O amor de Milton

Milton teve vários amores. Ter não é precisamente um verbo que ele goste de usar.

“O amor se vive à beira do mar. O amor se chora no último abraço.” – disse ele acabando com o silêncio do seu caderno de anotações. Precisamente, esse pranto tangente, era sua maior dificuldade e meu pior inimigo.

“Cada vez foi único. Cada um, infinito.” – ele rabiscava, eu relembrava.

Todas nos haviam roubado rimas noturnas; inspirações rasgadas em orgasmos sedentos e desculpas vãs. Havíamos resistido à conquista.

“E você se lembra de tudo?” – Milton me mostrara uma folha com desenhos repetidos. A semelhança entre elas era o amor dele por mim.

Era difícil ser assim…

“O amor basta senti-lo um instante, nunca é uma questão de tempo” – era eu quem acreditava no amor eterno, indissolúvel, interminável e por isso, era eu quem subitamente me frustrava. Ele sabia reconhecer, nelas ou em mim, quando era o momento de partir.

Ele escrevia um par de versos e me obrigava a ler com minha voz. Nada daquilo fazia sentido para além de mim.

Enquanto eu segurava minha cabeça, entre a vergonha e a dor, Milton recompunha seu sorriso e voltava a viver à beira do mar…

                                                                                                … e do último abraço.

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