O novo ano de Milton

Pelas frestas das janelas, o murmúrio de alegrias alheias inundava o neutro sorriso do Milton. Ele degustava um cigarro, um som qualquer na rádio, e no copo esquentava uma cerveja. O olhar fitado numa sombra, avesso impresso da árvore, lá fora no quintal de casa, e agora invadindo a parede de dentro.

“Quer fazer um brinde?” pergunto-lhe a Milton, alçando meu copo gelado, tentando celebrar alguma alegria nossa. Eu sorria da cumplicidade do encontro.

Eu e ele à sombra da árvore: afora, avessa; aqui dentro, escura.

“Um brinde…” cuspe Milton, e engole a cerveja dele, “… nos merece mesmo isso” e levanta o copo em direção de mim, vazio.

“Muita saúde…” eu aproximo o meu, “… para nos” e batendo os copos, fito meu olhar no dele, e no mesmo instante, escutamos a explosão de um fogo de artifício e o copo cai da minha mão, fazendo aquele barulho úmido no chão de vidro quebrado.

“A Terra dando mais um giro entorno do Sol…” Milton murmura enquanto eu cato os cacos; ele dá um gole direto da garrafa de cerveja. “… e nos dando mais uma volta entorno de nos”.

Estouraram mais uns fogos em seqüência. Uns cachorros latiam. A alegria alheia transbordava dentro, as avessas da sombra da gente. Rara essa maneira de comemorar o fim de algo na linha infinita do tempo, nessa rara infinita forma de nos.

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