Arco-íris discreto (o primeiro livro)

“Pai, vamos fazer um livro” disse-me Benjamín ontem de noite.

“Como assim fazer um livro Benja?” Era eu, adulto fardado de dúvidas e lógicas, já tendo feito livros ou escritos que depois viraram livros, estava mais para que ele me lesse uma história e ficar dormindo antes de chegar ao fim.

“É a gente vá fazer o meu livro” disse ele, e o meu ego artístico ainda não se manifestava o suficiente como para pedir dele semelhante feito. Bem que eu não espero nada dele, mi hijo, somente que ele seja gentil e educado e respeitoso com os outros, mas esperar que ele siga meus caminhos literários é uma pretensão que nunca me ocorrera imaginar.

Lá fui eu, na precariedade cotidiana noturna litorânea, pegar umas folhas sulfite e um grampeador. Alinhei. Dobrei ao meio. Pressionei para grampear. Ele ficou feliz, e eu, que aquilo não teria sido nada complicado.

Tínhamos o miolo branco. Dei na mão dele.

“Vamos fazer primeiro a capa” disse.

“Como vai chamar o livro?” perguntei, tentando dar um rumo aquele branco todo. E ele, sem duvidar, como se soubesse de outra vida, como se já tivesse tudo pensado e friamente calculado: “ARCO-ÍRIS DISCRETO”.

“Ótimo título” meditei, sem dizer. Chamava à atenção. Tinha mistério, e ainda um personagem colorido, cheio de significados para qualquer um. Uma figura mágica que nasce da luz e a chuva. Algo que quase todos, gostamos de ver.

“E você sabe o que significa discreto Benja?” questionei. Ele não sabia, disse rindo pra mim, sapeca. Expliquei-lhe da minha maneira, daquele jeito.

“Então seu nome vá aqui” era eu sobre por o nome dele na capa, ao qual ele se recusara firmemente: “Não precisa pai”.

Dai começou a aventura do Arco-íris discreto. Ele iria ditando as falas enquanto eu escreveria. Depois ele iria ilustrando: giz em mão, canetinhas, lápis de cor.

Íamos avançando nas peripécias: Arco-íris mutante, discrição que acabara, o encontro com o sol, depois a lua, a chuva, as montanhas, a inspiração que o fez se tornar de uma cor só, e o desmanche dele e como consequência do mundo. O fim.

Uma sequência dramática avulsa, sem regras do ser ou do ter que. Uma criatividade delicada. A cada página, ditada e desenhada, uma alegria que poucas outras vezes reconheci. Era o prazer da criação e do criador.

Ele ia colocando as frases. Escolhia livremente as cores.

Eu era seu escrevinhador. E eu estava muito mais feliz do que nunca antes fora. Meu ego literário, pela primeira vez conscientemente, presumia cores e tamanhos incríveis, inimagináveis, irrestritos e infinitos. Tudo que todos estes anos escrevendo histórias resumiam-se a simples felicidade de ver ele, estar feliz, escrevendo seu primeiro livro.

Disse-me “temos que terminar logo, vai ser o livro que a gente vai ler hoje antes de eu dormir” eu não chorei de orgulho, mas a sensação foi uma queda livre em direção do prazer, da satisfação plena; em voo livre em direção do amor.

Ainda, na hora da leitura final, já deitado prestes a dormir, comentou “ah mas esse livro é muito curto” e nem era (sorrindo) “tem que escrever mais”.

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Arco-Íris Discreto por Benjamín

 

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2 pensamientos en “Arco-íris discreto (o primeiro livro)

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