Barbapapá

Aos poucos meses de nascido, Benja, a mamãe iria voltar ao cotidiano laborar, por inevitável conseqüência, de eu também estar na época trabalhando cada dia da semana, teríamos que te colocar numa creche.

Eras pequeno demais, miúdo nos gestos, um bichinho de avulsos prantos, sorrisos e sons quaisquer. Eu te achava vulnerável à cidade: aqueles barulhos, o ar seco poluído, as pessoas desconhecidas, tudo me era raro.

Acho que não duvidei, e pedi para sair no Projeto Quixote. Era minha primeira, e até aqui, única vez que estava com carteira de trabalho assinada. Fizemos acordo, e recebi os benefícios. Não era muito dinheiro, aliás, na real, quase nunca é.

Então a partir de certo dia, e pelos próximos meses, eu fiquei cuidando de você. Daqueles tempos guardo belas lembranças de quando você começava comer, das papinhas que preparava em vários sabores de legumes e grãos, e que congelávamos para usar durante a semana. Dos instantes inteiros, entre brincar e dormir, entre choros e risadas, entre o exaustão do dia e o exaustão da madrugada.

Já nessa época, começamos visitar a praça Buenos Aires, que ficava perto, andando dava menos de dez minutos, e ali foi que você aprendeu caminhar. E foi lá, que cotidianamente conheci muitas babás do bairro. A configuração era mais ou menos esta: todas mulheres, tinham que se vestir de branco.

Com o tempo, fui fazendo amizades, ao final não era difícil pois as crianças brincavam juntas, pediam os brinquedos das outras crianças, sempre precisava-se de uma fralda a mais, ou enfim porque compartilhávamos os lanches, os aprendizados e as experiências.

O mais raro para elas era compreender que era eu, o pai, quem cuidava, quem preparava as comidinhas, o que não estava trabalhando para pagar as contas de casa.

Para mim, começou o entendimento da criação de muitas famílias. A maioria já tinha filhos próprios, que deviam deixar com alguém, muitas vezes outras babás, para poder cuidar daqueles filhos de outras pessoas. Tudo ficava mais raro ao eu perceber, que aquelas mulheres eram totalmente diferentes no jeito de viver, que as famílias para as quais trabalhavam. Ou seja, entre as crianças e aquelas profissionais, existiam uma fenda social e financeira que atravessava inevitavelmente o aprendizado e a sociabilidade daquelas crianças.

Na prática, elas eram muito cuidadosas com as crianças, sempre atentas, eram minuciosas na atenção e, sobretudo, muito prestativas com suas outras colegas de profissão. Na praça emanava uma sensação de comunidade que poucas vezes vi na cidade, acredito que no afã do cuidado do emprego, que com certeza era o principal sustento daquelas famílias.

Outra coisa comum entre elas, à qual, pouco a pouco foi tendo acesso com a confiança durante aqueles meses, era que a maioria guardava duras críticas às famílias para as quais trabalhavam, sobretudo na falta de afeto e cuidado para com os próprios filhos; e entre si, fofocavam das maneiras de viver dessas famílias de classe media alta.

Ainda compartilhavam naquela irmandade da praça, uma certa raiva velada, enfim por não estar com seus próprios filhos  pela obvia necessidade de manter aquela profissão de cuidar de outras crianças.

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