Rei Leão

“Olha filho, até lá, tudo o que você consegue enxergar são as terras do teu avô”, meu pai esticava o braço em direção de um horizonte de montanhas de terra vermelha, amontoadas sob um céu azul com nuvens, todas cobertas por uma grande massa de árvores. Entre elas, eu sabia, zigzagueava o rio Moa. Um rio bravo, não muito largo, com fundo de pedras polidas, e grandes rochas contornando suas paredes.

Eu devia ter seis, no máximo dez anos, e essa imagem, eu nunca esqueci.

Aquele território todo, basto de vários quilómetros quadrados, era plantado na sombra de suas ladeiras, com café e cacau. Meu avô havia sido dono daquele latifúndio havia umas décadas atrás, antes da chegada ao poder do Fidel Castro, mas durante a Reforma Agrária, ele tinha perdido elas. Desse causo minha família não falava, mas na época meu avô Maximiliano – até nome de chefão o velho tinha – tinha se revoltado e enfrentado as leis do governo, o que lhe custou prisão e encargos, e pior na época, o título sombrio de prisioneiro político.

Uma vez, às vezes duas vezes ao ano, visitávamos o reino da minha família materna, nas montanhas de Farrallones , no munícipio de Moa, na província de Holguín. Eram férias do campo: frutas tropicais silvestres, animais criados soltos na imensidão do bosque, aquele rio livre gelado que nascia no boqueirão de uma grande caverna, sinos de gado descendo a montanha, vizinhos distantes há várias léguas, sem energia elétrica, nem esgoto, chão de terra batida e candeeiro pendurado nos batentes da casa de madeira e pencas de palmeiras, sem pão ou manteiga, sem televisão ou torneiras.

Minha família materna era também numerosa. Minha avó Dulce Maria teve oito filhos com Maximiliano. Eles se haviam conhecido em terras próximas, do outro lado da serra moense, em terras da Baracoa. Ele era branco, olhos azuis e magro, bom partido e com poder. Ela era uma preta formosa, com um brilho raro na pele preta, olhos puxados, esticados num sorriso fechado. Ambos dois, muito estritos e de uma moral muito convicta: ele no esforço do trabalho, ela na paz do Evangelho.

Deles lembro com muito respeito. Minha mãe criou-me para louvá-los assim como ela, fora antes educada. Naquela época, o respeito e o medo moravam muito perto. Mas no escondido do peito o carinho que sentia por eles e pelo respeito àqueles silêncios quando eles estavam presentes, hoje eu lembro como uma dádiva, um sentimento que nunca mais senti por alguém.

Graças a essa paixão contracorrente, do branco à cavalo, terciado em dinheiro com a preta brilhosa de olhos, pintei minha alma de terra avermelhada, com cheiros de mato virgem, de pedras arredondadas no fundo de um rio, de mangas pingando nos trilhos de homens da montanha, de porcos sacrificados nas festas de domingo à beira da agua escorrendo, de banhos gelados em dezembro ou agosto, de primos e tias e mulheres e maridos de primas e tios que a cada férias eu conhecia e desconhecia, dos céus mais estrelados nunca depois descobertos, de bezerros dando o leite matutino, da mandioca e o milho cozidos na braça noturna, o cheiro de café torrado e pilado no quintal pelas mãos de todos, um por um, passando o pilão e aquele som repetido ecoando infinito, indo e vindo nas montanhas, aquele reino assinalado pelo dedo do meu pai no topo da mais altas delas.

A felicidade não conhecia horizontes…

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2 pensamientos en “Rei Leão

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