Milton diante do espelho

Milton abre os olhos diante do espelho. No primeiro instante, não consegue se reconhecer neste rosto. Nem eu, nesse rosto do outro lado do espelho.

“São esses meus olhos me olhando nos olhos?” – me disse olhando aos olhos.

Um medo de não ser ninguém, e que ninguém nós reconheça, se traduze em desespero. Milton esfrega as mãos com força. Um grito único sai da minha boca e se expande pelos corredores, pula a janela, se estreita no chão… lá fora.

Milton cuspe na imagem prateada, e no reflexo, eu limpo a saliva dele dos meus lábios.

Não revido, cada qual tem razões para sua loucura. A minha, eu escrevo e tento dar conta…

Milton se curva segurando os joelhos, e murcha nossa sombra num canto do chuveiro. Logo sente a agua escorrendo pela pele, e toda aquela sensação de solidão compartida se transforma num sorriso histérico e sombrio, como de homem sem destino.

Eu deixo os olhos se inundarem de vapor, e aos poucos me esqueço dele no meu rosto no espelho.

“Quem é você Milton?” – e ele não responde.

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