Espelho de giz na calçada

Fui de uma calçada à outra da Avenida Paulista, subitamente. Olhando de perto, o que do outro lado parecia distante; e agora no longe o que me parecia tão meu. Troquei somente de calçada sem nenhum motivo qualquer. Aliás, aqui entre-nos, faço isso sem pensar, nem predeterminar muitas vezes quando estou nos fluxos pela cidade.

Isso além de ser somente uma escolha fútil, na maioria das vezes não dá em nada especial, apenas o fato de eu mudar de calçada.

Hoje, porém, a calçada estava tomada por fileiras de palavras escritas com gesso. Estas avançavam vindo do asfalto em direção do muro, bem na frente da última casa antiga da avenida, ali na altura do 1909.

De chinelos, de joelhos, de toca até as orelhas, aparentemente bem agasalhado, com a pedra de cal na mão: um homem escrevia. Não me interessei pelo homem: apenas naquelas palavras dele.

Parei para ler desde a primeira linha, e para ler, era necessário ir se deslocando no compasso dos rascunhos brancos, à direita – isso poderia parecer óbvio – por ao menos cinco metros e em algumas frases, um pouco mais.

Eram passagens da vida dele, através do seu filtro filosófico, algumas cenas de violência, sua intuição literária, a experiência lingüística dos seus traços, unido à força da suas mãos, a tristeza eminente de seu passado, as mágoas e os perdões, palavras de ordem e amor, de desapego e altruísmo, de magia e conjuras de outrem, vários desejos devaneios fugazes percursos de o seu acontecer e existir.

O homem permanecia em si, escrevendo, e não se importava comigo, apenas com as palavras dele. Os transeuntes evitavam caminhar sobre os escritos, e menos, não se importavam com nos: um homem escrevia, outro que lia no compasso das letras de gesso.

Eu me vi no espelho de giz no asfalto: as escolhas determinantes, os acasos ocasos do horizonte, minha própria outra calçada, escura e cintilante, com minha pedra de gesso, as minhas palavras dos gestos, eu escrevia de joelhos, outro homem em pé quem me lia.

Chorei paz no silêncio da cidade, dentro do meu abraço e meus pensamentos.

No fim do texto, o homem não estava mais lá. Seu nome assinava o manifesto na calçada, espécie de tag do efêmero sob pisadas e futuras garoas. O enxerguei lá, do outro lado, onde começava o texto – sorte de metáfora da outra calçada – e desta vez por impulso do etéreo, por sede do encontro, e agradecido pelo momento fui até lá.

Apresentamo-nos, de voz e de mãos. Perguntei se ele aceitaria um casaco de lã – algum presente de há anos –, já abrindo a primeira jaqueta que eu levava por cima. Ele a aceitou, e aceitou um caderno de notas novo, e uma caneta preta – havia outra vermelha.

“O caderno eu estava muito precisando” agradeceu e o hálito esfumaçou a voz. Eu lhe agradeci pelas palavras de gesso, uma outra calçada na avenida de mim, e me despedi.

Copiei seu pseudônimo de artes no fim das palavras, outra vez do outro lado deste começo: SANTOLIVE ZIRANCHINHO.

Sobreviventes!

 

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