Milton insone

Quanto mais eu me afundo em sueños, Milton abre um olho para a otra realidade. Sem receio, ele pula o abismo que há entre nós e foge de mim. Costuma dizer, que longe, ele me enxerga melhor.

No seu mundo em vigília, não há portas nem porteiros. Qualquer um vá onde quer, ninguém é capaz de impedi-lo. Não há visto nem fronteiras, todos são de país nenhum.

Ele enxerga detalhes que existem só porque ele os percebe. A vida cheia de caprichos é uma dádiva que nenhum Deus lhe regalou. “Sem blasfêmias, por favor” – diz sorrindo para o Céu.

Nessa vida dele enquanto durmo, não há consenso nas palavras. Tudo é compreendido ou interpretado a partir dos gestos, dos olhares, e do movimento. Não existe desculpa porque há intenção. Não tem mentira porque há o abraço. Não há duvidas porque , me olhas.

Milton vê na natureza uma razão para existir, – “se não estaríamos mortos, certo?” – e feitos matéria avulsa num facho de luz, no plâncton de uma poça no canto da avenida, um pernilongo infeliz numa sala de aplausos.

Tudo é impossível do lado oposto do abismo porque não há quem deseje interpretar a loucura. Milton e o resto do mundo simplesmente apostam viver cada detalhe enquanto eu durmo.

Ele se aproxima do meu corpo em repouso. Dessa calmaria depende que pelo resto do Tempo, algo vire eterno. Não tenho essa esperança, e Milton lida bem com frustrações. Ao menos isso pareceu, quando descobriu que tinha escrito isto – “não há veracidade nenhuma nisso que escreves, idiota” e foi deitar no mesmo canto onde eu dormia.

Não havia lugar para duas utopias…

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