A mudança que não chega (um dia histórico de San Lázaro)

Era dia de San Lázaro em La Habana. Por ser de Babalú ayé as pessoas vestiam roxo. De manhã cedo, uma ligação interrompeu a preparação das minhas malas. Liguem a televisão: Cuba liberará o espião prisioneiro norte-americano Alan Gross em troca dos outros três espiões cubanos detidos há mais de dez anos nos Estados Unidos.

Na televisão os noticiários anunciavam o exercício de dois governantes, que nalgum ajuste secreto davam um passo histórico para duas nações há muito tempo brigadas no cenário político internacional. A maior potencia mundial e uma ilha pseudo-comunista, e com essa canetada mudavam os rumos, não só de quatro prisioneiros e suas famílias, se não talvez agendando um capítulo na história.

Essa mesma manhã eu estaria viajando de volta ao Brasil. Não veria acontecer aquele papo radio-bemba cubano onde o que não se fala, se disse, se comenta nas esquinas e nas filas. Na televisora Telesur faziam link com o jornalista em New York mas a rede nacional cubana, cortava a transmissão direta dos Estados Unidos por um comunicado repetitivo e sem mais informações. Raúl Castro falaria ao povo cubano, ao meio-dia, hora em que os ex-presidiários cubanos estivessem em território nacional.

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O embargo acabaria, dizia-se em jocosas frases da família. Agora vai sim, e algo do tipo. Mas em Cuba, o ceticismo é uma das qualidades que dominam. Por não ter confiança no governo e as decisões. Por estar tão distantes dessas tomas de decisão. Por estas, tantas vezes, serem tão injustas em detrimento do próprio povo.

De fato, as mudanças norte-americanas, em forma de medidas, entrarão logo em vigor, beneficiando o que há de melhor lá: negócios, investimentos, remessas. Estados Unidos não quer perder para outros concorrentes, como o Brasil e China, os negócios com a ilha. Do ponto de vista histórico alguns cubanos exiliados reclamam os mortos e o tempo perdido no exilio, enquanto analisam se investir ou não na ilha de seus sonhos e suas fantasias.

Do lado do governo totalitário cubano, o discurso é de vitória sobre o imperialismo. Em La Habana, os cubanos terão que logo gritar consignas de vitória sobre o imperialismo. Os que já estão acomodados, os políticos, chefes de empresas, gerentes e agentes de viagem estão celebrando com champagne e habanos. Os cubanos de a pie ficaram à espera de ónibus que não passa, ou no Malecón à espera de uma balada que nunca acontece, de alguma mudança que realmente mude suas vidas, mas de fato não verão tão de perto as vantagens do que significa esta reaproximação entre ambos países.

BLOQUEO

Por trás de tudo isto, continuarão se esconder os principais problemas sociais que o governo cubano oculta: falta de livre expressão, de livre organização e de livre pensamento; manterá a perseguição política contra opositores; a censura contra artistas e escritores; o controle totalitário das leis, das tropas, da polícia, da imprensa e dos negócios; manterá no poder os históricos defensores do único Partido e assim assegurará por mais anos o poder em toda a estrutura social e de instituições.

 

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