Ordem e respeito (ou o silêncio que gritou por nós)

Ontem caminhávamos, hijo, um perto do outro. Atravessando as ruas e as calçadas do bairro onde moras. Depois da escola, o almoço na avó e a piscina; íamos em direção ao metrô para irmos ao dentista. Acostumado andar sozinho, porém perto, pelo horário pedi para irmos de mãos dadas.

Eu, desse gesto costumeiro, citadino e humano, não sou adepto. Minha mão sua, minhas pernas tremem, mudam o passo, até às vezes dou uns pulos. Eu de mãos dadas, não gosto desde que era adolescente.

Você, ao contrário, não queria; apesar de que naquela hora, as pessoas andam muito depressa, com aquela vontade insana de voltar para casa, apenas olham para frente, a mente alheia, pensando em tortas e urgentes necessidades.

Você fechou a cara. Fez bico. Ensaiou um pranto.

Eu argumentei ao perigo. Aleguei à pressa. Exigi respeito.

As pessoas que passavam então olharam. Um menino veio se aproximar, dizer alguma coisa. Eu não deixei, pedindo que me deixasse falar com você. Um segundo depois, havia dois policiais militares, pediram meus documentos. Eu pedi, para continuar falar com você. O policial exigiu respeito cidadão. Eu retruquei pedindo meu direito paterno.

“Você me dá seu documento” o fardado, alto, armado, vociferava.

“Posso falar com meu filho?” respondi, com uma calma fria, que por dentro queimava.

“Não, não pode!” ele era a ordem, “eu preciso terminar de falar com meu filho” e eu um cidadão.

Ele alegou à diferencia cultural, acredito que sentiu um sotaque, e diz que eu devia obedecê-lo. O tom era áspero.

Eu perguntei se ele era pai. Ele era. Pedi para que ele me compreende-se enquanto pai, e que me deixasse enfim, terminar minha conversa com meu filho. Eu fui enfático.

Ele disse “você tem um minuto”.

Daí eu te lembrei do porque que eu queria que você fosse de mãos dadas, lembrei da pressa, o dentista, e ressaltei daquilo que repito “não gosto de estar chamando atenção” (algo que se opõem a minha extrovertida figura em âmbito amigo-familiar).

Você escutava em silêncio. No olhar pingava uma raiva da birra entre nós, uma vergonha daquele momento, o medo por aqueles policiais ao redor. Seu rosto era gigante, e me olhava firme, no fundo dos meus olhos.

Puxei a carteira. Dei meu documento e “este é o documento do meu filho” eu disse.

Ele conferira. Explicou que alguém tinha ouvido nos conversando, e haviam achado estranho (sim eu de cabelo crescido para cima, gadelha mundana dos meus pensamentos, o preto cimarrón da preta da minha avó, minhas roupas quaisquer, com qualquer um dos meus sapatos, as meias cruzadas, mochila rasgada e o japamala, e você louro, bonito garotão, de sobrenome judeu, e olhos mel, andando comigo num bairro burgués… eu sei o que eles achavam estranho).

Eu falei que era que não tinha nada o que fazer com a vida deles.

O policial disse que eu entenderia se fosse alguém tentando levar meu filho.

Eu falei que aquilo era o dever dele, e o meu, educar você.

Ele perguntou se estava tudo bem com você. Você assentiu, sem falar. Ele perguntou se sabia onde estava indo? Você assentiu, ainda sem falar, com os lábios apertados, numa rara mistura de bravura e desdém.

Eu disse que você podia falar. Você disse então que íamos ao dentista

O policial então devolveu meus documentos.

Nós, prendemos nossas mãos, e fomos a pé. Juntos.

Na esquina, antes de atravessar a próxima rua, me detive de novo para conversar. E te falei, seco, e firme, olhando aos olhos aquilo que te falei: o que foi, isso sim, fica entre nós dois!

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