Águas da vida

Chovia muito lá fora.

Na cozinha, fervilhava água para fazer algum cozido.

Chuverava dentro do banheiro, e você, hijo, divertia-se sozinho com aquelas histórias que você inventa. Eu entrei no banheirinho esfumaçado para tirar você de lá. Peguei a toalha.

“Pai, eu gosto muito dessa minha vida” você disse. Lacrimejou meus olhos pela simples frase, teu sorriso. Eu te secava. Bateu silêncio na minha resposta: não havia palavras.

“Vai ter outra?” você expeliu sem dar fôlego a minha surpresa. Era essa – minha – sensação humana de uma dor sem fundo.

“Vai ter uma…” consegui te dizer “… bela e longa vida”.

“Só esta?” era tua certeza surpreendida, mas consciente, e plena, de que esta seria nossa vida, única vida a ser vivida.

Eu segurei meu pranto, que agora com você brincando no quarto, consegui sem dor, chorar a vontade.

“É, Benja…” eu triste, querendo te mentir, mas não podendo “temos que curtir muito”.

“Sabia pai? As crianças também morrem”.

“Sei Benja, eu sei” a tristeza não doía, machucava, matava. Daí eu falei aquele discurso de se cuidar muito, de se divertir muito, de ser feliz.

“Mas, porque você está me falando isso, hijo?” era eu procurando um caís, um pé no chão para aquela dor que eu não mais segurava.

“Ué, só estou te avisando” você me disse.

Chovia lá fora um mundo. A água no fogo evaporava. Eu estava triste sem motivos. Você caminhava abraçado à toalha, ciente da vida, dos fluxos das águas.

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