Passeio por uma Infância Distante

Ontem andei por Alamar, uma cidade de pequenos prédios pré-fabricados ao leste de La Habana, onde eu passava parte de minhas férias e finais de semana na casa da minha tia e primos preferidos. Desandei caminhos conhecidos com a certeza que não tinham mudado de lugar, e não houve surpresas. Cada coisa estava no exato lugar que eu o deixara há mais de quinze anos atrás. Naquela andança logrei me antecipar a cada atalho, parede, prédio ou árvore porque tudo era exatamente igual.

Aquele bairro fora construído por seus próprios moradores com subsídios do governo durante os anos oitenta. É um bairro feio, de prédios de no máximo cinco andares, espalhados sem nenhuma organização urbanística, dividido por zonas. Cada zona tinha seu mercado para comprar os abastecimentos, e onde confluíam outros serviços menores. Também algumas empresas e instituições do Estado num dos maiores planos imobiliários que foi conhecido como “Microbrigadas”, repartia terrenos aos seus funcionários para que com parte de suas horas pagas, fossem trabalhar na construção de seus apartamentos. A região é conhecida por ter abrigado as famílias mais humildes que eram removidas de moradias com perigo de derrube no Centro Histórico, e casualidade ou não, com uma alta concentração de população negra. Alamar é conhecido hoje por ser dos piores bairros para morar de La Habana, sobretudo pela falta de serviços e péssimo transporte.

Aquele apartamentinho no primeiro andar que eu frequentava tinha sido construído pelo marido da minha tia, Esteban, naquele sistema “microbrigada”. Ele era capitão da Marina Mercante de Cuba e no prédio onde morava minha tia Elena, e meus primos Estebita e Elenita, todos os vizinhos tinham alguma relação com a Marina. Anos depois meu tio abandonara o barco em Canadá e se exiliou. Depois conseguiu pagar as viagens de toda a família dele que hoje moram em Canadá e Estados Unidos. Ele começara escrever e hoje já tem par de livros de crônicas sobre os anos frente aos navios e os problemas dos cubanos na Cuba daqueles anos primeiros da Revolução.

Caminhando eu, ontem por aquelas ruas, a única surpresa que tive foi a de ver as distâncias terrivelmente encurtadas. Todo era pequeno menor para mim. Lugares que eu sabia, existem, chegavam em menor tempo aos meus pés. Era uma sensação esquisita. Era eu, Gulliver nas minhas próprias terras habaneras.

Nesse trajeto pequenininho, minha lembrança era transportada a minha distante infância. Este lugar era dos poucos que de pequeno eu vivi, e nunca mais visitara, e por isso agora me parecia tão surreal e mágico. Meu sorriso era de susto. Eu crescera em anos e experiência, e este era um fato. Minha vida tinha se esticado em livros, línguas e filho, mas aquela cidade feia à beira do mar tinha ficado igual.

Então pensei nos meus primos e tios que certamente há muito tempo não caminham por aqui. Eles também tinham crescido, ganhado em livros, línguas e filhos. A saudade daquilo tudo era gigante, porque da infância da gente, quase sempre temos saudades. Qual seria o tamanho desta cidade para eles hoje tão distantes destes passos?

No fim do passeio cheguei à desembocadura do rio Cojímar, divisa entre Alamar e Cojímar. Este bairro é dos mais tradicionais de La Habana e mais conhecido por ser o lugar onde acontece o famoso romance de Ernest Hemingway, “The Old and the Sea”. Caminhei até a beirada, perto da ponte que as pessoas usam para passar de um lado ao outro, e no encoste rochoso sentei-me. Não houve surpresa novamente, a infância e meu ser, estavam finalmente em paz… meu mar.

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