Se a seca chegar … (e outras memórias líquidas cubanas)

Nestes dias que a seca acossa a grande São Paulo, que o Sistema Cantareira está em colapso, que chove muito, mas o nível da represa não aumenta; veio a duvida: se faltar a agua, vão a distribuir a agua por classes sociais, por bairros e vilas e comunidades de igual maneira?

Não imagino os prédios de Tatuapé e Higiénopolis ou da Pompeia sem agua. As madames, os filhos das Facú, os maridões de carrão, os filhotinhos de cachorro da alta classe burguesa economizando agua no seu dia-a-dia.

Em Cuba, desde que tenho lembrança, agua não era corrente nas torneiras. Ao menos, na minha casa. O agua entraba um dia sim, e um dia não. De tardinha, até a meia noite. Nesse intervalo as pessoas precisavam estocar agua do jeito que cada família conseguisse, e assim poder chegar no próximo dia do sim.

Entre os dois dias de agua, cada um devia economizar agua, mas aquilo durante os anos tinha-se tornado natural: lavar louça com um fiozin´ de agua, lavar roupa só nas noites nas quais a agua vinha direto na torneira ou tomar banho de balde e caneca.

Lembro-me disso especialmente nesta seca paulistana: eu esperando uma jarra de agua ser aquecida no fogão, depois misturada com agua fria da banheira que permanecia sempre cheia durante os dias de não entrar agua.

Era uma odisseia familiar.

Nalguns dias de forte calor de verão, de estes veranos brasileños ou daqueles distantes cubanos, eu já teria alguns anos de consciência, no fim das noites, depois de eu tomar banho, já limpo, parava de fazer barulho e colocando pouco a pouco o corpo na banheira ficava lá pensando, deitado dentro da agua da banheira, agua que o resto da família usaria até a agua entrar novamente. Era safadice de criança, sem pensar nos outros, só me divertindo.

Hoje está quente e parece que vá chover. Fiquei sabendo que a agua aqui em casa vem da represa Billings, ou seja, não tirarei agua dos condomínios da Pompeia, Tatuapé ou Higienópolis.

Mas as minhas memórias de hoje continuam levitando: na hora que a agua acabar – se acaba – , vão tirar agua primeiro nas comunidades ou nos bairros das grandes famílias paulistanas?

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