A metamorfose do peixe

Um dia qualquer, Gregório Samsa, acordou transformado num brilhante, prateado e liberto peixe. Ao começo, achando que tudo aquilo era um sonho, não percebeu que era de extremadamente urgência cair na agua. Gregório Samsa, como qualquer outro humano, não acreditou nele mesmo, e ali, ao pé da cama, morreu.

Gregório Samsa era eu mesmo, acordando de um sonho que podia ter sido meu ou que nunca aconteceu.

Diante daquela sequidade mortífera, eu acreditei em tudo aquilo e em mim, e dei um pulo magnífico: eu cai num copo d´agua.

Era um líquido aquoso, transparente, inodoro, sem-sabor e mais do que suficiente para sobreviver.

Gregório Samsa ou eu, descobrimos que era o justo necessário para viver: nadar livre na onda sem fim; tinha a luz infinita que atravessava o vidro e o mar; haviam todos as figuras possíveis que fossem possíveis imaginar: todas.

Gregório Samsa imaginou uma barata. Eu sonhei um pescador. Gregório queria uma bailarina, e eu um despertador. Gregório desejava mais que sete ondas de mar, e eu uma paz com orvalho, e grama verdinha, e areia finíssima, vários coqueiros, e um abacateiro, e uma página branca para escrever. Gregório queria dormir, e eu que ele voltasse sonhar que era eu.

A primeira onda era mansa como uma carícia, como um dengo, como um piscar. Ele sorriu da sua potência para se consagrar, e eu, abri os braços-aletas e deixei que agua viesse me inundar.

A segunda onda apareceu sem avisar. Chamou pelas costas e nos abraçou. Gregório Samsa desacreditou, e quase o peguei no fundo do copo d´mar.

Entre essa onda e a terceira, levei uma bronca do resgatado, pois não se brinca de vida e morte na vida real. Se vive e se morre, é tudo um simples piscar. Entre verbo e ato, eu vi o sol se arrastar e um terrível despertador avisar: era o começo de tudo e fim do que estava por começar.

A quarta onda nos pediu licença. Eu dei trezentas voltas em torno de mim. Cada vez eu sonhei este sonho maluco e cada vez houve um distinto despertar. Num dele o Gregório Samsa chorava por mim. Eu estava inerte, e sem fala, sem direito ao sonho e seu despertar. Ele chorava e suas lágrimas iam caindo sobre mim, mas eu não conseguia acordar. Estava morto nessa volta da vida. Mas era só o principio de um sonho de trezentas voltas entorno de mim, e eu não tinha medo de vê-lo chorar.

Eu disse ao Gregório Samsa, tem sempre uma nova onda, uma quinta mais forte capaz de tudo desequilibrar.  E não foi, que o desejo dele era mais real que o nosso sonho comum, de peixe brilhante, prateado e liberto num copo d´agua de mar? Então mergulhamos naquela que era impossível de pular, impossível de sossegar. Era necessário um novo tombo, desta vez quase sem fôlego e quase já sem acreditar.

Gregório Samsa acordou à beira do mar. Sentiu o orvalho, a grama verdinha acariciando a mão, areia finíssima, uns coqueiros, abacateiros e minha mão. Eu imaginei a sexta onda em forma de redemoinho, e a vida no meio correndo perigo. Gregório era o náufrago de mim mesmo, e eu o destino sem rumo daquilo que ele não tinha vivido.

Gregório Samsa desejava suas sete ondas, e essa última bateu só de levinho nos pés estendidos, o corpo inerte e sem fala, sem direito ao sono e ao seu despertar.

Ele pensava que aquilo era somente um sonho. A vida num copo sem vidro e nem beira. Um sonho sem despertadores nem rumos divinos. Eu era um peixe prateado, brilhante, liberto. Gregório Samsa meu espelho de orvalho.

Um copo d´agua num vidro. A vida atravessando na luz o destino.

 

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