raras companhias de um bípede com as mãos sobre o destino

Do sol é a luz,

a sombra é própria de um muro ou da árvore

destas mãos sobre o destino.

 

da água é o úmido

se molhar é afeição do que se mutila

daquilo que se amedronta na esperança.

 

a pedra é densa ( sutilmente parada)

se sentar é um acaso do caminho

do longínquo desafio de ser bípede.

 

a noite é clara

olhos despertos nunca viram a cor mais pura

preto é a essência da morte.

 

a palavra é inócua

verdadeiras intenções apenas se calam

num abraço de silêncio destemido.

 

o fim tem começo

inerente de escolhas e contextos

acontece com o tempo do bípede silente sentado à rocha do destino.

 

poesia não existe

a gente chora com palavras de outros cernes

com afã de se tornar desconhecido.

 

 

e você é tenra,

nada que em mim contraria

sua fé é de estima

e o sol

a água

a rocha

a noite,

a morte silente,

as palavras

minhas raras companhias.

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no embaço do espelho

 

um espelho embaçado

orvalho da presença

muito próxima de sim mesmo

da boca, o hálito

do vidro, o reflexo

do sorriso, uma náusea

daquela outra imagem de si

(outro impróprio)

que se aplasta

e se disfarça alheio

semeando o sedimento

da maneiragem

do singelo

eu

que

doe-se

na pele contra pele

um raio desconforto dos olhos frente aos olhos

de sim

do singelo

eu

 

escrevesse com palavras de gestos

nada acontece no vácuo da vida

ela é mansa,

arredondada nas quinas e fundos

dissimula em fantásticas alucinações

o que seria

se fosse

talvez e impossíveis

ora chove, ora inunda

ora seca, depois floresce

e nos rejuntes do plural cotidiano

vai se tecendo o caminho

os encontros

este agora de ser

este ser

entre tantas e outras maneiras

então faço o risco…

o meu braço esticado à procura do vento

uma perna sustenta o altar de este corpo

uma mão dentre a outra

um sorriso que engulo no úmido da língua

meu reflexo na sombra contra uma parede

sou pouca coisa

apenas um corpo que emergiu deste caos

moléculas que combinaram na alquimia  do humano

esse bicho resiste no silêncio sutil da minha noite

no sonho da alta montanha sem lua

no grito da morte no talo do osso

as garras funestas da sobrevida

que brotam dos dedos da bestia encardida

ou a saliva do sangue nos olhos

o afã de desgarre

desejo da vida após esta vida…

por este, desando as palavras

desgaste banal do que faço (e admiro)

e repito os meus gestos de sombra

as mãos dentre as mãos

sorriso na ponta da língua

meus olhos nos olhos

e mais um fim…

(silêncio)

 

 

um agora e un recuerdo

“Isso Benja, corta o pão…” era eu guiando os passos tardios de tuas mãozinhas leves, hijo … “cuidado com a faca e os dedos…” eu olhava com receio o metal brilhante ameaçando tua pele… “agora os hambúrguer…” e colocavas as fatias de queijo, o alface, o tomate, e agora eu via a tua enorme peça, montada com tuas vontades e desejos, e eu sorrindo de tua delicada alegria de quem faz por si e si próprio.

Então comias hijo, farto, aquele lanche de dois andares, e nós com gosto riamos e falávamos entre mordida e mordida, histórias de aqui e de lá, e nesse refluxo de memória, entre os cheiros do existir, a imagem do meu pai, seu avô, sentou-se a nosso lado, em silêncio.

Era yo quien te observaba, papá, dentro de mí, en silencio. Era el mundial del 2002, y yo desde el sofá te escuchaba freír unas hamburguesas.  Era el intervalo de algún juego que casi siempre trasmitían por las madrugadas. El resto de la gente en la casa dormía, y nosotros cómplices nos comíamos varios de aquellos “tractores” de carne con cebollas, con pan y huevo y ensalada.

Era noches de piernas cruzadas, y alegrías divididas con aquellas jugadas de ese extraño juego que abraza desde siempre diarias caminadas. Que rara alegría este placer de recordarnos en esta distancia que se impone, como el fútbol de los días, una gambeta por las cañas de lo ausente, un tiempo gastado del tiempo, un borrón de una goma gastada, que más ensucia que apaga las memorias de un tiempo presente que persiste sobre el TODO y todo lo aplasta para siempre como si nada, medio perdido, el olvidar…

E assim eu, no meu obvio escafandro de mim, respirava a alucinação de dois dos meus seres, um intacto e infalível, latejante, que cegava meus olhos da luz deste instante, meu filho diante de mim, comendo um lanche amassado em seus dedos e outro yo, reluzente e inócuo, delirante que se alimentava de las manos de luz de mi padre, que me inundaba esta sangre, um abrazo robusto, y mis besos de infante,  e agora nos meus lábios meu beijo fraterno de ser eu, o seu pai, mi hijo.

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versos de viento huracanado

Día, calor extremo, calma

alarma vecina del proximidad de un ciclón

categoría avasalladora por ahora desconocida

como el miedo y su más fiera condición: la muerte

el tiempo acalma

entre compras y cuidados de la casa

estantes rellenos con lo que falta

¿velas? ¿galletas? ¿vegetales congelados?

un vino de arroz, dos botellas de ron a granel

unos huevos luchados en la cola del mercado

frutas de estación si sobraron,

si algo quedó

si compramos

unas tablas asegurando una ventana

los vidrios con plásticos, en cruzes al centro

el radio encendido

en el paso a paso de las noticias que se repiten

la vecina grita “se fue la luz”

y el oscuro abraza la tarde

vientos huracanados se aproximan de la costa

el cielo nubla

el viento arrasa

palmas se tambalean

árboles enteros se vienen abajo

vuelan plásticos, maderas… y los sueños

una llama encendida sobre el lugar más alto

un silencio cortado por el aullar de las ventanas clausuradas

el dominó en el centro

un café dividido cruzando la sala

los cuartos cerrados, evitando lo mínimo de revuelos

la oscuridad agarrando los recovecos

un ruido más alto, lejos, desconocido

como explosión que incendia la noche

las alarmas son de abrazos

una calma a pesar de este peligro

no hay teléfonos

ni electricidad

y el agua ya fue cortada

entonces, nos queda la pausa de la familia abrigada

los chistes de siempre

un buche de alcohol, con el doble nueve en la mano

trancado,

algo friéndose en la caldera de aceite caliente

un café colado, dividido entre tantos

la vecina gritando “que es esto dios mío”

la vela se gasta en el último lumbre

un libro en la mano, leído en voz alta

estos versos – que aún no he escrito, quizá la memoria adelantada

la próxima vela y los vientos se calman

ya es la mañana,

un gris ceniciento

los árboles tumbados

los cables

la gente que anda en la calle,

buscando entre escombros pedazos de cielo

es más una ventisca

infierno terreno,

la astucia de tiempo

los nuestros, en casa, tranquilos

a espera del próximo sol

sin estos versos de viento huracanado

yo nací dos veces

hoy cumplo diez años. es mi segundo cumpleaños en menos de una semana. sí, yo nací dos veces.

la última vez que nací, me bajé de un avión y caminé acuñando papeles y sonrisas. la noche estaba fría y soñaban pocas estrellas. me bajé como quien bajaba de las nubes, un semi-dios perverso y juguetón que su deseo mayor era el de vérselas con los humanos.

cuando se nace dos veces, se aprende todo dos veces: a caminar, dos veces. a hablar, nuevamente. a leer y escribir, de nuevo, varias veces. a entenderse, infinitamente. hacer amigos, vivir amores, sufrir despedidas.

cuando se nace de nuevo, hay cosas que pertenecen solo a la vida anterior: extrañar, por ejemplo, el hecho de haber sido otra persona en otra vida no muy distante. se extrañan personas, voces de otras épocas, besos de otros labios, historias de otras esquinas, mares de otras orillas.

vivir, dijo Riobaldo, es muy peligroso… y cuando se nace dos veces, la vida es mucho más peligrosa porque uno vive con dos seres que batallan todo el tiempo, entre el estar y la memoria.

cuando se nace de nuevo, ni todo es nuevo, ni todo es conocido. así se aprende a matar al primer individuo, por razón de sobrevivir a este nuevo que colinda, que exige cuidados e cariños. así se pide, borrar recuerdos, imagenes de otrora vida antecesora. es interesante, ser sagaz y no exigirle al nuevo ser, carismas e poderes del primero.

y así aprendí estos últimos diez años mi más nueva experiencia del eu, un yo solitario y distraído, sin afanes posteriores que esta respiración que me sustenta, y poco menos que estas palabras que me invento.

meu livro aberto

Me dei este presente, um agora de páginas brancas, tardias, memoriosas. Uma caverna de idéias surgidas, agarradas com afã, com desdém ou ao acaso. Um arquivo de insígnias desenhadas com detalhes de vozes e cheiros irrecuperáveis no depois, no futuro. Um caderno suspenso, sempre aberto à riscos e lembranças.

Eram pessoas. Flagrantes instantes do ser e do estar com os outros. Eu e vocês: NósOutros.

Lugares distantes, recônditos, distintos. Um mapa rabiscado em paisagens, passagens, paragens. Todos em um sendo, no exato momento da sombra do corpo, este meu corpo insatisfeito, imperfeito e torto, de sóis imensos e luas funestas.

Palabras inscritas por dentro da pele, sob a língua, no furo dos olhos, colado à respiração ventricular do palpitante, ou nas sinapses do sutil, do ingênuo e perpetuo, da loucura, a fome, a insônia, o silêncio.

Dei-me este presente, esta janela na parede do tempo…

primeira lembrança da morte

Íamos de carona, Benja, voltando de um dia de muitas brincadeiras, trabalhando. No tránsito da Marginal, trocávamos ideia sobre isto e aquilo, e não lembro como começamos falar sobre a morte.

Aquele abismo entre o que somos e o escuro além silencioso que nos abraça depois do último hálito.  Entre as tuas perguntas e as memórias de Suely, a amiga que dirigia, foi se tecendo o emaranhado da dúvida, o real do véu que apaga aos olhos e libertam à alma, aonde o tempo pára e o sol se extingue.

Eu, talvez de um medo, não disse nada. Senti medo até de olhar pro seu rosto, no seu medo à morte, que pela primeira vez você experimentava.

“Eu queria apagar esse memória…” você diz, e bateu sua testa com a mão “… eu não queria lembrar disso”. Eu sofria, em vão, o despertar da conciência da vida, vinda ao acaso das palavras no mais singelo gesto humano: o medo a não estar vivo.

A dor em mim era aguda. Sofria por você enxergar a verdade básica dos que estamos vivos. Descobrias o pote mágico dos dias e os sóis nesta terra antropofágica. A luz no fundo do túnel.

Faz anos, quando eu tinha mais ou menos essa sua idade, também sem lembrar como, numa conversa entre meus pais e eu, havíamos caído nessa de falar sobre a morte. Eu não lembro da sensação do medo provocado pelas palavras, mas lembro de eles, tentando me fazendo esquecer daquilo, rindo da minha cara pálida e lábios roxos, dizendo mais ou menos, o mesmo que eu te disse: “assim é a vida, filho”.

Eu também tenho medo de morrer.

 

 

O silêncio das cidades

Seis da manhã, ou antes. O silêncio de uma basta cidade à beira-mar se quebra com os primeiros sinais do cotidiano humano irrompendo antes do sol quebrar a luz desta noite.

La Habana era silenciosa por natureza. Presagios de um convívio incomum com o que naturalmente acontece. Ninguém era abrupto. Ninguém no seu são existir revidava. Se era ou se era.

No silêncio das mais sutis manhãs o apito rouco de um trem de carga visitava todos os lares, um trem vazio, que avançava pelas frestas de uma cidade moribunda, que despertava para fazer o pão tardio, que derivava num refazer de fachadas desgastadas, ou de vidros umedecidos pelo orvalho caribenho de uma ilha à deriva.

O silêncio era a práxis. O refrão da canção mais cantada.

Um barco que abria uma senda no mar calmo de uma baía moribunda. O apito era oco e respingava nas ondas oleosas de um mar calado e putrefato.

Do alto das colinas da Víbora eu escutava antes do sol queimar as casas velhas do meu bairro silencioso. Andava, escadas acima, até a laje do prédio, e no frio matinal de essas horas, eu escutava o grito silencioso das nuvens que se penduravam de esse último amanhecer.

Hoje, eu acordei naqueles ruídos miúdos da minha outra estância. Vida que estilhaça minha memória terráquea, infância de este outro corpo, entre barulhos sinceros de um presente que me abraça.

Esta cidade é calada, a pesar do ruído do tamanho de suas bordas pragmáticas. Homens gritam pelas dores, e calam a raiva e o amor de seu raríssimo existir.

Um galo canta nas mesmas cidades do meu tempo. Um galo antecipado y sedutor que acorda bem antes de todos os seres e grita sem pudor de estar vivo. Eu o escuto, tão antecipado e sedutor como meu irmão de penas e grasnido.

Eu estou vivo.