semente

eu já sentia medo (sem nunca te ver)

um frio molhado descendo meu rosto

feito de tempo distante ou brio sem-fim de te ver.

 

você era tenra

em pensamento: o todo de mim queria explodir

em largas poesias e dias de estranho viver.

 

tú, do outro lado de mim

(des)conhecidos: vibravas memórias sem viver

sorrisos e pulos (prantos e cheiros)

 

você esfumaçava em fios dourados do sol na janela

.                                 ou rios de ansias à beira do mar

.                                ou beijos fugazes da sua pele e a minha

eu já te amava antes de tudo começar

no escuro de mim no fundo dos outros

no basto silêncio antes da vida amanhecer

não havia outro eco que o fim das palavras

ditadas sem ego por um dEUs sem perdão

éramos acaso dos acasos

luz dentre as luzes

você minha semente

assas do meu sempre

verdade do meu existir.

 

 

 

 

 

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a vida, o tempo (e o silêncio das estrelas)

a vida precisa de um tempo: um intervalo entre fins e começos, ou uma janela no centro à parede, esta linha torta entre tanta humanidade.

minha vida precisa de um tempo: uma basta escuridão no meio as minhas certezas, um soco mortal no umbigo dos dias ou o adeus de meus eus, diante do ego falido.

o tempo precisa de vida: um broto de paz no eixo do mundo, ou pranto pueril de mais uma criança, a noite em silêncio sem mais que as estrelas.

vida

eu não me canso de viver,

não me canso de querer

ser da vida vivedor !

Vida, Mestre Ambrósio

bicicleta é feita para pedalar

arroz e feijão para se alimentar

mar é para mergulhar

e festas são para se divertir,

amores, é para se aceitar

e chiclete para mastigar

lápis é para apontar, escrever, apagar e reescrever

vida, vida é para viver.

 

tempo é para transcorrer e nele se transformar

filho é para se reconhecer

e na terra, resistir

abraço é para repetir

e na manhã ver o sol nascer

as vezes é para duvidar que a certeza nem sempre é o fim

a luz é para brilhar

que a vida, a vida é para viver.

 

poesia é para esquecer

tristeza para sorrir (porque o tempo há de transformar)

a fome é para matar, e a sede para encorajar

beijo é para beijar

olhos para transcender no instante que vá passar

medo é para enfrentar antes de cada anoitecer

a vida é para ser

a vida que é para viver.

sobre emigrar e outros dados da loucura

eu nasci numa ilha. sair de uma ilha é um trâmite difícil, porque ou você nada muito bem ou aprende voar. migrar de um ilha é uma tarefa quase de um deus. ou de herói. ou de um mártir.

você provalmente nasceu num continente. um continente é uma espécie de ilha, só que bem maior. para você emigrar de um continente, você precisar nadar muito bem ou aprender voar. emigrar de um continente é missão de um quase deus. ou de um herói querendo ser mártir.

migrar é coisa de gente. pode ser se despedir da sua casa, da sua família ou de um amor. emigrar é coisa de quem abre um porta e parte, sem poder dizer adeus. migrar não é coisa de deuses nem de heróis. apenas de gente que precisa morrer antes de partir.

migrar é coisa de bicho. crisálida pendurada em caçulos futuros. botões de rosas em pleno jardim do jamais. assas batendo contra ventania. ou você fugindo de si. ninguém foge por opção: ou você é deus ou você é mártir do seu devir.

sair de si é coisa de louco. bater de frente com si próprio de frente ao espelho. ou você nada muito bem ou nos crescem assas. para migrar de si mesmo basta um silêncio de deuses, ou matar o herói que quer se mártir. abrir a porta e sair sem deixar adeuses.

eu nasci num ilha que teimava em ser continente. não tive deus, em troca de heróis e de loucos. o espelho o troquei pela minha loucura e as assas. então andei até o poente querendo ser gente. gente é um bicho sem medo da morte. gente é um deus sem adeuses.

Milton, minha paixão

… e Milton parou de dizer.

Eu senti o oco no silêncio daquele sentir. Ninguém no mundo podia abraçar aquela nossa solidão. Nem nos mesmos se abraçar, podíamos, porque tudo em nos, se alfinetava num raro ferir.

Milton era meu mais sincero avesso de ser. Minha dor. Meu tesão.

Eu queria ir lá, trás sua sombra fosca, e sem dor abraçá-lo até me fundir em nos dois. Mas ele recusava qualquer contato, não fosse ele quem o procurasse. Assim ficava difícil amar o ser, trás a pele daquele homem, diante de mim.

O amor por ele me doía, transformado numa lágrima límpida que corroia o meu rosto, furando veredas de mágoas conhecidas. Ele mesmo, nem sequer percebia, que enquanto mais ele sofria, eu por ele, mais me apaixonava.

A nossa sombra; pregada em paredes corroídas, em batentes de portas sem saída, em noites de infinitas solidões, era a luz que incendiava o meu destino.

Milton chorava. Eu sorria.

“E do que é que você está rindo?…” ele quem me perguntou, enquanto lacrimejava o oceano daquela saudade. Eu não tive coragem de falar, e nem de mais rir “…diz aí, o que foi?”

crônica de uma morte lembrada

a gente precisa olhar aos olhos da morte. ao silêncio mudo de alguém que se ausenta no estar. a quietude da respiração sob o véu  das pálpebras, sem gestos ou insônia , apenas o corpo do que era, um ser anterior.

ela havia partido num desejo de raro viver. com as mãos abraçadas ao sol que girava, os presentes, outras gentes, despediam-se do corpo funesto, alguém que partisse anterior a nós, sobreviventes, que aqui chorávamos meio vivos, quase exaustos.

minha avó Dora havia falecido numa tarde qualquer de um mês que não lembro. ninguém da família e vizinhança esperavam aquele súbito decesso. e do nada, a rua e meus entes ficamos consternados.

a morte nunca avisa. sempre surpreende.

no velório, entre o calor e o cheiro das flores, nos, os adolescentes, invadíamos os cantos daquela casa de grandes salas, com sorrisos e piadas. entre choros e lembranças íamos despedindo quem era matrona da casa onde eu havia nascido, criado e conhecido o mundo primeiro.

pelos corredores ou perto do caixão, aglomeravam-se abraços de perdão, chorumens de culpas e ressalvas. meu pai ajoelhava-se em dor. outros tantos desistiam, sentados nas cadeiras de balanços, em conversas de meio tom.

que da morte não se sabe, nem se arrisca de dizer nada.

uma hora , eu encostei no vidrinho. ela estava num gélido gesto do acaso, apertando os lábios pra dentro. eu olhava o rosto talhado, sem lembranças ou emoções. lembro que fiquei lá, absorto sem nenhuma impressão. era ela e eu. antes, mil jornadas de dias cotidianos desde pequenos até aquele último dia. agora eu aqui; e ela…

alguém veio me puxar de lá, preocupado no meu olhar no cadáver de abuela. um sem entender me abraçava, mais pelos outros que por mim, aquele ser destemido, de quem quer muito aprender a viver.

da morte eu tenho medo, que me agarre sem volta ou defesas. ou me amarre sem amor ao vazio.

depois, minha prima e tia vieram me pedir que no enterro, no próximo dia, fosse eu quem lesse as palavras de despedida. sobre o altar de um túmulo de mármore branco, diante de toda a linhagem daquela senhora do bairro, os amigos e família; eu, mais que vivo, leria ao adeus para sempre que Dora merecia.

memórias do inverno mais frio

no palácio ateniense das musas, se trocam por centavos as paixões, os beijos na balança são por centeio, e os orgasmos se convertem em sete cordas de terrenos baldios. os homens sempre custaram menos, eu mesmo me troquei por um espelho.

faça frio, venha calor

a ventania da criança do inverno que trouxe suas folhas de fios dourados, e brindou sua noite amarela de danças circulares, quem desenhara o cais dos seus dentes, a língua do centro do beijo, entre tenras maozinhas de um cálido chão: era os ossos o abrigo do abraço, a carne estava quieta, não mordi.

faça frio, venha calor

no lumiar de um bosque de escuros matizes, no meio ao húmus das folhas úmidas do último outono, sob a tenra volúpia da terra inerte, um broto de vida suspira vulcões de afago e tesão no paralelo d´um instante: somente em olhos acessos que renasce o instante do agora… e tudo é possível no jardim dos tempos do Éden.

faça frio, venha calor