Esquece, Milton

Milton caminha na minha frente, um abismo de dois passos. O olhar dependurado na paisagem entre ruas e fios elétricos. As pessoas vivendo suas vidas de passos simultâneos. Um rosto e duas sombras.

“Vê se esquece daquilo” – Milton solta e assinala a torre mais alta.

Aquilo representa o destino de certa verdade. Não há probabilidade. Carece de estatística. Olvidar é reaprender o caminho.

Milton avança agora mais leve, na malandragem acha um atalho ao tumulto. Dois pulos num muro. Uma barra de ferro. Uma corridinha de impulso e com um pique consegue correr entre dois guardas.

Ele era o ápice dos meus opostos. Uma insana corrida entre escadas de mármore, em círculo ascendente. Um cume.

Eu era a calma da espera, no meio do nada e o asfalto. Ele no ponto da haste mais alto.

“Se perdoa Milton” suspiro desse sorriso que ele me manda dos céus. Braços abertos no vento. E vejo que os guardas o prendem e o fazem descer.

Em breve ele aparece e se entrega ao meu abraço. Nos dois abraçamos no meio de todos os outros.

“Você achava que…” Milton sorri no meu ouvido. A haste balança-se detrás de seus ombros, lá na torre mais alta “… não há desejo que valha esta morte”.

Então ele me mostra o revólver. E vejo sua sombra começar a corrida, dois passos à frente. Um abismo. Eu mesmo, duas sombras.

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