Solidão de ser homem

Ontem passei te pegar em casa, Benja, “coloque sapatos, vamos dar um passeio”. Você perguntou onde íamos, justificando que acabavas de brincar “la embaixo” e eu respondi que íamos numa manifestação na avenida Paulista. “Manifestação do qué?” a pergunta era óbvia, pensei; porém eu não sabia bem a resposta.

Seria o ato Todas por elas, em apoio à menina “violentada” no Rio de Janeiro alguns dias antes; como te explicaria isso?, minha cilada; “na marcha das mulheres” eu disse, e você mais confiante em mim do que no convite, terminou de se arrumar e fomos.

Eu queria te deixar por perto de algo que havia atrapalhado minha vida: um país e costumes  bem machistas, que me afastaram sempre de nuances afetivas menos polarizadas, além de um consenso social que havia feito errar tantas vezes nos relacionamentos. Ali era eu quem te pedia, ocultamente, uma companhia para o homem que eu era, e que também aos poucos, tornasse outro homem, melhor, no momento que se tem um filho.

No trajeto era evidente o movimento: meninas de rosto pintado, viaturas e motos de policias, helicópteros, a avenida apenas sem carros. No seu afã de descoberta da leitura, você perguntava o que estava escrito em cada cartaz: Ser mulher sem temer, não a cultura de estupro, a culpa nunca é da vítima e assim vários, eu ia lendo.

Aproximamos-nos da concentração, e lá fomos ouvindo os cantos. Não demorou muito para começar a marcha. Era unânime a presença: somente mulheres. Meus olhos eram somente para não te perder de vista, apesar de que sabia que entre elas ali, haveria tantas amigas para abraçar e estar perto.

Vimos um sinalizador e você me disse “olha pai é uma menina quem está segurando” sua surpresa não era minha nessa hora “é Benja, é só menina mesmo” nos aproximamos “e porque elas estão se manifestando?” nessa hora eu já não fui pego “aconteceu algo ruim com uma jovem no Rio, ai as mulheres se organizaram em apoio a ela”.

Também havia muitos policiais “NÃO ACABOU TEM QUE ACABAR EU QUERO O FIM DA POLICIA MILITAR” e obvio que isso chamava sua atenção, eu disse “eles não gostam muito das pessoas se manifestando” estavam por todos lados, beirando o ato “tem uma hora que começam lançar bombas, são perigosos” eu disse, e você ficou alarmado “aliás…” eu sorrindo “eles estão detrás de você” e seu susto fui visível “eu também não gosto” eu disse e você continuou “eu estou com medo, pai” e não era para menos.

Você começou puxar a caminhada mais depressa, querias chegar ao começo da marcha, ver de frente, “EU BEIJO HOMEM BEIJO MULHER TENHO DIREITO DE BEIJAR QUEM EU QUISER” eu ia cantando junto, quase chorando, sabia. Os homens fomos criados para pensar apertado, sem muita assa para as sensações. Ali uma espécie de liberdade – espécie porque a liberdade se conhece no amar e não, de fato, no lutar – ecoava entre as tantas vozes e gritos, era lindo ao menos para mim, te ver ali de olho aberto, enxergando algo que eu jamais vira na minha infância: tantas mulheres juntas lutando por elas.

Lá, quase antes de nos separar do ato, na descida pela Augusta, um casal com criança de colo, veio nos entrevistar. Queriam saber o porquê de eu ter levado você lá. Eu emendei algumas respostas, nem sei bem no nervoso de um gravador e uma câmera se falei bem, mas o que eu sentia eu sei: Eu tenho certeza que você será um menino bem mais mulher do que eu já sou. Tomara que isso garanta minha esperança, de que você sofra menos a solidão de ser homem.

Guia Fora da Casinha

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