Aos meus amigos de vermelho

Estamos todos, num momento crucial nas eleições presidenciáveis no Brasil. Um momento tenso, onde está em risco a luta de uma sociedade à procura de erradicar a desigualdade social que historicamente vive-se neste país há quinhentos anos. Nesse contexto, na briga entre a Dilma e Aécio, tem se mencionado muito a relação do Governo com o meu país de origem: Cuba.

Sobre o programa Mais Médicos já comentei na época sobre os prós e contra do mesmo.

Nos últimos dias, os debates tocaram a favor ou contra sobre a presença brasileira no porto do Mariel. Obras que teriam sido financiadas pelo BNDES e executadas pelas maiores empresas brasileiras do ramo.

O porto do Mariel ficou famoso no ano de 1980 quando após a invasão da Embaixada do Perú por centenas de pessoas insatisfeitas com a situação na ilha, o governo cubano em acordo com o governo dos Estados Unidos, permitiu a saída de vários presos políticos. Nesse momento histórico da emigração cubana, o governo da ilha permitiu, ou exigira, a saída de reconhecidos detratores da ideologia castrista, de homossexuais, artistas e escritores de oposição.

Naqueles dias minha mãe me carregava na barriga, e foi ela, negando-se ao pedido do meu pai, que fez que eu nascesse em Cuba.

Sobre os fatos atuais, minha compreensão, para os amigos que defendem como eu a continuidade do governo da Dilma e usam os investimentos do BNDES no porto cubano, como ponto a favor nessa campanha.

O porto do Mariel pelas suas caraterísticas geográficas é muito importante para o acesso entre as Américas e Europa. Pela profundidade da Baía do Mariel permite a entrada de barcos de grande porte, que viriam ou iriam através do Canal de Panamá. Lá o governo cubano, com apoio brasileiro, está concluindo um dos maiores Polos industriais do Caribe, algo assim como o Polo industrial de Manaus. Grandes empresas multinacionais estariam radicando-se na ilha por ter boas condições de pagamento e baixíssimos custos de mãos de obra.

A mão de obra cubana contratada, seria mais ou menos nos mesmos moldes que o dos profissionais cubanos que atuam no Mais Médicos. Uma empresa estatal faz o meio campo entre as empresas no Porto e os professionais. Nesse meio termo, a empresa estatal fica com a maior fatia do contrato, e repassa aos trabalhadores apenas uma porcentagem.

Tanto neste caso, como nos médicos que estão no Brasil, eu não tenho a menor dúvida, que os professionais cubanos ainda ficam contentes, porque o salário nestes contratos internacionais ainda é bem superior ao que eles receberiam se trabalhassem dentro das normativas cubanas comuns.

A questão principal nestas transações é que a fatia que fica com as empresas estatais termina financiando o governo do meu país, que – agora berrem aos prantos, vermelhos – deixou a muito tempo de ser um governo de esquerda com interesses sociais como prioridade.

Hoje em dia, e há muito tempo, Cuba é um país comandado por militares e famílias de políticos que por anos, ficaram à frente dos ministérios, parlamento, bancos, terras, hotéis e forças armadas com a caraterística fundamental de não ter nenhum diálogo com a classe trabalhadora.

Para os extremistas de esquerda, não estou abdicando nem negando as reformas politicas e sociais dos idos anos dourados do governo cubano, e das quais, conheço aqui no Brasil, vários fiéis seguidores. Porém, há muito tempo estas propostas estão longe de ser palpáveis para o povo cubano.

Ainda, o governo de Cuba, durante todas estes anos tem sido intransigente com questões de diversidade ideológica, não permitindo nenhuma oposição ao seu modelo de gestão. Perseguindo, encarcerando e até matando opositores para manter a hegemonia partidária e ideológica na ilha.

Então, nesta reta final dos debates a eleição, e defendendo a democracia que todos queremos para o Brasil, eu não aceito que um ponto a favor seja a vantagem de ter cooperado no Porto do Mariel, e que desta maneira aceitar que o governo brasileiro, apoie sim, um processo político muito mais complexo que a simples margem de lucro entre empresas no Polo industrial do Mariel e seus assalariados cubanos.

Não, aquela ilha no Caribe, não é mais o berço de ouro das igualdades latino-americanas. Deixou de sê-lo, para não arriscar e dizer que nunca fosse, pois se é para todos, tem que se ouvir os que discordam. Não é, e não será enquanto a família cubana esteja dividida nos cinco continentes, seja pela simples vontade de angariar e ter posse de coisas e valores, como o resto do mundo deseja, e tem; e obrigados a viver distantes porque existem leis que proíbem cubanos de voltar na sua terra. Não é, nem será enquanto quem dirige o barquinho-à-deriva sejam os mesmos de sempre, caudilhos cinquentenários que apelam a pátria e os costumes revolucionários mas que banham suas contas e poderes se distanciando sempre de quem não tem nem pode.

Aos meus amigos de vermelho, eu sou o mesmo que conhecem, eu mesmo, mas um povo sofre na distância isolada do Caribe, o silêncio de não enfrentar esse marasmo politico, dita ditadura, com o qual o atual governo brasileiro compactua.

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