O ACASO HABANERO E O ACOSO POLICIAL.

Conheci Victor andando no Centro de La Habana. Ele era um preto de dreads que estava visivelmente meio bêbado.

Aproximou-se de Nathália e de mim achando que eu era estrangeiro. Isso tem sido das coisas mais absurdamente chatas que vem me acontecendo.

Veio na paz, fazendo conversa. Normalmente – como já tinha me acontecido nestes dias solar– eu teria me afastado do sujeito, sobretudo pelo absurdo, pela quase vergonha de me fazerem sentir brasileiro na minha terra cubana, mas o olhar ingênuo, o preto nos dreads e o convite a conhecer a casa dele no solar (uma construção popular típica de tempos da colônia com pequenos kitnets e banheiro comunitário e pequeno pátio central cimentado) e a possibilidade de me adentrar numa Cuba que há anos não vejo, não vivo e já não mais sofro; aceitei ir.

A casa dele tinha quase nenhum móvel. Mostrou-me parte das artes que ele faz em madeira para sobreviver e que nem intentou me vender.

Aquele vazio todo não me assustou, mas resultou-me um raro espelho daquilo que eu sou, e da minha vida em terras paulistanas no meu intento por sobreviver.

Perguntei-lhe pela mãe e chorou. Ainda viva andaria pelas calles habaneras também tentando se virar para não morrer de fome. Voltaria depois, me disse, não conseguiria viver sem ela, continuou. Então pediu que o convidasse um drinque, a amizade tem esses detalhes etílicos necessários para existir. Lá fomos nos à beber.

Em Cuba, tem gente que se fez profissional do turismo, alternativamente. Tinham se acostumado abordar gringos, e no bem ou mal, tirar vantagem da necessidade dos estrangeiros de querer conhecer a Ilha.

Victor é um desses, que por viver no centro histórico, vive do contato com os estrangeiros. Vende suas peças de cabeças de animais. Se lhe dão trégua, pega as loirinhas e passa a semana sendo feliz. Disse-nos que tem quatro filhos espalhados pelo mundo.

 Zanqueros

E desandamos ruas conhecidas, pintadas de sol e cheias de pessoas suadas. Dançamos detrás dos pernas-de-pau. Bebemos rum barato. Rimos da sorte do encontro.

E ainda sendo felizes, um policial o abordou. Tanto ele como eu, tínhamos vivido esse momento infeliz várias vezes. O agente pediu pelos documentos e chamou pelo rádio.

Pedi para Nathália se afastar de nós, aquele sotaque não passaria por cubana em lugar nenhum. Poderia complicar as coisas.

Por quinze minutos, ambos tentamos convencer o fardado do absurdo daquele victorprocedimento. Aleguei racismo. Aleguei injustiça. Aleguei burrice. Ainda lhe comentei, coisas como estas que definem uma ditadura. Não adiantou.

Dei o número do telefone de casa para se o Victor, depois da prisão temporária e depois daquele grau de álcool, quisesse me ligar de volta.

Victor foi-se caminhado acompanhado pelo guarda e perdeu-se dentre aquele montão de pessoas suadas e ruas conhecidas.

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