Fidel: comandante ou ditador?

… toda memória merece uma lágrima e um sorriso

 

Eu nasci, e ele estava ali; provavelmente presidindo um discurso da fé patriótica versus o medo do ataque inimigo. Era o ano de 1980. Anos depois, nos primeiros agostos da minha infância, lembro-me vagamente de uma imagem colada, em cores gastos de chuva, na porta de casa; um adesivo do líder verde-oliva, perto do olho mágico que brilhava na calçada.

Hoje esquecido na larga memória, as primeiras vezes do nome dito, no clarão dos ensinos escolares, do herói militar, seguidor dos ideais do Apóstol – nome que se dá José Martí, principal pensador, poeta e intelectual cubano neocolonial – , contra à tirania militar nos anos 50, o salvador, triunfante, o quase agradecimento pátrio-paterno, por ter crescido no seio da minha – e de todas as outras – família, merecedores do processo libertador, emancipador de uma nação, da minha ilha, e por conseqüência histórica e geográfica, o também devir de um continente e de um processo político regional. Ele era essa rara espécie de deus que governa os dias e os destinos, como os Deuses já guiaram os romanos, os gregos e ora,  guiam tantos os todos humanos que sobre a Terra sobrevivem. O Deus nas paredes do meu país levava o nome de Fidel.

Na escola havia um retrato na direção e outra na secretária. No mural de informações sempre uma das frases das tantas proferidas. Murais de rua pintavam seu rosto barbado. Na televisão, era garantida a íntegra de seus discursos, a repercussão das decisões da Revolução que ele encabeçava, no âmbito de nossa ilha e no mundo afora.

Nas noticias e no governo, Fidel estava em todas as conquistas revolucionárias, como idealizador e condutor. Nas ruas, era também responsável por tudo quanto era de ruim na sociedade, numa clara isenção da responsabilidade pessoal dos indivíduos.

Nas casas, no recôndito do silêncio familiar, entre uma refeição e outra, entre um apagão e o próximo, entre as filas do bairro, entre as notícias da televisão estatal, nos ônibus escassos e muito baratos, nas comemorações, praças públicas, eventos políticos, nos bastidores da sociedade que aceitamos – as várias gerações de cubanos– havia uma sensação de gratidão e decepção pelo grande pai Castro.

Era dele, a responsabilidade pelos logros sociais e os dogmas ideológicos na educação. Pelas medalhas nas Olimpíadas e pelas deserções nos Pan. Dele eram os destinos dos médicos em países amigos e pela falta destes no posto do prédio onde eu morava. Eram dele, os que estudavam nos países do leste europeu, e os que morriam em balsa tentando chegar aos estados norte-americanos. Eram dele, os refugiados das ditaduras latino-americanas e dele, os cubanos exilados políticos em Miami.

Eram as crianças sem fome, os adolescentes sem sonhos, um povo assalariado, uma diáspora raivosa, alguns intelectuais do terrunho e outros tantos já emigrados, alguns poucos com tudo bem arrumado em terras e imóveis, a ausência de milícias ou paramilitares, os militares no comando, zero narcotráfico, uma imprensa do governo, um bloqueio dos norte-americanos, todos os países não-alinhados, sempre as ótimas alianças políticas, e ele, grande líder: El Comandante.

Desde pequenos ouvi falar do fim daquela dinastia – há palavras para tudo! –, e com isso brincávamos naquela adolescência tardia da crises dos noventa, entre conversas quase silenciosas nos fundos das casas, ninguém se acostumava com o desacerto do insosso futuro que nos esperava, éramos o povo-à-deriva, o real maravilhoso da invenção do que ainda não era e nem seria. Acho que por lá, muitos  desejavam aquele final do deus humano: “o que será de nós, o dia que Fidel morrer?” ou na aquela forma mais intuitivo e primitivo desejo da morte, em profundo medo da nossa própria morte? essa mediocridade quando se detém o poder das próprias e justas ações individuais, em detrimento do poder de um governo, e suas leis.

Todo ano que virava, a duvida vinha: “será este ano que el Fifo vai morrer? ” Era um desejo de ver a monotonia mudar de rotina, não por vontade própria, nem ação popular, não por proposta da força de um povo, o meu; ainda bem menos, ou pior; no comum da morte de um ser, neste caso o mesmo poder em pessoa, um rei, um herói, um soldado, um comandante, um ditador, um militar, um pensador, um manipulador, um estadista?

No ano 2000 ou pouco mais – no tempo da minha memória-vitral colorida e orquestrada– o Fidel, havia ido re-inaugurar uma escola na esquina de casa onde eu morava. Foi a vez que mais próximo estive daquele homem: o bairro estava mobilizado para a ocasião, carros policiais circundavam a região, a avenida foi fechada, a multidão fechava um círculo entorno a escola. Cheguei lá, lembro que por impulso da minha irmã ou mãe, não sei bem: lá estava descendo, vestido de verde, alto e imponente, cumprimentava e despedia-se acenando adeuses – a los dioses? Em mim, lembro da energia que vibrou ao meu redor e me contagiou, era um calafrio natural diante da presença humana de um deus.

<< Fidel Castro morreu >> simples assim. Pessoas morrem, não era deus nenhum. O mundo se manifestou, e depois obviamente se dividiu. Os cubanos, a maioria, se dividiram: COMANDANTE ou DITADOR?

Pensei em meus amigos que ainda moram lá – Cló, tú? Tan triste febril, tan festeira –  haveriam comemorado a morte, gritando trás janelas fechadas com medo de ser por alguém recriminado? Minha mãe, meu pai: haveriam chorado a paz de todos estes quase sessenta anos, os anos doados, os plantões cumpridos, o serviço militar, as horas voluntárias? Minha sobrinha, que hoje ainda na escola estuda que o Fidel fez a Revolução que garante ela estudar numa escola pública, a mesma escola onde eu vira de perto ao Fidel;  como seria para ela presenciar a morte de um deus de suas páginas. E minha mais nova sobrinha, menos de um mês de nascida, o que será que ela saberá deste dia, que lhe contarão nos livros de História, ou nos mesmos, a família.

Eu tive um dia desses na rua: sem celular, sem jornal, sem televisão. Não acompanhei os debates entre as hordas  nas redes sociais. Eu – neste minuto, três dias depois dessa morte – ainda não me escrevi uma palavra com minha família na ilha. Eu não senti nada especial naquele instante sobre a morte daquele ser. Não havia mágoas algumas. Também nenhuma gratidão. Pensei que talvez um dia, meu filho me perguntará como era aquele homem, ao final: “que o tempo passa, e tudo se esquece, ninguém ficará para memória ulterior”.

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