Meu sonho americano

Aprendi cedo na escola o que era Latinoamérica, me ensinaram em libros alguns professores dedicados, histórias que lembro de mártires e homens de bem de estas terras americanas.

Depois li as paragens de Rulfo, as paixões alucinadas de Cortázar, a mágica palabra de García Marques, a delicada observação de Quiroga, os infinitos sertões de Guimarães Rosa, todos os caminhos de Vargas Llosa, o negro que sou em Guillén, o real maravilhoso do Carpentier.

Em La Habana conheci amigos bolivianos, uruguaios, argentinos, peruanos, equatorianos, brasileños. Deles ouvi muito de tradições, músicas, lugares que deveria um dia conhecer. A maioria, tínhamos alguns sonhos comuns, terras abraçadas de uma vez só numa palavra única, numa língua nossa apesar dos sotaques, do lugar do nascimento.

América é o lugar que sonho, que invento com imagens de olho aberto, das praias quentes e campos memoriosos da minha ilha às planícies secas dos brasis, as cachoeiras escondidas no coração do continente, sobrevoando as lembranças das montanhas nevadas dos Andes, as trilhas azul-úmidas da Amazônia, areias salpicadas sob pés descalços de La Paz, os cerros pelados de Cali ou os litorais de Cartagena com acordes e danças de pretas quase nuas, a ondas bravas frias e profundas do Pacífico em Lima, e caminhar nesse fio branco rochoso, espinha dorsal da Venezuela até Argentina, e nas neves, pastos frios das pampas, mate e violão, boiada e pantanal, caminhos perdidos nas BR-101, ilhotes perdidos à deriva no mar, Cubas, Margaritas, Angras e Reis.

América é as ruas de Rosário na voz do velho Fito, falando em quechua ou tolteca com pessoas que sabem muito mais do que estão a falar, e o ayahuasca do Ino Moxo, o peyote de don Juan, as ervas mais finas do Rio La Plata cultivadas de mão em mão por famílias milenarias, em cuica de chimarrão que é como chama el mate em terras do Rio Grande so Sul, falando español en Recife y português em San José. Esquecendo que sou de uma ilha flutuante no mar, a maior ilha entre outras mil ilhas flutuante à deriva no mar.

América é de olho em olho, homens da minha cor e mulheres das minhas verdades, conversas enfileiradas em praças, sob sombras de pessoas e pessoas, com amigos de amigos ou amores inconfessáveis, cada sonrisa, músicas no rádio ou de vozes roubadas de cidades, povoados à beira de estradas ou rios, marginais, litorâneos, crisálidas de Macondo ou Luvina, pessoinhas comuns, imaginárias, fora do real, do meu real imaginário feito sob medida para minha prosa, para meu sonho, para meu viver.    

América, todos meus caminhos…

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