O melhor emprego do Milton

Milton perambula à noite pelo lobby da hospedagem. Faz uns meses ele fugiu da grande cidade para viver cerca do mar. Eu tive que vir.

“Aqui eu consigo respirar” disse ele e puxa num bocejo um pedaço da madrugada caiçara.

As estrelas estavam tímidas pela luz da lua. Umas nuvens dançavam no horizonte.

Milton arrumou um desses empregos que precisa ficar sorrindo. Recebe turistas em dezesseis línguas. Carrega as malas daqueles que sente pena, e não aceita gorjeta.

Sempre no entardecer, vai até a beira-mar, e em silêncio faz uma preze por mim. Eu que sou agradecido, lhe ofereço um cigarro do verde. E juntos vemos o sol se pôr.

Toda madrugada percorre as habitações à procura de uma que não esteja alugada. Vasculha os odores de quem por aqui ficou. Interpreta as dobraduras dos lençóis. O que restou no frigobar. O desenho das pegadas na poeira do chão. Os pingos de agua perto do chuveiro.

“É assim que você conhece uma pessoa” sentencia Milton, enquanto cheira uma fronha listrada. Daí ele alarga a mão e me passa o tecido.

Depois Milton me leva até a porta, me despede, e fecha por dentro.

Eu fico ali, ouvindo-o mordiscar uma melodia. Do lado de fora, eu aguardo ele desligar as luzes. Nem sempre consigo esperar, e durmo sentado numa escada ou deitado no jardim.

No outro dia, ele está de novo feliz e convicto de si.  Diz-me “Vai ser difícil irmos daqui” e se vá com pressa, receber um turista alemão “Enchuldigung, ich Bin Milton“ inspira profundo e sorri, depois pisca um olho para mim “wie gehts mein Freund?“.

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