Ceia de Domingo com a Família de Milton

A mesa está servida com sete pratos e seus talheres, vários vidros com comida crioula, guardanapos de algodão, uma jarra de água, cervejas e refrigerante nacional.

Milton senta-se na cabeceira da mesa, um gesto de nosso pai que não se incomoda com o ceder a tal cadeira principal. Eu sento-me do lado oposto. Nas laterais nosso pai, minha mãe, nossa irmã e sobrinha.

Sinto falta do meu filho, penso olhando para a cadeira vazia, e “logo mais ele chega” me sussurra Milton.

Minha mãe serve-nos primeiro, e a nossa irmã aproxima as sobrancelhas com um ciúme que eu acho justo. Nosso pai serve seu prato sem exageros, e alarga a mão para pegar um pedaço de pão.  A sobrinha chama a atenção com pedidos que não acabam, e faz com que os adultos percam por instantes a paciência.

Milton devora um prato bem feito. Um segundo menos caprichado. Ainda, se serve com um terceiro apenas com feijão e arroz. “Sua mãe cozinha para caralho” se orgulha Milton, e nosso pai acrescenta que foi ele quem temperou a carne, quem acertou o sal do arroz, quem escolheu aqueles abacates maravilhosos. Minha mãe sorri discreta.

Nossa irmã come pouco, “deixarei um espaço para o sorvete” e Milton que não confia em intenções do futuro, come mais uma mandioca com molho de alho.

Eu me afundo na cerveja e acompanho os comentários do nosso pai sobre a inflação dos alimentos, o comércio ilegal de frutos-do-mar, o restaurante que abriu um colega com as novas medidas do Governo.

“Saúde família” propõe nossa pequena mocinha e os adultos aproximam os copos numa felicidade de domingo.

Nossa irmã come um sorvetinho e a pequena abandona a mesa à procura de uma televisão. Mãe recolhe as coisas enquanto nosso pai resiste-se aceitar uma proposta de mudanças familiares feita pelo Milton.

Eu solto meu olhar pela janela aberta até o centro da cidade. Cidade triste que nos viu nascer, crescer e começar a escrever. Que me viu amar e morrer de amor.

“Cadê meu filho, vida minha?” sussurro, e ninguém me escuta.

Milton está pensativo, não me lembro dele assim.

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