Crônica da mala pronta

Descobri a vela maior das minhas virtudes. Maestria do que sou, e faço. Não sei se sou tão bom, mas acredite, me viro. Agora sou o chapeleiro maluco (ouço as palavras do mestre KatigOria), subcomandante jagunço das malas prontas por fazer e sem destino.

Minha primeira mala era de metal metálico: alumínio de chapa prateado. Meu pai que trouxe, minha mãe que colocou o que iria dentro. Num canto tinha comida: goiabada, torradas, essas coisas que duram mais que a fome. Era pesada, e podia por até dois cadeados. Lembro que tinha uma fenda, uma ferida de alguma viagem anterior da qual eu não sabia nada.

Mala pronta para o afronto: distante de algo ou alguém. Uma mala bem feita viaja vazia e sem deixar espaço. Qualquer mala leva algo de si e esquece o que não dá para levar.

Eu tive uma mochila verde-oliva. Dentro, com apenas variações, iam: duas camisas verde-olivas, duas calças verde-olivas, meias manchadas de betún. Escondia nela minhas primeiras simulações escritas: poesia de formiga, lembranças de disparos, a rotina do tempo perdido, a pele do camaleão acomodado. Mas essa mochila não era minha, devolvi ao Exército com tudo que havia dentro.

Mala carrega tempo, emparedado entre silêncios e nostalgias. Apanhado de instantes memoriosos e olvidados. Estilhaços de si próprio – e no espelho, os avessos.

Um dia fiz uma mala por mim mesmo. Dentro votei um país. Empacotei minha família. Dobrei meus amigos. Prensei meus amores num só. Dessertei de um yo. A linha no chão era amarela: a última porta branca: acima havia um vidro mas não dava para ouvir o que gritavam do outro lado. No outro aeroporto, a mochila chegou rasgada: nunca mais serviu para viajar.

Uma mala pronta não se entrega em frete, nem se confia ela ao mar. De uma mala pronta não se tem retorno. Não se esperam perdões. Nem precisa desculpar.

Numa manhã de inverno julinho peguei meus cacos e os enfie numa mochila. Acho que estava triste, então peguei demais. Demorei em armar toda aquela bagunça minha: é, de nos mesmos, quem a gente menos conhece. Até hoje ando com essa mochila que um amigo me emprestou (é Fredy, a mochila apareceu).

Agora ela está vazia. Mala pronta para fazer e sem destino.

Eu assino em baixo.

Sub-comandante jagunço samurai do yo.

Sobrevivente.

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