A obra do Milton

Milton saiu cedinho de manhã. Não disse nada. Não levou nada. Apenas tomou um café e fez um sanduiche. Comeu uma banana.

Passaram-se umas dez horas, e ele voltou de noite. Tomou uma chuveirada. Não disse nada.

Assim foi-se uma, duas semanas. Ele saia cedo sem dizer nada, e sem dizer nada, voltava de noite.

No domingo respondeu “estou trampando na obra” e ficou em silêncio o resto do domingo.

Nosso corpo vibrava. Músculos, articulações e gestos se faziam presente como nunca antes. Eu não entendia o que me passava.

Eu revistei seus bolsos e as calças. Do nada achei um parafuso e duas porcas, um pedaço de lixa, arame, barbante, uma lista de compras de tintas, e algum troco. Tinha um cartão de visita de uma serralheria, e dobrados um desenho de um jogo de cadeiras e mesa.

“Era para ser uma surpresa…” desanimou, e pegou da minha mão os rabiscos.

Segunda feira de manhã saiu sem fazer barulho, a semana seria pegada no serviço. No domingo depois, quando acordei não me reconheci no café-da-manhã. Detrás de mim ouvi a voz do Milton martelando “eu que fiz essa mesinha”.

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