dançando na contra-mão

Caminhar na contramão, e ver os cartazes da crise: VENDE OU ALUGA! Revendo o aluguel ou alugar as vendas.

Vejo os rostos vazios dos vazios armazéns. Não precisamos atendentes. O preço da banana-mignon subiu. A cena real despencou.

O moço que vassoura a calçada me sorri. Eu danço um abraço distante, devido ao auge do macho-papão. Conformamos-nos com a solidão dos dois indivíduos: ele vassoura, eu danço. Parecemos felizes naquilo que somos, ele e eu.

Eu peço a vassoura, e peço que ele dance, tentando ir à contramão, mas ele é feliz na poeira. Eu só queria tentar.

Vazo…

Vejo as pessoas nos seus carros. Um no volante, a moça digita no celular: eles não se olham, talvez nem nunca mais se olhem. Outro entre o quente do asfalto e do sol, dos vidros abertos,  e o braço para fora pingando suor, não engata nem um sorriso, mas bem alavanca um xingo no próximo condutor.

Eu, na contramão, flerto com minha língua, pingando a baba do mesmo calor, a pé não há trânsito que detenha meu avanço, nem setas que precisem avistar, nem luz no retrovisor, apenas o fluxo do adiante, dos pés sobre a sombra, da fome no espírito, lembranças de cada acalanto, do trino do amor.

ME VENDO E ME ALUGO, diz o cartaz da minha crise. O rosto vazio da sem-emoção. Sorriso do efêmero, faróis piscando, energia esgotou.

Caminho sem crise, dançando esta rara sinfonia da solidão. Vejo uma vassoura largada no chão, sem moço ou sem moça. E continuo dançando, sozinho.

Eu só quero tentar…

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