um agora e un recuerdo

“Isso Benja, corta o pão…” era eu guiando os passos tardios de tuas mãozinhas leves, hijo … “cuidado com a faca e os dedos…” eu olhava com receio o metal brilhante ameaçando tua pele… “agora os hambúrguer…” e colocavas as fatias de queijo, o alface, o tomate, e agora eu via a tua enorme peça, montada com tuas vontades e desejos, e eu sorrindo de tua delicada alegria de quem faz por si e si próprio.

Então comias hijo, farto, aquele lanche de dois andares, e nós com gosto riamos e falávamos entre mordida e mordida, histórias de aqui e de lá, e nesse refluxo de memória, entre os cheiros do existir, a imagem do meu pai, seu avô, sentou-se a nosso lado, em silêncio.

Era yo quien te observaba, papá, dentro de mí, en silencio. Era el mundial del 2002, y yo desde el sofá te escuchaba freír unas hamburguesas.  Era el intervalo de algún juego que casi siempre trasmitían por las madrugadas. El resto de la gente en la casa dormía, y nosotros cómplices nos comíamos varios de aquellos “tractores” de carne con cebollas, con pan y huevo y ensalada.

Era noches de piernas cruzadas, y alegrías divididas con aquellas jugadas de ese extraño juego que abraza desde siempre diarias caminadas. Que rara alegría este placer de recordarnos en esta distancia que se impone, como el fútbol de los días, una gambeta por las cañas de lo ausente, un tiempo gastado del tiempo, un borrón de una goma gastada, que más ensucia que apaga las memorias de un tiempo presente que persiste sobre el TODO y todo lo aplasta para siempre como si nada, medio perdido, el olvidar…

E assim eu, no meu obvio escafandro de mim, respirava a alucinação de dois dos meus seres, um intacto e infalível, latejante, que cegava meus olhos da luz deste instante, meu filho diante de mim, comendo um lanche amassado em seus dedos e outro yo, reluzente e inócuo, delirante que se alimentava de las manos de luz de mi padre, que me inundaba esta sangre, um abrazo robusto, y mis besos de infante,  e agora nos meus lábios meu beijo fraterno de ser eu, o seu pai, mi hijo.

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primeira lembrança da morte

Íamos de carona, Benja, voltando de um dia de muitas brincadeiras, trabalhando. No tránsito da Marginal, trocávamos ideia sobre isto e aquilo, e não lembro como começamos falar sobre a morte.

Aquele abismo entre o que somos e o escuro além silencioso que nos abraça depois do último hálito.  Entre as tuas perguntas e as memórias de Suely, a amiga que dirigia, foi se tecendo o emaranhado da dúvida, o real do véu que apaga aos olhos e libertam à alma, aonde o tempo pára e o sol se extingue.

Eu, talvez de um medo, não disse nada. Senti medo até de olhar pro seu rosto, no seu medo à morte, que pela primeira vez você experimentava.

“Eu queria apagar esse memória…” você diz, e bateu sua testa com a mão “… eu não queria lembrar disso”. Eu sofria, em vão, o despertar da conciência da vida, vinda ao acaso das palavras no mais singelo gesto humano: o medo a não estar vivo.

A dor em mim era aguda. Sofria por você enxergar a verdade básica dos que estamos vivos. Descobrias o pote mágico dos dias e os sóis nesta terra antropofágica. A luz no fundo do túnel.

Faz anos, quando eu tinha mais ou menos essa sua idade, também sem lembrar como, numa conversa entre meus pais e eu, havíamos caído nessa de falar sobre a morte. Eu não lembro da sensação do medo provocado pelas palavras, mas lembro de eles, tentando me fazendo esquecer daquilo, rindo da minha cara pálida e lábios roxos, dizendo mais ou menos, o mesmo que eu te disse: “assim é a vida, filho”.

Eu também tenho medo de morrer.

 

 

O real demasiado

Instantes bons e belos junto a você, Benja, sempre são muitos. A cumplicidade dos momentos, que esticam em dias, que hoje são anos. O partilhar conversas sem rumo, no fio da imaginação sem beiradas, na saga de romances ou de vilões imaginados; ou aquela pergunta das trinta e três respostas e todas suas interpretações. Aquelas minhas memórias distantes, trazidas por alguma lembrança, por espelho de consciência, e no agora, revivida contigo, no sorriso e a surpresa.

Porém, há os desafios cotidianos, do ir e o devir, nos prazos dos compromissos, dos tempos alheios, dos encontros marcados. Às vezes, o real demasia, tornasse o muro diante do corpo, a lágrima diante dos olhos, a dor dentre do peito. A raiva esmaga entre dentes, o silêncio de algum grito. Há os berros dentro do punho, no caminho certeiro de alguma parede. O chute sem bola, no ar de uma mágoa. O alarido em tantas palavras, do que não consigo aquietar na paciência. Já arremessei meu pranto na sua queixa, na sua insistência por mi tirar do centro; ou bati com minhas assas, no vento da sua pele. O remorso entorta, de joelhos a morte é solidária, e me abraça a causa de mais uma batalha perdida, entre a razão e os limites, um pai e o filho, a emoção e as dores de uma paternidade vivida na sinceridade.

Esses dias, depois de um desses processos, onde o oco toma conta do tempo, o breu ilumina os gestos, e a pressa domina as vontades, eu te perguntei, Benja, mas bem num questionamento meu; o que poderíamos fazer para nos entender sem birras, para nos acompanhar sem sofrimentos; e você que de longe é mais experto, disse-me, leve e com seus olhos nos meus, “sorrir, pai” e sorrimos.

Andança

Caminhávamos Benja, na cidade, não lembro exatamente. Algum lugar entre este ou aquele. Eu quase sempre  dois passos a frente, eu acho que você demora no atraso, como quem comanda um andarilho com passos tortos, e nossas sombras.

Havia grades humanas, asfaltos beirando os caminhos, árvores altas com verdes infinitos no comum cinza dos prédios. Uma borboleta espiã. Cachorros andaluzes. Caçulos diversos, verdes, dourados, alvinegros. Você os contava. Eram muitos.

Caminhávamos, assim distraindo-nos e você me disse “Pai, vamos andar em silêncio”.

Barbapapá

Aos poucos meses de nascido, Benja, a mamãe iria voltar ao cotidiano laborar, por inevitável conseqüência, de eu também estar na época trabalhando cada dia da semana, teríamos que te colocar numa creche.

Eras pequeno demais, miúdo nos gestos, um bichinho de avulsos prantos, sorrisos e sons quaisquer. Eu te achava vulnerável à cidade: aqueles barulhos, o ar seco poluído, as pessoas desconhecidas, tudo me era raro.

Acho que não duvidei, e pedi para sair no Projeto Quixote. Era minha primeira, e até aqui, única vez que estava com carteira de trabalho assinada. Fizemos acordo, e recebi os benefícios. Não era muito dinheiro, aliás, na real, quase nunca é.

Então a partir de certo dia, e pelos próximos meses, eu fiquei cuidando de você. Daqueles tempos guardo belas lembranças de quando você começava comer, das papinhas que preparava em vários sabores de legumes e grãos, e que congelávamos para usar durante a semana. Dos instantes inteiros, entre brincar e dormir, entre choros e risadas, entre o exaustão do dia e o exaustão da madrugada.

Já nessa época, começamos visitar a praça Buenos Aires, que ficava perto, andando dava menos de dez minutos, e ali foi que você aprendeu caminhar. E foi lá, que cotidianamente conheci muitas babás do bairro. A configuração era mais ou menos esta: todas mulheres, tinham que se vestir de branco.

Com o tempo, fui fazendo amizades, ao final não era difícil pois as crianças brincavam juntas, pediam os brinquedos das outras crianças, sempre precisava-se de uma fralda a mais, ou enfim porque compartilhávamos os lanches, os aprendizados e as experiências.

O mais raro para elas era compreender que era eu, o pai, quem cuidava, quem preparava as comidinhas, o que não estava trabalhando para pagar as contas de casa.

Para mim, começou o entendimento da criação de muitas famílias. A maioria já tinha filhos próprios, que deviam deixar com alguém, muitas vezes outras babás, para poder cuidar daqueles filhos de outras pessoas. Tudo ficava mais raro ao eu perceber, que aquelas mulheres eram totalmente diferentes no jeito de viver, que as famílias para as quais trabalhavam. Ou seja, entre as crianças e aquelas profissionais, existiam uma fenda social e financeira que atravessava inevitavelmente o aprendizado e a sociabilidade daquelas crianças.

Na prática, elas eram muito cuidadosas com as crianças, sempre atentas, eram minuciosas na atenção e, sobretudo, muito prestativas com suas outras colegas de profissão. Na praça emanava uma sensação de comunidade que poucas vezes vi na cidade, acredito que no afã do cuidado do emprego, que com certeza era o principal sustento daquelas famílias.

Outra coisa comum entre elas, à qual, pouco a pouco foi tendo acesso com a confiança durante aqueles meses, era que a maioria guardava duras críticas às famílias para as quais trabalhavam, sobretudo na falta de afeto e cuidado para com os próprios filhos; e entre si, fofocavam das maneiras de viver dessas famílias de classe media alta.

Ainda compartilhavam naquela irmandade da praça, uma certa raiva velada, enfim por não estar com seus próprios filhos  pela obvia necessidade de manter aquela profissão de cuidar de outras crianças.

Medida Exata

“Benja vamos fazer alguma coisa?” a tarde se antecipava num cinza chuvoso. Lá fora São Paulo seguia no seu sem-fim cotidiano. Você topou e “o que será que faremos, pai?”. Na minha duvida, passei a responsa para você e tu, “vamos brincar com as ferramentas” você concluiu.

Te expliquei para que servia cada uma, as dividimos por grupo.

“Essa daqui… ” era a régua para medir “para que que serve, pai?”

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Medindo nuances

 

“Vou te mostrar…” eu disse “como que faz com isso”. Como colocava sobre a superfície. A diferença entre centímetros e polegadas. Como fazer a marquinha do lápis, quando a medida é maior que a régua.

Você escutava, e repetia os meus conselhos, na brincadeira de fazer as medidas de uma cadeira plástica, que como modelo, serviria para medir e reprisá-la no papel com as medidas certas.

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Medida certa

Era confusa a numeração, o cálculo da medida, e o local onde medir. Depois, era o momento de escrever os dados: a medida certa.

O processo continuava pois a cadeira tinha três peças, e três eram as medidas para pegar.

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Outras (repetidas) medições

Você anotava com letras firmes, sobre o traço retilíneo que demarcava e enunciava a medição: uma sorte de exatidão e precisão.

Eu perguntei onde faltava medir, e minha surpresa esvaziou-se pois você sabia exatamente onde colocar a régua, o lápis e a disposição.

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Medida externa

Eram detalhes finais da terceira dimensão. Você media o largo e ancho e altura: o volumem do afeto preencheria as quinas, os defeitos seriam o alicerce do próximo, e a presença  pilar do próximo devir.

Você surpreendia-se com os cálculos e os traços dando certo

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Planos do exato

Ao final, estavam os planos da cadeira, prontos: a visível cadeira representada em três folhas, com as medidas cuidadosamente medidas.

Você me pediu para pendurar na parede; e achamos lugar lá no alto. Você quis colocar as folhas por si próprio, um sobre a outra, com ajuda da cadeira, e depois com ajuda de mim: sobre os ombros.

Assim ficou: um pouquinho do certo, na medidas daquele esforço seu.

Ordem e respeito (ou o silêncio que gritou por nós)

Ontem caminhávamos, hijo, um perto do outro. Atravessando as ruas e as calçadas do bairro onde moras. Depois da escola, o almoço na avó e a piscina; íamos em direção ao metrô para irmos ao dentista. Acostumado andar sozinho, porém perto, pelo horário pedi para irmos de mãos dadas.

Eu, desse gesto costumeiro, citadino e humano, não sou adepto. Minha mão sua, minhas pernas tremem, mudam o passo, até às vezes dou uns pulos. Eu de mãos dadas, não gosto desde que era adolescente.

Você, ao contrário, não queria; apesar de que naquela hora, as pessoas andam muito depressa, com aquela vontade insana de voltar para casa, apenas olham para frente, a mente alheia, pensando em tortas e urgentes necessidades.

Você fechou a cara. Fez bico. Ensaiou um pranto.

Eu argumentei ao perigo. Aleguei à pressa. Exigi respeito.

As pessoas que passavam então olharam. Um menino veio se aproximar, dizer alguma coisa. Eu não deixei, pedindo que me deixasse falar com você. Um segundo depois, havia dois policiais militares, pediram meus documentos. Eu pedi, para continuar falar com você. O policial exigiu respeito cidadão. Eu retruquei pedindo meu direito paterno.

“Você me dá seu documento” o fardado, alto, armado, vociferava.

“Posso falar com meu filho?” respondi, com uma calma fria, que por dentro queimava.

“Não, não pode!” ele era a ordem, “eu preciso terminar de falar com meu filho” e eu um cidadão.

Ele alegou à diferencia cultural, acredito que sentiu um sotaque, e diz que eu devia obedecê-lo. O tom era áspero.

Eu perguntei se ele era pai. Ele era. Pedi para que ele me compreende-se enquanto pai, e que me deixasse enfim, terminar minha conversa com meu filho. Eu fui enfático.

Ele disse “você tem um minuto”.

Daí eu te lembrei do porque que eu queria que você fosse de mãos dadas, lembrei da pressa, o dentista, e ressaltei daquilo que repito “não gosto de estar chamando atenção” (algo que se opõem a minha extrovertida figura em âmbito amigo-familiar).

Você escutava em silêncio. No olhar pingava uma raiva da birra entre nós, uma vergonha daquele momento, o medo por aqueles policiais ao redor. Seu rosto era gigante, e me olhava firme, no fundo dos meus olhos.

Puxei a carteira. Dei meu documento e “este é o documento do meu filho” eu disse.

Ele conferira. Explicou que alguém tinha ouvido nos conversando, e haviam achado estranho (sim eu de cabelo crescido para cima, gadelha mundana dos meus pensamentos, o preto cimarrón da preta da minha avó, minhas roupas quaisquer, com qualquer um dos meus sapatos, as meias cruzadas, mochila rasgada e o japamala, e você louro, bonito garotão, de sobrenome judeu, e olhos mel, andando comigo num bairro burgués… eu sei o que eles achavam estranho).

Eu falei que era que não tinha nada o que fazer com a vida deles.

O policial disse que eu entenderia se fosse alguém tentando levar meu filho.

Eu falei que aquilo era o dever dele, e o meu, educar você.

Ele perguntou se estava tudo bem com você. Você assentiu, sem falar. Ele perguntou se sabia onde estava indo? Você assentiu, ainda sem falar, com os lábios apertados, numa rara mistura de bravura e desdém.

Eu disse que você podia falar. Você disse então que íamos ao dentista

O policial então devolveu meus documentos.

Nós, prendemos nossas mãos, e fomos a pé. Juntos.

Na esquina, antes de atravessar a próxima rua, me detive de novo para conversar. E te falei, seco, e firme, olhando aos olhos aquilo que te falei: o que foi, isso sim, fica entre nós dois!

ALFABETO DO MEU NOME*

“O que está escrito nesse cartaz pai?” Era uma das perguntas mais freqüentes do Benjamín nas últimas semanas. A sede de descobrir esse mundo de significados contido nas palavras, esse labirinto de imagens desenhado em frases e metáforas.

“Ali diz ATENÇÃO” ai vem aquela astúcia paterna – e materna – , o cansaço incrível de tantas outras coisas cotidianas, o repetitivo da criança no seu intuito de aprendizagem, e você tem que ir escolhendo o momento certo de dar resposta, ou de quando não é possível dar resposta, ou quando de fato não se está com vontade “então, niño, agora papai está prestando atenção aos carros”.

Ele já ia sacando detalhes “essa palavra começa com letra do meu nome” eram os primórdios da leitura do mundo, as primeiras olhadas ao mundo encantado de ler.

Mas não era o início de outras mortes? Do ingênuo olhar sobre o real? Da liberdade do universo dos sentidos? O da não opressão das emoções escritas, ditas, lidas ou escutadas? Não era o fim, agora finalmente, de um universo que jamais retornaria; e do qual nunca mais nos recordávamos, o mundo das sem palavras?

Ele soletrava “M” respirava “E” com esforço “T” quase ofegante e cansado “R” duvidando, com aquele medinho da raça humana “Ô” e agora com êxtase, eu perto daquela independência praticamente definitiva “que diz aí Benja?” e ele, mais feliz do que qualquer outro ser “METRÔ, diz metrô”.

O mundo se desvendava entre palavras, perguntas, leituras, significâncias, interpretações e respostas. Um caminho novo para o que recém existia e que agora seria tão novo e desconhecido para ele, para mim que do lado dele, junto com ele, também iria novamente descobrindo-o.

“É pai eu aprendi ler pixo antes que palavras” ele afirmou, sorrindo, enquanto traduzia os desenhos nos muros da cidade, os traços jeroglíficos da selva de concreto, com aquela liberdade lúdica da criança. Daí ele inventava sentidos para aquilo que lia: essas viagens.

Então veio a mágica – de mágico aquilo era somente a minha recém descoberta, na escola era que havia nascido aquele ímpeto e a audácia – de ler em sílabas, pouco a pouco, arriscando, tudo o que estava escrito no mundo.

Foi no mercado do bairro, ele lendo os estantes, os produtos, os nomes dos corredores que eu não mais segurei minha emoção daquela empreitada e diz a ele “Benja,você já aprendeu ler” e de rir também chorei, naquela alegria tristonha, naquela saudades de despedidas: eu ria e chorava.

“Mas pai você está triste” e mesmo me sabendo tão chocado, tão imerso naqueles sentimentos misturados, dei-lhe um abraço, e tantos outros beijos “É hijo, de felicidade também se chora”.

 

  • O título foi Benja quem deu 🙂

 

 

Olhe ao Céu

“Olhe ao céu enegrecido, a ausência de lua, o mar escuro estrelado. Lá distante, brilha um astro sobrevoando entre as tantas um caminho certeiro através do universo”. Essas poderiam ser as palavras do meu pai, na poética da memória, vinte anos depois daqueles dias em La Habana.

Depois que o muro de Berlim caiu e a União Soviética desapareceu dos mapas e de nossas despesas, os cubanos conhecemos uma das piores crises econômicas de nossa historia: falta total de comida, transporte público praticamente nulo, crises nas relações pessoais, empregos em falta, prostituição renascente, e longos períodos sem eletricidade.

Apagões de mais de doze horas alternavam com o mesmo período com luz elétrica. Cidades, povoados, regiões inteiras eram acessos ou desligados. Em La Habana, uma grade semanal dividia municípios entre os “encendidos” ou “apagados”. De noite, a escuridão tomava conta das ruas e esquinas, dos céus e dos sonhos.

“Olhe pro céu. O escuro da noite sem lua. O véu enfeitado de pequeníssimos pontos brilhantes. Olhe fixo, alguma coisa acontece, e se mexe. É uma estrela? Um planeta cintilante?” Éramos meu pai e eu, sentados na calçada olhando pras únicas luzes que nos restavam. Sorriamos daquela felicidade simplificada, ínfima como o brilho que o céu nos regalava.

As noites eram esticadas com as conversas dos vizinhos que puxavam cadeiras, sofás e travesseiros para a calçada. Fugiam do calor insuportável de dentro de casa. As crianças corriam na rua, jogando de esconde-esconde, ou simplesmente sentavam a ouvir as histórias dos adultos: histórias do mesmo que se contavam cada dois dias, alternando entre “apagados” o “encendidos”.

“Olhemos o céu. Aquilo que brilha e se mexe não é um astro. Uma estrela cadente? Um sol errante procurando galáxias sem luz? Um planeta viageiro a procura de nos? ” Assim, a cada dois noites, meu pai e eu anotávamos – na memória – a cada novo satélite que descobríamos  no céu habanero – você já viu satélites? aqueles pontinhos de luz que se mexem entre as estrelas?

Ali, a cada nova descoberta de um desses artefatos luminosos, a nuestra euforia iluminava aquele breu do bairro, entre gritos e sorrisos, entre nossos abraços – as vezes minha irmã – assim como é a mesma cumplicidade daquela amizade que até hoje, diante do escuro estrelado, nos acompanha sob o único céu que nos abraça.

Las noches de nuestro invierno

Quem vai lembrar você?
Quem lembrará de mim?
O que será de nós?

Sergio Sampaio

 

El invierno de estas noches fue muy frío, hijo. La casita con árboles era demasiada húmeda. Os cobertores sobrepuestos, todos juntos, aún no eran suficientes.

Dormíamos juntos…

Los veinte cuatro pequeños vidrios de la ventanita – tuve que contarlos – empañaban, así que la noche remataba con fuerzas al atardecer. Dentro, nuestro calor  de latidos incesantes, las sonrisas interminables, nuestros altercados de cansancio y rabia en formas de gritos, iluminaban las goticas que contaminaban a contraluz las lámparas amarillas de calle aledaña, afuera, del otro lado de esos mismos cuarenta y ocho vidrios – yo los conté.

Hacía mucho frío…

Preparábamos la comida, el simple alimento de una jornada común de nuestros días. Todo era suficiente en demasía, y en la mesa lo arduo era convencerte comer sin comentar tus largas conversaciones sobre algún de tus temas sin fin – ideas tuyas sin final.

A veces era todo. A veces, desistía de convencerte…

Encendimos velas, tú y yo hijo,

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Fuego en Iquiririm

para apagar una oscuridad ensayada; leímos libros mientras comías o dormías; canté canciones que poco recordaba – e las repetí sin aún recordarlas bien –; inventamos crónicas del arcoíris y sus personajes de otras fantasías; jugamos tú y yo, solos; o solito tú, mientras yo me enfrascaba en otras cosas, mías.

 

Nunca fue fácil… a pesar de lo profundo de nuestra poesía a dos.

En las noches de nuestro invierno – que todavía recién comienza – apenas dormí mis propios sueños; demasiado era el frío y yo, durmiendo a tú lado, despertaba para cubrirte; y en ese fugaz despertar de mis anhelos, te observaba con los ojos cerrados, dormías, y yo, intentando colarme para siempre en nuestro ensueño de vida compartida