Milton e a Saudade

No meio de cada despedida, sem o menor alarde, Milton faz silêncio. Diz que não há poesia na dor da ausência, como não há dor atrás da morte, nem amor que morra nas despedidas.

Odeio ter que concordar com ele.

Eu aperto mais um abraço-adeus, e ele sorri da nuvem opaca no exato momento em que as sombras iriam se fingir eternas.

Há quem pense que Milton não é mais que um escroto insensível profanador de palavras e sentimentos sem justa causa. Eu juro que tem vezes que eu mesmo esgoto instantes e perdões, tentando não julgar o que me parece absurdo. É difícil.

Nesta madrugada, Milton e eu até que enfim achamos conforto nessa rara sensação que há nas palavras. Dormíamos lado a lado, justapostos, sendo quase o mesmo ser. Sonhávamos, sentindo em sonhos, o raro prazer de sermos um.

Ele disse com um tom áspero “saudade é o abraço infinito de um encontro…” claro que eu escreveria de outro jeito “e na ausência, tanto doe como acende…” obvio que eu sinto do seu modo “e é, o mesmo impulso que nos aproxima ao reencontro”.

Eu vejo Milton partir de mim mais uma vez. Desses últimos abraços que me deu, escrevi as mais profundas crônicas sobre mim. Para ele nunca li. Vá que encana de me chamar de romântico ou poeta ou cidadão infeliz ou raro animal de emoções paradoxais. Vá que concorda comigo, e na minha razão, me descubro absurdo e sem perdão, profano de palavras e sentimentos.

“Saudades, nossas” digo-lhe pensando em nos, e em todos os amores que já foram e os que virão. Despeço-me.

Milton faz silêncio.

Despir-nos, mais uma vez.

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