Roupa de Mulher

Ontem testamos ao absurdo. A mecanicidade do aparato social humano. Olho no olho não bastam para explicarmos as razões do que sentimos e somos. Fomos diretos e incisivos no alarde, felizes com os sorrisos. Fomos contra o macho e a submissão feminina. Desta vez,
apesar de não passar as barreiras – nem assistir o filme – ganhamos.

Depois que me proibiram entrar no Cine Charles Chaplin vestido de homem, trombei uns amigos que, também indignados, sugeriram um contra-ataque: iriamos vestidos, os homens como mulheres e as mulheres de homem.

No fundo no fundo sinto que não nenhuma diferença entre homens e mulheres, não ser aquelas que cada individuo queira para sí mesmo assumir e permitir-se. Diante das leis, nossas instituições e espaços públicos, a sociedade deveria exigir e ter os mesmos direitos de gênero, raça, condição social, e é obrigação de cada um lutar por estes direitos.

Durante quase uma semana fomos avisando a todos os amigos que no sábado iriamos assistir o filme na sessão das 17h30 no Cine Charles Chaplin. Imprimi uns quatrocentos flyers, frente e verso, sem muita manha para o desenho, nem recursos.

flyer 1

Aquilo não era uma questão pessoal, e isto tinha que ficar esclarecido. Eu me sentia magoado pela situação ocorrida mas era o fato de que aqueles funcionários do cinema, e até a própria organização do Festival de Cinema, não dialogassem nem entendesse esta situação discriminátoria, de caráter violátorio dos direitos elementares do humano.

Na noite de 6ª, descobri que o filme que passaria na sessão escolhida seria “Flores raras”, uma produção brasileira, que agora está em cartaz em São Paulo, segundo soube (é só pesquisar a sinopse para ver que até o Cineclube das Sete Cores, com a experiência que tenho vivido nos últimos meses no Centro de Referência da Diversidade, também conspirava). Aquilo seria perfeito.

Ontem sai depois do almoço com Alain, meu melhor amigo e quem esteve o tempo todo, encorajando-me e ainda mais, nos divertindo muito. Pegamos ônibus, caminhamos pelo Centro da cidade, conversamos com as pessoas que nos abordavam, parávamos para fazer fotos ou para que fizessem fotos de nós, e íamos entregando os flyers sobretudo à aquelas pessoas que pareciam não aprovar nossa vestimenta.

Em geral, as pessoas pegavam como brincadeira nossa atitude, tiravam onda ou faziam careta. A discriminação de gênero, o machismo e suas atitudes, moram nas pessoas e nas relações interpessoais cotidianas. Em Cuba, além do idiossincrático, as instituições reafirmavam estas situações. blog2

No cinema, além de outros amigos que não se vestiram como sugerimos, estava minha mãe, e coisas de filho, isto me deixou feliz pois durante a semana havíamos conversado muito sobre o ocorrido. Sei que ela estava preocupada, mas ao mesmo tempo, era uma forma de mostrar seu apoio.blog

Eu, e acho que outros, não tínhamos muitas expectativas, mas o desejo e aquela felicidade contagiante e trasvestida me convenciam de que poderíamos assistir ao filme. A euforia se traduzia nas nossas conversas, na minha respiração, na companhia de minha mãe e dos amigos, em total contrapartida e paradoxo, da presência de muitos policiais.

Ao princípio, poderia-se pensar que eles estavam ali só por segurança, mas quem vive em Cuba ou esteve aqui, sabe ou imagina como funcionam os mecanismos de repressão. Hipóteses surgem, algumas delas, nenhuma pode ser descartada: escutas de conversas telefônicas, amigos avisados do evento e que trabalhem para a Seguridade do Estado, alguém que pegou um flyer e que ativara a resposta policial. Quem acha isto exagero, simplesmente descarte este mero detalhe real da presença dos uniformizados.

Vou realmente poupar as conversas na tentativa de entrar ao cinema. Elas são muito similares ao que acontecera na terça feira no mesmo cinema com as funcionárias do Chaplin. Desta vez a diferença é que não apareceram as tals compañeras e sim três homens, que não eram do cinema. Eles não deram explicação alguma, apenas responderam com negações sucessivas, sem entender nem querer entender. Desta vez, não era só eu quem dava meus argumentos e sim um grupo ciente de que aquilo era uma arbitrariedade, uma burrice, uma estupidez.

Os policias ficaram sempre calmos, observando. Em algum momento se aproximaram das vidraças, quando estivemos todos no saguão do cinema. Intentei conversar com eles, mas eles não respondiam, também não aceitaram os flyers que eu pedia que lessem para entender nosso apelo. Apenas um me chamou em separado e foi receptivo. Conversamos durante alguns minutos, mas ele não aceitou nossas reivindicações. Entendia não ser este o local para expressar nossas demandas, apesar de que entrelinhas lhe entendi, não estava de acordo que nós proibissem entrar ao cinema.

Então, decidimos irmos. Desta vez, felizes e trasvestidos.

PS. Se alguém tiver uma copia do filme Flores Raras, assim que estiver em Sampa, me passa para eu ver. Ok?

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