Ano zero: apanhado de memorias sutis

1

Quien seca la ropa colgada es el tiempo: medio sol de luz de mañana, una llovizna súbita repentina, dos nubes que cobijan al Astro Rey al mediodía, un granizo casi eterno, está lluvia perenne de tu ausencia: no trinan los pájaros, ni me vuelan maripositas en el pecho. Quien seca la ropa es el tiempo! Cuántos meses tarda esta añoranza?

2

quando pienso, y siento, que el olvido es la única manera de saberte feliz, me dan una ganas inmensas de llorar. saber que hubo algo que era nuestro en otro tiempo, saber y sentir, desanubiar el líquido y el verso. que no hay razón para lo que no es. el grano germina. la flor marchita. la noche amanece. y el tiempo acaba. saber que no puedo hacer nada con aquello que no es mío, lo que no me pertenece, y ni escoger el día del adiós tardío. saber me
resigna del perdón. sentir me permite esta razón.

0

 tudo que vivi esqueci… (você) me ajude viver este instante que ainda vivo… haverá tempo para (te) esquecer num futuro que também não lembro!

 

 

Anuncios

Nós outros Milton.

… ali estava o espelho. Nele, a sombra de mim contra o reflexo. Milton brincava com a luz detrás de meus cabelos, fazendo sombra sobre o eu no espelho, uma segunda sombra, e no espelho, apenas dele: o reflexo.

Nos meus olhos, no espelho, eu vi ele. Minha sombra abraçava seu reflexo, e a sombra dele fundia-se no meu convexo.

“Quem é você?” perguntei-me olhando para ele, nos meus olhos meus. Intui um eco como de quem está ausente. Nele, aquela ausência de se fazer presente. Em mim, como de quem quer desaparecer para sempre.

“A vida é feita por aquilo que sentimos na pele,… ” era a voz de Milton, ecoando nas salas vazias sem móveis nem livros de uma casa recém ocupada. Lá fora, o mundo era feito de pessoas que trabalhavam incessantes e omissas, sem olhar para a poesia que era estar vivos. Apenas respiravam como recurso da sobrevivência “ … e aquilo que escutamos e que tocamos”.

Nem eu, nem Milton existiamos para esse tipo de gente. Éramos coisa de outro século ou até de outra espécie: ler um livro sentado na grama, cheirar discreto o ventre de uma flor, esperar alguns minutos pelo pôr deste sol.

Pela janela dava para acompanhar os passos apressados de uma cidade que nascia de noite. Soluços rangidos, a língua sempre oculta, a boca torta, e os olhos fechados. Minha sombra se esticou no asfalto, jorrando umas listras escuras na luz alaranjada.

Milton apareceu por perto, trás minha forma encolhida na borda daquele abismo. Soube primeiro porque vi sua sombra jogada no centro do meu corpo alaranjado. Falei para Milton, no vácuo da escuta, sem desdém à beira do espelho da calçada: “Quem é você?” preguntei-lhe ao Milton. Minha voz era o eco daquele silêncio com que ele me presenteava sempre que eu o interpelava.

Uma menina deteve-se. Levantou o olhar, nos vendo. “Nós somos o que os outros…” Milton me abraçava, e eu dentro dos braços dele, também o agarrava, “… de nós, desconhecem”. Eu sorri para ela. Milton se desenroscou. Ela ia, acho que sorrindo.

O sol se apagou na noite. Minha sombra desapareceu da calçada. O eco da casa deshabitada gritava. “Milton…” eu disse garguejando, colocando os dois pés no chão “… não entendi isso direito.”

 

flagra

o que mais eu gosto de roubar são livros. um desejo intenso e incontrólavel na frente de um estante. a certeza de estar pegando de outros escritores, outras poetas, cronistas de tantas épocas, os melhores romancistas. roubar deles, e dos donos dos livros.

minha única biblioteca, a que deixei na ilha, era praticamente de livros ilícitos. levados sem culpa de livrarias, feiras e bibliotecas.

se bobear, eu já peguei um exemplar seu. roubado mesmo dentre seus livros, por uma luxuria pueril de roubar os meus mestres. bati o olho, pus na bolsa, sumiu o livro.

a única vez que fui pego fazendo isso foi na feria do livro de la habana, em 2004. acho. eu estava lançando meu primeiro livro de contos “¿cómo le crecen los senos a las niñas?” e esses dias da feria eram dias de encontrar amigos e procurar livros para comprar. eu estava acompanhado e perambulava pelas imensas salas da “fortaleza de la cabaña” à procura de bons preços.

uma hora me deparo com meu livro, e agarro dois. um eu compraria. e outro não. tudo correu ao certo, pagamos e saímos ao sol daquelas praças coloniais que batem de frente com a bahia de la habana. a amiga que me acompanhava – não lembro agora quem era – e eu caminhávamos conversando. ela não sabia que eu havia pego o livro, que era uma das minhas primícias: não deixar ninguém saber daquele instante que eu pegava. Quando já distantes da saída, eu puxo o livro do bolso da calça e coloco dentre os livros que havia comprado. Dez segundos depois, sinto um grito e um puxão de braço, de um velhinho que estava na porta, onde se pagavam na saída os livros.

ele me havia seguido por duzentos metros e durante cinco minutos, para me pegar no flagrante.

de nada adiantou, que eu demonstrasse que não fazia sentido eu roubar meu próprio livro, na semana do lançamento deste, na féria mais importante do livro de cuba. ele fez questão de me levar a delegacia de plantão, e me apresentar como ladra, e logo depois ser punido com uma multa. justamente.

1980: o ano da sina

1980 foi o ano que eu nasci. era o ano da mais alta luz de aquele governo que se chamava revolucionário. estávamos em paz com a urss, polonia, hungria, yugoslavia, alemania oriental e todos esses países que hoje não existem mais. nem seus líderes. nem suas ideologias. éramos um país de pobres ricos, diziam. tudo igual para todos. pouco, bem pouco para todos, menos para aqueles que desde a varanda ideologica nos comandavam. era uma época que ser diferente era delito: ideológica, sexual, políticamente.

esse ano minha mãe me carregava. e ainda, sonhava com ser feliz naquele país que tudo prometia. mas os conflitos eram muito bruscos e a felicidade e a liberdade eram restritas. meu pai anunciou que partiria, com ela, e comigo. todos juntos, mas minha mãe temia a nova vida. o trajeto abjeto do mar em travessia. ela se negou, por ela e pela minha vida, e meu pai, aceitou a letania. assim eu nasceria do lado da ilha.
era o ano 1980, o ano luz de nossa família. todos do mesmo lado da terra e do afeto.

não carrego essa sina, apenas o possível caminho que nunca existira. o caminho de viajeiro sem destinos, de um lado o mar, do outro a possível despedida.

gracias los puros Juana Eva Sanchez Terrero e Jose Ramon Menendez por el destino decidido. Luz!

uns avessos, ao acaso nosso

se a vida
fosse contadas com vitórias
todos seriamos heróis
em livros de histórias.
 
se fossemos, cada um,
lembrados por conquistas
talvez hoje seriamos todos
chefes ao frente de um império.
 
se a vida
fosse registrada pelo luxo
provável que todos fóssemos
grandes ricos da história humana.
 
mas e se a vida fosse contada por fracassos?
se cantássemos as derrotas?
se registrássemos a pobreza?
se o que importasse fosse a falta, a morte, a feiura?
o que seria, de nós, espécie humana?
 

semente

eu já sentia medo (sem nunca te ver)

um frio molhado descendo meu rosto

feito de tempo distante ou brio sem-fim de te ver.

 

você era tenra

em pensamento: o todo de mim queria explodir

em largas poesias e dias de estranho viver.

 

tú, do outro lado de mim

(des)conhecidos: vibravas memórias sem viver

sorrisos e pulos (prantos e cheiros)

 

você esfumaçava em fios dourados do sol na janela

.                                 ou rios de ansias à beira do mar

.                                ou beijos fugazes da sua pele e a minha

eu já te amava antes de tudo começar

no escuro de mim no fundo dos outros

no basto silêncio antes da vida amanhecer

não havia outro eco que o fim das palavras

ditadas sem ego por um dEUs sem perdão

éramos acaso dos acasos

luz dentre as luzes

você minha semente

assas do meu sempre

verdade do meu existir.

 

 

 

 

 

a vida, o tempo (e o silêncio das estrelas)

a vida precisa de um tempo: um intervalo entre fins e começos, ou uma janela no centro à parede, esta linha torta entre tanta humanidade.

minha vida precisa de um tempo: uma basta escuridão no meio as minhas certezas, um soco mortal no umbigo dos dias ou o adeus de meus eus, diante do ego falido.

o tempo precisa de vida: um broto de paz no eixo do mundo, ou pranto pueril de mais uma criança, a noite em silêncio sem mais que as estrelas.

vida

eu não me canso de viver,

não me canso de querer

ser da vida vivedor !

Vida, Mestre Ambrósio

bicicleta é feita para pedalar

arroz e feijão para se alimentar

mar é para mergulhar

e festas são para se divertir,

amores, é para se aceitar

e chiclete para mastigar

lápis é para apontar, escrever, apagar e reescrever

vida, vida é para viver.

 

tempo é para transcorrer e nele se transformar

filho é para se reconhecer

e na terra, resistir

abraço é para repetir

e na manhã ver o sol nascer

as vezes é para duvidar que a certeza nem sempre é o fim

a luz é para brilhar

que a vida, a vida é para viver.

 

poesia é para esquecer

tristeza para sorrir (porque o tempo há de transformar)

a fome é para matar, e a sede para encorajar

beijo é para beijar

olhos para transcender no instante que vá passar

medo é para enfrentar antes de cada anoitecer

a vida é para ser

a vida que é para viver.

sobre emigrar e outros dados da loucura

eu nasci numa ilha. sair de uma ilha é um trâmite difícil, porque ou você nada muito bem ou aprende voar. migrar de um ilha é uma tarefa quase de um deus. ou de herói. ou de um mártir.

você provalmente nasceu num continente. um continente é uma espécie de ilha, só que bem maior. para você emigrar de um continente, você precisar nadar muito bem ou aprender voar. emigrar de um continente é missão de um quase deus. ou de um herói querendo ser mártir.

migrar é coisa de gente. pode ser se despedir da sua casa, da sua família ou de um amor. emigrar é coisa de quem abre um porta e parte, sem poder dizer adeus. migrar não é coisa de deuses nem de heróis. apenas de gente que precisa morrer antes de partir.

migrar é coisa de bicho. crisálida pendurada em caçulos futuros. botões de rosas em pleno jardim do jamais. assas batendo contra ventania. ou você fugindo de si. ninguém foge por opção: ou você é deus ou você é mártir do seu devir.

sair de si é coisa de louco. bater de frente com si próprio de frente ao espelho. ou você nada muito bem ou nos crescem assas. para migrar de si mesmo basta um silêncio de deuses, ou matar o herói que quer se mártir. abrir a porta e sair sem deixar adeuses.

eu nasci num ilha que teimava em ser continente. não tive deus, em troca de heróis e de loucos. o espelho o troquei pela minha loucura e as assas. então andei até o poente querendo ser gente. gente é um bicho sem medo da morte. gente é um deus sem adeuses.

Milton, minha paixão

… e Milton parou de dizer.

Eu senti o oco no silêncio daquele sentir. Ninguém no mundo podia abraçar aquela nossa solidão. Nem nos mesmos se abraçar, podíamos, porque tudo em nos, se alfinetava num raro ferir.

Milton era meu mais sincero avesso de ser. Minha dor. Meu tesão.

Eu queria ir lá, trás sua sombra fosca, e sem dor abraçá-lo até me fundir em nos dois. Mas ele recusava qualquer contato, não fosse ele quem o procurasse. Assim ficava difícil amar o ser, trás a pele daquele homem, diante de mim.

O amor por ele me doía, transformado numa lágrima límpida que corroia o meu rosto, furando veredas de mágoas conhecidas. Ele mesmo, nem sequer percebia, que enquanto mais ele sofria, eu por ele, mais me apaixonava.

A nossa sombra; pregada em paredes corroídas, em batentes de portas sem saída, em noites de infinitas solidões, era a luz que incendiava o meu destino.

Milton chorava. Eu sorria.

“E do que é que você está rindo?…” ele quem me perguntou, enquanto lacrimejava o oceano daquela saudade. Eu não tive coragem de falar, e nem de mais rir “…diz aí, o que foi?”