Milton sem mim

“Quem seria esse bicho andaluz, quando não estava por perto de mim?“ me perguntei ao espelho, me olhando. A voz esfumaçou meu reflexo, e não me vi mais.

Essa era uma dúvida do existir. Um silêncio neuroses. A voz em forma de eco interior. A resposta sem horizontes da explanação.

Quem era esse ser quando sumia na cidade? Como seria entre tantos outros seres com outro existir? Como seria aquela voz sem eu lhe escutar? Como seus passos sem meus pés? Sua silhueta sem minha sombra?

Eu me multiplicava em dez mil eus tentando saber tudo sobre ele. Tudo sobre mim sem ele, e vice-versa.

“Quem é você, Milton?” era o meu amor querendo saber dos opostos. Entender a ausência fugaz. Perceber o eclipse do ser. A lua interior no centro do Sol.

Na ausência dele, faltava-me um infindável eu, um buraco no meio de mim. Eu chamava-o sem ele responder. Eu intuía-lhe sem ele aparecer. Era um fantasma a falta dele em mim.

Então, às vezes Milton aparece nesse justo instante da comoção à beira do abismo “que acontece rapaz?” era a certeira aparição, avalanche do súbito entendimento de que eu era pouquíssimo sem ele, sem mim.

“Medo de ficar sozinho?” ele perguntou e o eco despencou abismo abaixo, eu com ele, na voz dele de mim. No escuro, eu ainda enxergava o rosto irônico dele, o meu medonho, o humano dele dentro do meu: cara ou cruz.

Minha voz não emanava, sumia no vácuo daquele som interior, num silêncio perpetuo: o som da solidão.

“Psiu, psiu…” ele cutucava meu medo num raro jeito dele sobreviver.

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