Uma calça jeans, uma esquina e outros desapegos

Lembro-me de uma calça jeans, cheia de buraco, que eu insistia em não jogar fora. Minha mãe brigava comigo por aquele pedaço de tecido roído e velho. Eu me pintava de aquele azul, e por nada me permitia trocar ele. Uma tarde, brigando ela e eu, joguei o jeans pela sacada e caiu lá na avenida, onde ficou semanas, primeiro grudando ao asfalto e até finalmente sumir de tanto carros e ónibus que passara por cima.

A existência humana, entre dias e noites, é feita de ganhos e perdas. Ao longo da vida ganhamos ou perdemos algo, alguma coisa. Sempre.

Ganhamos de nossos pais e parentes, roupas e brinquedos de todo quanto é cor e tipo. Amigos de infância ou amores adolescentes, todos tivemos. Mesmo o mais tímido lembra-se de alguém que fez a diferença. Esquinas, praças, viagens distantes todos vivemos, e lembramos como algo que nos pertenceu ou até nos pertence.

Ganhar é quase a sentença de que iremos perder. Ou ao contrário, perder é a condição de ter tido.

Algumas coisas ou momentos, pessoas e ate bichos, marcam nossa existência ao longo da vida. Algumas se fazem tão importantes que é impossível imaginar-se sem elas.

Desses lugares eu lembraria a esquina onde cresci. Onde diariamente ia encontrar meus amigos do bairro. Uma escadinha num portal de uma bodega, uma espécie de armazém onde comercializavam os produtos básicos a população. Dias inteiros, madrugada dentro, zoando e curtindo, brincando e crescendo com os amigos. Eu apenas podia viver sem aquele troço de lugar, e a meninada toda.

Até hoje, quando vou a Cuba, dou uma passada lá e sento, só para ver como estou diferente. Quanto me distancie daquele lugar. Como cresci.

Coisas, momentos e relações que fazem nossa vida tão especial lhe são alheias aos outros, pertencendo apenas a nosso querer. Às vezes, algumas relações nos são especiais a mais de uma pessoa: amigos, amores, encontros que serão para sempre lembrados não importa o que acontecer.

Ao longo dos dias e noites, fatos e feitos marcantes, as mais belas imagens de nossa memoria, os mais incríveis instantes vão se apagando, esquecidas, trocadas por renovadas lembranças.

E o que é esse apego que nós faz sentir essa vontade incontrolável de manter, por afeto, coisas e momentos, pessoas queridas ou odiadas?

Essa sensação de que nada faz sentido sem aquilo, essa dor de imaginar-se sem aquele e que nos prende à coisa ou ser amado e que nos aprisiona e limita nosso existir. Essa sensação que costuma ser momentânea, como crianças quando privadas do seu mais desejado brinquedo, e que subitamente troca por outra nova paixão, pode ser um momento crítico, quase de morte.

Era a imagem daquele jeans, agora pintando de azul o preto asfalto frente a minha janela. Eu olhava para ele como se fosse o troféu. Um ridículo troféu para eu vestir.

Um pedaço nosso deixa de existir. Uma memoria apagada a contragosto. Porém passada a perda temos algo novo a ganhar.

Hoje, muitos instantes depois daquela esquina tardia de La Habana, eu sei que se tem algo do qual não consigo me separar, é porque me faz mal. Não que aquilo seja ruim para mim. Nem é que eu não queira ou deseje ter ou viver aquilo. Mas só se eu puder perder, é que tenho. É que quero.

Hoje (faz uns dias, já)… eu desapeguei mais uma vez.

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