Um Hospital Cubano, Crônica de um Paciente

“Olá J. já cheguei” uma ligação curta no celular de uma antiga amiga que estudou medicina. Depois da explicação dela, entrei por um saguão sem que ninguém me perguntasse nada, subi uma escada até o segundo andar e esperei num lobby lotado de pessoas que esperavam. O cheiro era nauseabundo e forte e havia pouquíssima luz. Estava no Instituto de Nefrologia de La Habana, conhecido como o Hospital de 26.

Em Cuba, os médicos ganham baixíssimos salários, por isso muitos preferem ir a missões internacionalistas como o Mais Médicos do Brasil;  recurso ademais que o Governo usa para ganhar dinheiro em contratos nos quais tem direitos de mais do cinquenta por cento. Por isso, também, pacientes pagam propinas, lanches, e até outros serviços em troca de atendimento médico. É de conhecimento popular estas possibilidades, uma atitude que não ajuda no fluxo natural de pacientes que não podem pagar ou não acham esta atitude correta. Os médicos, quase sem alternativas financeiras, aceitam estas regalias que os converte, inevitavelmente, em profissionais facilmente subornáveis .

Minha amiga J. não estava neste instante agindo dessa maneira, porém eu realizaria meus exames dentro desta brecha administrativa.

J. apareceu sorrindo pelo corredor, nos cumprimentamos e me levou numa sala onde haviam outros profissionais. Deu-me uns encaminhamentos para exames de rotina: sangue, urina, ultrassom. Explicou-me o que fazer, qual sala ir, e o que devia dizer em cada caso. Pediu que a encontrasse antes de eu ir embora.

Então me dirigi à sala dos exames de sangue. Esperei ser atendido. A sala era muito bagunçada. Tinha balcões cheios de caixas, vidros para mostras de sangue, papéis amontoados. Várias pessoas conversavam na sala. O local a simples vista, não parecia um estabelecimento de saúde. Sentei-me perto da porta, e logo a técnica do laboratório se aproximou, pediu o encaminhamento e meu braço. Sorri e lhe pedi bom trato “no me maltrates, muchacha”.

Sai com o braço dolorido e um algodãozinho no antebraço direito.

Fui numa sala próxima. A placa dizia “Medicina Nuclear”, não me assustei, mas era ali que ficava o banheirinho separado para quem tinha que fazer exames de urina. De especial, o banheiro só tinha uma chave pendurada de um arame grosso, assumo para que não se perdesse facilmente. Dentro, para minha surpresa não havia tampa no vaso, nem papel, nem luvas para manipular o frasquinho. Depois que acertei o xixi no plástico, tentei fechar a tampinha, e saiba, a tampinha era maior que o recipiente. Então a tive que pressionar fortemente para manter fechada. Afora, uma menina me sorriu e disse “passa o bastão”, ela teria que acertar o xixi dela no frasquinho naquele banheirinho especial. Dei-lhe a chave com arame e fui entregar minha amostra no laboratório.

No mesmo corredor, duas portas afrente, estava a fila para o ultrassom, pedi o último, pois aqui não há senhas nem ninguém que organize o processo. Esperei por quase quarenta minutos conversando com minha mãe e logo antes do meu turno, a doutora aparece e pede para todas as meninas, mesmo detrás do meu turno passarem à frente, explicou-me que era para economizar tempo “vão limpar a sala, preciso terminar rápido”. Não me incomodei, nem eu nem o outro senhor de mais ou menos setenta anos, que ainda me sorriu perspicaz. Esperei, mais uns quinze minutos até entrar na sala de ultrassom. Durante a vistoria dos meus órgãos, a doutora explicava para uma médica nova todo o relacionado ao exame. Todo parecia estar bem.

Procurei minha amiga na U.T.I. como havíamos combinado. Estava num doutorado. Ela me disse que procuraria os resultados e me chamaria para conversar sobre eles. O dia era quente e convidei-a para um sorvete, que ela negou “não posso sair das aulas”. Despedimo-nos.

Antes de irmos, compramos um lanche de presunto e queijo e um refrigerante para ela. O almoço nos hospitais não é nada gostoso. Minha mãe levou para J. e eu fiquei fazendo anotações para esta crônica.

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