Funeral de famosa

Diariamente alguém famoso morre. Seja um cantor, um escritor, uma atriz pornô ou um ex-presidente. Diariamente assistimos nos noticiários funerais alheios. A morte virou dinheiro. A dor subiu no Ibope.

No dia que minha avó Dora morreu tinha no cemitério mais de duzentas pessoas (ya comencé a llorar). Ela não era artista, nem famosa, nem menos líder da Revolução Cubana.

Dora foi mãe de dez filhos, uma sequência de netos, e até conheceu quatro ou cinco bisnetos. Tinha morado quase toda sua vida no mesmo endereço que ela viveu. No bairro de Santos Suarez, num bairro calmo de La Habana.

Naquela noite, no velório, minha prima ou tia Elena, não lembro, veio me perguntar se eu seria capaz de ler a despedida dela que tinha escrito meu tio Esteban. Eu era dos poucos que não chorava, focado na dor que meu pai sentia, e que nunca antes eu tinha visto ele assim.

Aceitei pelo orgulho. Pela dor. Pela falta de lágrimas.

No dia seguinte, depois que o caixão desceu seus três metros, e já lacrado o túmulo, dei um pulo e subi-me naquele box de granito branco. Sob mim toda minha família, meu pai aos prantos, meus amigos do bairro, e nas minhas mãos um papel frio de sessenta e poucos anos de vida, resumida poeticamente por alguém que a amava muito, mas que escrevia desde as neves do Montreal.

Eu li segurando o hálito enquanto escutava gritos, choros, pancadas de todos aqueles que talvez sem aceitar a morte, morriam de dor naquele instante.

A vida era curta apesar dos sonhos. Eu tinha vivido com aquela vieja todos os anos da minha vida (até ela partir). A dor em mim era tão grande como a dor de todos aqueles que me escutavam, mas eu sem entender ou querer saber, preferi ler sem lágrimas para que o resto chorasse em paz.

Minha avó Dora era famosa por ter criado sozinha uma família imensa, conhecida nas ruas próximas como “los muchos”. Era simples. Jogava o jogo do bicho todo santo dia, com combinações de sonhos, datas de aniversário e número que pedia ao acaso a qualquer um. E como minha casa tinha muita gente, as melhores festas do bairro aconteciam sob a vigilância dela.

Minha avó morreu e não saiu na imprensa cubana (que dedica seus esforços em manter só a cara-pálida do governo Castro), não precisava. As ruas do Cemitério de Colón perto do panteão da família Esquenazi (quem doou um espaço no túmulo judeu deles) ficaram lotadas de velhos conhecidos, vizinhança, amigos, filhos, netos, bisnetos e eu, sobre o granito branco, lia uma carta de despedida.

Quando acabaram aquelas frases adocicadas e não houve para onde fugir os olhos, levantei a cabeça e vi aquele mar de gente aplaudindo ou sei lá o que, cai de joelhos literalmente e rasguei a chorar.

As pessoas me pediam para me acalmar e para não chorar. Eu não tinha chorado a noite toda, então chorei para valer.

Dora y yo

Dora y yo

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2 pensamientos en “Funeral de famosa

  1. Hola Demis… Por el título no pude comprender muy bien de qué podia tratarse, luego de ver la foto de tu abuela contigo, acudí a los recuerdos vagos y lejanos de mi dominio sobre el portugués. Te confieso que esa despedida leída por ti encima de la tumba de tu abuela, fue escrita por mí varios meses antes de que ella muriera y estubo bajo la custodia de Cuqui ese tiempo. Esa misma noche del velorio, yo la llamé por teléfono para que la llevara ante ustedes. Por qué lo escribí con tanta antelación? Cuando ella se despidió de mí en su ultimo viaje a Canada, percibí en su abrazo y mirada que nunca más regresaría. No sabía cuándo moriría, pero esa despedida ocurrió muy poco tiempo después. Me apuré para no dejar espacio a la improvisación, ella era digna de ese homenaje y mucho más que eso, yo la quise demasiado. Recibe un fuerte abrazo.

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  2. Tu abuela Dora (en parte también abuela de los niños de la cuadra – entre ellos mi hermano y yo-) fue una de las personas más cariñosas, simpáticas, generosas que he conocido. La tengo presente todo el tiempo como alguien de la familia, la recuerdo muchísimo. Muy linda nota y foto!!! Gracias.

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