Somente três anos depois…

No primeiro dia de 2012, ano que se pressentia triste e demorado, eu estava no aeroporto de Brasília. Eu estava regressando de uma dessas semanas de amigos e alegrias. Uma dessas de triste solidão interior.

Começava naquela época me acostumar à ausência do meu filho. Uma ausência pegajosa e perfurante. Pensava nele e uma lágrima despencava pela face. Os dias entardeciam num abismo. Sempre no mesmo abismo sem final: a morte.

Eu não conseguia me acostumar a esse afastamento.

Até esse momento, talvez nunca antes tivesse muito pensado no que seria a vida além de estes sucessivos dias e noites. Havia sido feliz sem me questionar meu futuro. Sem procrastinar o destino. Sem me preocupar com as conseqüências. Eu não sabia, nem queria saber, mas aquele dia começando o ano, era em certa maneira um novo ponto de partida. Talvez menos importante que meu nascimento. Talvez menos significativo que meu primeiro amor. Menos do que aquele adeus a minha família e aquele país. Muito menos que quando nasceu o Benjamín. Mas para mim, diante daquele salão envidraçado e repleto de desconhecidos era como o renascer da minha solidão.

Eu tinha quase todo um dia, esperando um vôo em direção de São Paulo e meu filho. Uma velha lembrança, um quase desejo me inundou. Comprei um caderno e uma caneta. Para mim até a mais simples das compras terminam por me atormentar.

Ali sentado numa mesinha em meio de vários comércios e gente comendo, escrevi uma carta para mim. Uma carta sem envelope nem endereço para entrega, mas uma data marcada para voltar a ler: 20 anos. Sim, vinte anos longos, dolorosos, solitários, estupendos, fantásticos, famintos, necessários, amorosos, rancorosos, esquecidos onde quer que foi.

Vinte anos para fazer e desfazer todas minhas conjuras, meus desejos, promessas e sonhos. Vinte anos para viver estes próximos vinte anos, sem juízos, os desculpas, sem medo, sem revés. Vinte anos somente para esperar ler aquilo que já não lembro mais que escrevi, mas que está ali dentre minhas poucas pertences, sem selo nem cadeado, dentre meus livros e sapatos.

A carta que eu escrevi para mim…

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