Ofício de livros

Íamos nos dois Benja e eu pela Paulista. Aquele rio de gente na contramão, florescendo ao sol e brilhando asfalto. Tinha banda de rock. Palhaçinhas fazendo bambolês. Havia rifa por causas feministas. Gente vendendo adesivos de impeachment. Forró ao vivo. Cantinho do acarajé. Tapioca. Brigadeiros. Toda a galera do artesanato, dos quadros, bonecos, cadernos para escrevinhar.

Você estava ansioso, “pai, cansei de andar…” perdia a paciência “quando é que vamos sentar?”.

Eu também estava impaciente: “Benja, peraí, vamos ver onde é  o melhor lugar”, coisa que eu não sabia. Mas íamos assim, sentindo, apalpando o momento exato de finalmente parar.

Eu havia lhe feito o convite de vender os livros em espanhol que estou a vender. Minha biblioteca ambulante carecia de sentido carregar. “Vamos lá, o que nós vendermos podemos comprar em brinquedos, que acha?”.

Você assentiu, e ainda replicou: “Eu vou levar meus livros também, posso?”.

Então, eu vi um homem silencioso vendendo livros de arte e arquitetura. Tinha uma cadeirinha. Uma placa anunciando o negócio. Um guarda-sol ou no caso daquele domingo, um guarda-chuva.

Ali sentamos perto dele, você e eu. Esticamos o pano vermelho. E fomos dispondo os meus livros. Você, da alegria, começou correr em círculos, aqueles giros intermináveis, entorno ao nosso enclave.

Oficio livreiro... Orgulho môr!!!

Oficio livreiro… Orgulho môr!!!

Daí, um casalzinho espanhol se interessou pelas Raízes do Brasil e levou. Você, empolgado, me disse de expor teus livros, e um por um, foste colocando tuas crias literárias. Aqueles manifestos da tua criativa infância. Ditados da tua mente, e ilustrados com tuas cores. Ias colocando-os e lembravas por vezes detalhes do momento que os havias feito. “Esse aqui foi o primeiro”, “esse aqui é de uma cor só”, “este daqui, é o que mais gosto”.

Eu te observava com a mais provável das emoções: um orgulho devoto observador silente. “Pai, mas se alguém quiser comprar meus livros, a gente não vai vender, verdade?” eu testei aquela sua certeza “e Benja, se alguém quiser pagar duzentos, quinhentos reais?” e você sem pensar, certeiro, “ah pai, a gente fala que é só para ler”.

Daí veio outro casal, a menina avançou, e você, desta vez, ofereceu seus cadernos. Ela folheou um, lendo-o de olhos brilhantes. Você abandonou o sorriso tímido, e surtou de oferecer outro e outros, “este aqui eu fiz ontem” e “este eu fiz no Rio de Janeiro”.

Ela perguntou como era que você fazia. Você de tanta alegria, falava, repetia as histórias, pegava da mão dela e dava outro.

Brincadeiras de papel: Uma cor só.

Brincadeiras de papel: Uma cor só.

Enquanto ela olhava o “Brincadeiras de papel”, ela perguntou se você sabia fazer barquinhos de papel, e depois da tua negativa, ela convidou para fazer. No fim daquilo tudo você disse “eu acho mais fácil fazer livros do que barquinhos de papel”, e rimos à toa.

Eles foram embora, levando um livro de contos de Ronaldo Menéndez que a menina prometeu ler, e ficamos ali mais um tempo, até que começou a chover. Ainda te dei uma bronca, porque mesmo já pingando sobre nuestros livros, você insistia em pegar do chão algum papel qualquer.

Na volta para casa, já no ônibus, você inquiriu “pai, porque é que a gente não vende os livros de graça?”, depois que eu justificara a minha situação financeira, e de te explicar a diferença entre doar e vender, você ainda me rebateu, “ta, mas um dia a gente podia vender alguns livros de graça!”.

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