

esferas hexagonais

intrínsecos e opostos

borderlines antropófagos

uma linha de luz

que se apaga no opaco silêncio

da vontade interior

de ser…

 

 

otro carnavales

bifurquése, en frente hay siempre más de un camino; espérese, hay tiempo para otras decisiones; acéptese, los hechos son mayores que nosotros mismos; escúchese, dígase, escríbase, apáguese, olvídese, somos lo que queremos para ser aceptos entre miradas y cuchicheos, o comprése un espejito portátil; canjeése por platas, o por menos, plomos; mueráse, al fin este silencio oscuro es lo que más nos instiga en vida, la cotidiana muerte

ar de diáspora humana

faz quase uma semana não sei de minha familia em cuba. lá estão sem “tempo” de internet. porém a distância há criado uma forma de comunicação diferente, que é o de confiar e de desejar bem sem a pressão da nostalgia. porque cada um escolhe estar onde está. nos amamos e sabemos de nosso amor pelos nossa familia, ora distante. esse amor as vezes machuca pois a distância se perpetua. temos crescido nesse ar de diáspora humana. ter imigrado me fez de outra especie. um ser que habita com ausências e solitudes em demasia. haja sol para estas sombras longincuas. haja vida para esta temporada de hastios. #sobrevivente!

marcos

o fim de ano é um marco. marca de um tempo que veio e passou. do que poderia ter sido e não foi. do que era só desejo e do que aconteceu.

o tempo é um marco. marca o que está sendo e o que não existe mais. o que era para ter-se feito mas que com tempo não sucederá. marca o novo, o velho. vá frente ou dá para trás.

a vida é um marco. marca estar e o além. é de coisas que se vivem e das que deixaremos de viver. é de vida ou morte. de ser ou morrer.

a morte é um marco. marca o saber e o desconhecido. distam as palavras que vibram de um silêncio final infinito.  é tudo ou nada.

as pessoas são um marco, vários aliás. marcam a pele contra a pele. os lábios no encontro de um beijo. arranham, cogitam e mentem. as pessoas morrem, e isso é um ainda bem.

o bem é um marco. marca o juízo dos seus afins e contragostos. seu olhar sobre a luz e a sombra. o bem demarca os daqui e os de lá.

o eu é um marco. marca o que é seu e o que é de nós. divide a responsa, a fome e o insistir. aliás eu somos todos nós.

seja

raras companhias de um bípede com as mãos sobre o destino

Do sol é a luz,

a sombra é própria de um muro ou da árvore

destas mãos sobre o destino.

 

da água é o úmido

se molhar é afeição do que se mutila

daquilo que se amedronta na esperança.

 

a pedra é densa ( sutilmente parada)

se sentar é um acaso do caminho

do longínquo desafio de ser bípede.

 

a noite é clara

olhos despertos nunca viram a cor mais pura

preto é a essência da morte.

 

a palavra é inócua

verdadeiras intenções apenas se calam

num abraço de silêncio destemido.

 

o fim tem começo

inerente de escolhas e contextos

acontece com o tempo do bípede silente sentado à rocha do destino.

 

poesia não existe

a gente chora com palavras de outros cernes

com afã de se tornar desconhecido.

 

 

e você é tenra,

nada que em mim contraria

sua fé é de estima

e o sol

a água

a rocha

a noite,

a morte silente,

as palavras

minhas raras companhias.

no embaço do espelho

 

um espelho embaçado

orvalho da presença

muito próxima de sim mesmo

da boca, o hálito

do vidro, o reflexo

do sorriso, uma náusea

daquela outra imagem de si

(outro impróprio)

que se aplasta

e se disfarça alheio

semeando o sedimento

da maneiragem

do singelo

eu

que

doe-se

na pele contra pele

um raio desconforto dos olhos frente aos olhos

de sim

do singelo

eu

 

escrevesse com palavras de gestos

nada acontece no vácuo da vida

ela é mansa,

arredondada nas quinas e fundos

dissimula em fantásticas alucinações

o que seria

se fosse

talvez e impossíveis

ora chove, ora inunda

ora seca, depois floresce

e nos rejuntes do plural cotidiano

vai se tecendo o caminho

os encontros

este agora de ser

este ser

entre tantas e outras maneiras

então faço o risco…

o meu braço esticado à procura do vento

uma perna sustenta o altar de este corpo

uma mão dentre a outra

um sorriso que engulo no úmido da língua

meu reflexo na sombra contra uma parede

sou pouca coisa

apenas um corpo que emergiu deste caos

moléculas que combinaram na alquimia  do humano

esse bicho resiste no silêncio sutil da minha noite

no sonho da alta montanha sem lua

no grito da morte no talo do osso

as garras funestas da sobrevida

que brotam dos dedos da bestia encardida

ou a saliva do sangue nos olhos

o afã de desgarre

desejo da vida após esta vida…

por este, desando as palavras

desgaste banal do que faço (e admiro)

e repito os meus gestos de sombra

as mãos dentre as mãos

sorriso na ponta da língua

meus olhos nos olhos

e mais um fim…

(silêncio)

 

 

um agora e un recuerdo

“Isso Benja, corta o pão…” era eu guiando os passos tardios de tuas mãozinhas leves, hijo … “cuidado com a faca e os dedos…” eu olhava com receio o metal brilhante ameaçando tua pele… “agora os hambúrguer…” e colocavas as fatias de queijo, o alface, o tomate, e agora eu via a tua enorme peça, montada com tuas vontades e desejos, e eu sorrindo de tua delicada alegria de quem faz por si e si próprio.

Então comias hijo, farto, aquele lanche de dois andares, e nós com gosto riamos e falávamos entre mordida e mordida, histórias de aqui e de lá, e nesse refluxo de memória, entre os cheiros do existir, a imagem do meu pai, seu avô, sentou-se a nosso lado, em silêncio.

Era yo quien te observaba, papá, dentro de mí, en silencio. Era el mundial del 2002, y yo desde el sofá te escuchaba freír unas hamburguesas.  Era el intervalo de algún juego que casi siempre trasmitían por las madrugadas. El resto de la gente en la casa dormía, y nosotros cómplices nos comíamos varios de aquellos “tractores” de carne con cebollas, con pan y huevo y ensalada.

Era noches de piernas cruzadas, y alegrías divididas con aquellas jugadas de ese extraño juego que abraza desde siempre diarias caminadas. Que rara alegría este placer de recordarnos en esta distancia que se impone, como el fútbol de los días, una gambeta por las cañas de lo ausente, un tiempo gastado del tiempo, un borrón de una goma gastada, que más ensucia que apaga las memorias de un tiempo presente que persiste sobre el TODO y todo lo aplasta para siempre como si nada, medio perdido, el olvidar…

E assim eu, no meu obvio escafandro de mim, respirava a alucinação de dois dos meus seres, um intacto e infalível, latejante, que cegava meus olhos da luz deste instante, meu filho diante de mim, comendo um lanche amassado em seus dedos e outro yo, reluzente e inócuo, delirante que se alimentava de las manos de luz de mi padre, que me inundaba esta sangre, um abrazo robusto, y mis besos de infante,  e agora nos meus lábios meu beijo fraterno de ser eu, o seu pai, mi hijo.

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