Roupa de Homem

La Habana, dez da manhã, trinta e poucos graus de calor, mais de setenta por cento de umidade no ar. Visto bermuda, regata e chinelos daqueles que todo o mundo usa. Levo na bolsa meu caderno de notas, caneta, câmera, uma garrafa de água, celular e uma garrafinha de rum. Minha carteira com algo de dinheiro, a foto de meu filho e o passaporte do Festival de Cinema. O Festival do Novo Cinema Latino-americano é de meus maiores presentes para esta viagem, começou no dia 5 de dezembro. Estes dias com esse passaporte faço uma fila, bem provável que nesse instante já encontrei alguém conhecido com quem converso dos filmes ou da vida.

Ontem ia a caminho do Cinema Charles Chaplin na Rua 23. Esta rua é a que mais se aproxima da Avenida Paulista. Mas não há nem tanta gente, nem bancos, nem trânsito. O sol racha qualquer intento de imaginação e restam poucas chances de sair da ilha.

Fiquei sabendo de outro filme brasileiro e como bom filho da mátria brasilis, lá fui eu, tentar me conectar com aquilo que me faz homem, pai e escritor. Na entrada de grandes vidraças, atravesso suado e ao entregar meu passaporte do Festival, “Senhor, não pode entrar ao cinema de regatas”. Bloqueio. “Moça, você viu o calor que está lá fora?” “São as regras, não pode”. Esquento. “Oi moça, entenda, está calor”, “Senhor não escutou? assim de regatas e chinelos de tomar banho não vai entrar, pode sair”,“Gente, olha o calor. E outra chinelos de tomar banho? Eu tomo banho descalço” “Faça-me o favor de se retirar”, “Mas, por favor, que coisa é esta?”

Suspiro fundo, sei são intransigentes as pessoas que trabalham em instituições cubanas. É provável que não haja argumentos que os façam mudar de ideia.

Uma menina com regatas lhe rasgam o passaporte e a deixam passar. O quê? “Moça, e essa mocinha ai que você deixou passar?” “Ela pode, é uma blusa de mulher” “Como? Roupa de mulher? Como assim?” “Senhor, não adianta homens não podem entrar em regatas” “Senhora, é o mesmo, é uma roupa, está um baita calor” “Não pode, não vai entrar” “Isso é uma violação do meu direito, é um crime de discriminação de gênero”. Ela fecha o rosto, não responde.

Outra mulher se aproxima, diz ser a administradora. Tem o rosto tenso, não quer conversa nem entendimento. Isto é incrível. Chama-me com a intenção de sair da entrada do cinema e de chamar menos a atenção. Dirige-se a uma porta, abre e pede para entrar. Não fala, nem pensa. Repete: “Assim de regatas, e bermudas e chancletas não podes entrar”.

Essa altura convenço-me que não me deixaram entrar alegando ao tipo de roupas, mas eu avanço pelo lado que me chama atenção e do qual eu acho, tenho razão. “Senhora, explique-me, como é que mulheres podem usar saia curta, blusa com decote ou regatas e sandalinhas, e homens não?” “é a regra, já disse você não vai entrar assim vestido ao meu cinema”.

Não acredito. Ofusco. Fecho-me. Sobe a raiva.

Já havia sentido fortemente a grande diferença em questões de direitos entre as pessoas em meus dois países. Mas em Cuba, depois de tanto tempo, e depois dos meus aprendizados e experiências no Cineclube das Sete Cores e no Centro de Referência da Diversidade em São Paulo, isto era simplesmente um absurdo.

“Escute, não há diferença entre homens e mulheres, temos todos os mesmos direitos, isso ao menos em principio é um crime, uma violação dos meus direitos, entende?” “Não me interessa, você não vai assistir esse filme hoje, assim vestido” “Vou acusar vocês com o Festival, com o Cenesex, com os Direitos Humanos” “Faça-o, vai lá fazer, vai” ela convicta do seu pequeno reino não corre risco e que sua vontade conservadora, direitista e retrógrada lhe asseguram a razão neste episódio.

Não, não entende. Então saio da sala e volto à entrada do cinema. Sarcástico, vendo que minha prioridade que era assistir o filme estava já perdida, investi em tentar que aquele bando de velhas percebesse o ridículo que faziam. Assinalei: Meninas com saias mais curtas que minha bermuda, mulheres de regatas suadas do calor de trina e cinco graus, senhoras com sandálias ou chinelos. Foram perdendo o controle, se aproximaram dizendo que eu gritava. Um homem de braços cruzados se aproximou. Era tensa a situação.

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“Senhor saia daqui” era um grito repetido por várias daquelas mulheres. Ninguém dali achou aquilo um absurdo. Incluso uma senhora com blusa curta que ia assistir ao filme, aproximou-se gritando que a roupa dela era de mulher e a minha de homem, não poderia entrar. “Ai, ai que loucura, gente”.

O homem de braços cruzados sai fora em direção de policiais do Ministério do Interior, algo como a Policia Federal, e conversa com eles. As mulheres se aproximam de mim, já não as escuto, pois gritam os mesmos argumentos vazios. Estou nervoso, então dou dois passos fora das vidraças, um território que considero não podem mais gritar. O homem sai de perto dos policias e entra ao cinema. De imediato, os uniformizados me chamam para conversar. “Eu não tenho que falar nada com vocês” um deles assombrasse “Oh, vem aca” Alço a voz olhando nos olhos, não há medo “Se você quer falar vem aqui onde eu estou, eu não tenho nada que falar contigo”. Ele cala, tem raiva nos olhos, nos músculos do pescoço e o rosto “Quero é rachar tua cabeça” mal escuto isso “o quê? Como é que é?” ele não responde, não há medo, agora é raiva porque tudo aquilo é marca do poder mal administrado da Ditadura, que reparte sem leis ao que cada um interpreta de situações e necessidades. As mulheres com cara de vitória pedem licença e fecham a porta de vidro. Caminho em direção dos policias e passo justo entre eles, em desafio. Eles não se mexem.

Suspiro fundo a derrota dos meus direitos e minhas convicções. A derrota dos homens e mulheres pelo pequeno poder da burocracia. A perda do ser humano pela sociedade. Estou triste. Raivoso.

Dirijo-me sem pensar a um lugar que sei que fica perto, mas não lembro. O CENESEX é um lugar que ganhou conotação depois que Mariela Castro, a filha do atual Presidente da ilha, e defensora dos direitos GLBT tomasse frente nessa luta neste país tão machista, e em matéria de direitos civis e humanos, tão atrasado como a administradora do Cine Charles Chaplin.

Pergunto ao segurança como agir e ele me sugere procurar o advogado. Tenho que esperar ele voltar do almoço. Como conheço o tempo cubano, arrisco-me a falar com a primeira menina com crachá que passa na minha frente. Ela trabalha com comunicação, mas se dispõem conversar.

Explico tudo. Sei que não sendo de nenhuma das minorias normalmente violentadas pelas desigualdades sociais, procuro meu direito.

Ela não dá asas e me aconselha não usar a regata para ir ao cinema. Reconhece que é um absurdo, mas as leis, leis que desconheço, sustentam essa interpretação por parte da administradora do cinema e da sua turma. Explica-me como agir com relação ao advogado, mas adianta que é um processo que demora muito “e em Cuba, você sabe, pode não levar a nada”. Último, surpreende-me, diz-me “Você deveria agradecer que não tenham encrencado com meus dreads”.

Eu fecho os olhos e saio andando. Injustiçado.

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