De pai para filho (ou de como venho para onde vou)

Há um par de dias atrás que meu pai, lá em Cuba, se aposentou do único emprego que teve nos últimos quarenta anos. Nos últimos anos ele era o chefe do grupo de manutenção – serviços gerais – do Consulado Britânico em Habana.

Um emprego que serviu de sustento a nossa família. Um bom sustento. Em american dollars ou no seu equivalente em Cuba, CUCs.

Durante toda minha infância, minha adolescência e existência toda, el viejo Ramón dedicou sua vida a trabalhar para sustentar minha família. Tudo tinha começado muitos anos antes, quando meu avó Franscisco abandonou minha avô Dora, deixando para trás uma família de diez hijos. Meu pai se prometera e cumprira sua própria promessa e afã pessoal.

Papá, ¿dónde tú trabajas?”, era eu querendo saber, precisando responder à professora, na escola.

Eu devia dizer que ele era “pintor”, daqueles que cuidam do branco das casas, dos verdes dos jardins e do azul das piscinas. Em caso nenhum eu devia dizer que trabalhava para estrangeiros, ainda menos ingleses, muito menos capitalistas. Eu poderia sofrer represálias do tipo ideológico.

O trabalho dele era rigoroso. Lembro perfeitamente porque de criança, aos sábados ele me deixava acompanha-lo. Eram os melhores dias, brincando entre móveis que só estrangeiro, inglês e capitalista usava naquela ilha. Visitando casas de muito luxo, carros importados e comidas que nunca teria experimentado antes. Toquei brinquedos que nenhum dos meus amigos de bairro ou da escola antes vira.

Naqueles finais de semana, eu via ele, dedicado ao seu trabalho, sempre brincalhão e esforçado. Los yumas – como chamávamos os estrangeiros em Cuba – exigiam muito mais do que era acostumado nos empregos, serviços e instituições cubanas.

Assim conheci e aprendi english. Assim, como poucos na ilha, tive festa de Natal, com presentes da mão do Papai Noel. Como poucos, tinha bebido Coca-Cola. Tinha entrado em LandRovers e Bentleys.

Na escola e entre os amigos, zoeiras da esquina e da bola, até ente meus primeiros flertes esse fato aparecia como aparência de certo status.

Daquilo eu nunca teve orgulho. Orgulho no sentido de ostentar.

Meu pai tinha me ensinado que o único necessário era a comida, comer bem, com fartura e gosto, com desejo. E compartir. Dar simplemente dar.  

Em casa, ele que fazia tudo: obvio. E seria obvio, quase um lugar comum, que eu não aprendesse dele, por preguiça, por pirraça por lambança.

Faz um tempo que voltei de Cuba. Lá conversei com meu pai sobre a decisão dele de se aposentar.  Momento de virada, novos rumos. O homem estava feliz.

Eu na minha volta nem sabia o que seria de mim aqui no Brasil. Saber sem pretensões, apenas saber que ia me jogar. Então escrevi o meu destino. Vida, escrita em passagens memoriosos, com tons de acaso, e dias reais. Comecei trabalhar exatamente com o que ele por anos trabalhara, e com ele eu me negara aprender.

No mesmo dia que ele se aposentava do seu emprego com os estrangeiros, os ingleses, os capitalistas, eu pintava de mão e pincel uma porta restaurada. Antes a tinha desmontado, lixado e ajustado novamente. Era o meu momento de virada, novo rumo. Eu estou feliz.

Anuncios

3 pensamientos en “De pai para filho (ou de como venho para onde vou)

  1. Pingback: Pequenas fantasias de moleque | ENTRE 2 LINGUAS

  2. Ahh que lindo! Ramón merece tudo que há de melhor nessa vida! pai, vô e marido esforçado, dedicado, amoroso, “quemador”, desejando que tudo dê certo pra ele, sogrinho tão querido rs.

    já pode voltar pra lá?

    <3!

    #morri #mtoamor #cubanoslindos

    Me gusta

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s