flagra

o que mais eu gosto de roubar são livros. um desejo intenso e incontrólavel na frente de um estante. a certeza de estar pegando de outros escritores, outras poetas, cronistas de tantas épocas, os melhores romancistas. roubar deles, e dos donos dos livros.

minha única biblioteca, a que deixei na ilha, era praticamente de livros ilícitos. levados sem culpa de livrarias, feiras e bibliotecas.

se bobear, eu já peguei um exemplar seu. roubado mesmo dentre seus livros, por uma luxuria pueril de roubar os meus mestres. bati o olho, pus na bolsa, sumiu o livro.

a única vez que fui pego fazendo isso foi na feria do livro de la habana, em 2004. acho. eu estava lançando meu primeiro livro de contos “¿cómo le crecen los senos a las niñas?” e esses dias da feria eram dias de encontrar amigos e procurar livros para comprar. eu estava acompanhado e perambulava pelas imensas salas da “fortaleza de la cabaña” à procura de bons preços.

uma hora me deparo com meu livro, e agarro dois. um eu compraria. e outro não. tudo correu ao certo, pagamos e saímos ao sol daquelas praças coloniais que batem de frente com a bahia de la habana. a amiga que me acompanhava – não lembro agora quem era – e eu caminhávamos conversando. ela não sabia que eu havia pego o livro, que era uma das minhas primícias: não deixar ninguém saber daquele instante que eu pegava. Quando já distantes da saída, eu puxo o livro do bolso da calça e coloco dentre os livros que havia comprado. Dez segundos depois, sinto um grito e um puxão de braço, de um velhinho que estava na porta, onde se pagavam na saída os livros.

ele me havia seguido por duzentos metros e durante cinco minutos, para me pegar no flagrante.

de nada adiantou, que eu demonstrasse que não fazia sentido eu roubar meu próprio livro, na semana do lançamento deste, na féria mais importante do livro de cuba. ele fez questão de me levar a delegacia de plantão, e me apresentar como ladra, e logo depois ser punido com uma multa. justamente.

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semente

eu já sentia medo (sem nunca te ver)

um frio molhado descendo meu rosto

feito de tempo distante ou brio sem-fim de te ver.

 

você era tenra

em pensamento: o todo de mim queria explodir

em largas poesias e dias de estranho viver.

 

tú, do outro lado de mim

(des)conhecidos: vibravas memórias sem viver

sorrisos e pulos (prantos e cheiros)

 

você esfumaçava em fios dourados do sol na janela

.                                 ou rios de ansias à beira do mar

.                                ou beijos fugazes da sua pele e a minha

eu já te amava antes de tudo começar

no escuro de mim no fundo dos outros

no basto silêncio antes da vida amanhecer

não havia outro eco que o fim das palavras

ditadas sem ego por um dEUs sem perdão

éramos acaso dos acasos

luz dentre as luzes

você minha semente

assas do meu sempre

verdade do meu existir.

 

 

 

 

 

a vida, o tempo (e o silêncio das estrelas)

a vida precisa de um tempo: um intervalo entre fins e começos, ou uma janela no centro à parede, esta linha torta entre tanta humanidade.

minha vida precisa de um tempo: uma basta escuridão no meio as minhas certezas, um soco mortal no umbigo dos dias ou o adeus de meus eus, diante do ego falido.

o tempo precisa de vida: um broto de paz no eixo do mundo, ou pranto pueril de mais uma criança, a noite em silêncio sem mais que as estrelas.

vida

eu não me canso de viver,

não me canso de querer

ser da vida vivedor !

Vida, Mestre Ambrósio

bicicleta é feita para pedalar

arroz e feijão para se alimentar

mar é para mergulhar

e festas são para se divertir,

amores, é para se aceitar

e chiclete para mastigar

lápis é para apontar, escrever, apagar e reescrever

vida, vida é para viver.

 

tempo é para transcorrer e nele se transformar

filho é para se reconhecer

e na terra, resistir

abraço é para repetir

e na manhã ver o sol nascer

as vezes é para duvidar que a certeza nem sempre é o fim

a luz é para brilhar

que a vida, a vida é para viver.

 

poesia é para esquecer

tristeza para sorrir (porque o tempo há de transformar)

a fome é para matar, e a sede para encorajar

beijo é para beijar

olhos para transcender no instante que vá passar

medo é para enfrentar antes de cada anoitecer

a vida é para ser

a vida que é para viver.

sobre emigrar e outros dados da loucura

eu nasci numa ilha. sair de uma ilha é um trâmite difícil, porque ou você nada muito bem ou aprende voar. migrar de um ilha é uma tarefa quase de um deus. ou de herói. ou de um mártir.

você provalmente nasceu num continente. um continente é uma espécie de ilha, só que bem maior. para você emigrar de um continente, você precisar nadar muito bem ou aprender voar. emigrar de um continente é missão de um quase deus. ou de um herói querendo ser mártir.

migrar é coisa de gente. pode ser se despedir da sua casa, da sua família ou de um amor. emigrar é coisa de quem abre um porta e parte, sem poder dizer adeus. migrar não é coisa de deuses nem de heróis. apenas de gente que precisa morrer antes de partir.

migrar é coisa de bicho. crisálida pendurada em caçulos futuros. botões de rosas em pleno jardim do jamais. assas batendo contra ventania. ou você fugindo de si. ninguém foge por opção: ou você é deus ou você é mártir do seu devir.

sair de si é coisa de louco. bater de frente com si próprio de frente ao espelho. ou você nada muito bem ou nos crescem assas. para migrar de si mesmo basta um silêncio de deuses, ou matar o herói que quer se mártir. abrir a porta e sair sem deixar adeuses.

eu nasci num ilha que teimava em ser continente. não tive deus, em troca de heróis e de loucos. o espelho o troquei pela minha loucura e as assas. então andei até o poente querendo ser gente. gente é um bicho sem medo da morte. gente é um deus sem adeuses.

diz que

os instantes acontecem nos adentres numa sentença impossível de não creditar: o que vejo é; o que toco é, o que cheiro é, o que escuto é, o que lambo é.

entretanto, sempre é bom enfiar os dedos através das emoções do sentir. diz que fazendo isso a gente morre e volta viver. diz que isso é quando se atravessa o querer, até o amar. 

promessas, nada.

não faça promessa, nunca. promessa é uma porta aberta, para o resto da vida, até o fim.

uma ponte a meias, levantada sobre o abismo do tempo, prestes a cair.

promessa é um pôr-do-sol nublado, vermelho o céu e os olhos. você de um lado da promessa, distante de tudo e de si.

promessa é uma festa na praça, interrompida subitamente pela chuva geada, e tudo largado ao vento do que está por vir.

promessa estanca as palavras na goela da memória, e aguarda insistente o momento de cuspir. promessa é o tumor do real, escancarando o fim do existir.

promessas ferem a morte, matam.

não prometa nada. pois nada em nós tem certeza de ser.

não, nada prometa, nada.