O dia que Milton soube de nosso retorno a Cuba

Quando Milton soube que iriamos a Cuba, ficou em silêncio por três noites e dois dias. Não aceitou nenhuma comida nem o vi tomar banho.

Na manhã de sábado, gritou pela janela até perder a voz. Os vizinhos se assustaram e vieram falar comigo.

Domingo pegou um caderno e rabiscou palavras longas frases sem vírgulas p3ns4m3ntos pOEsIAs sobre o a.b.s.u.r.d.o. que era ser HOMBRE, fez a tradução ao português de um poema de José Martí que nunca olvidó. Só parou de escrever quando o lápis gastou.

“Que porra que vamos fazer nessa ilha?” – eu desconhecia a resposta.

Estava preocupado com ter ganho um sotaque paulistano. Quais eram palavras para aquele entardecer no Malecón? Sabia que tinha esquecido alguns caminhos habaneros. Onde andariam seus melhores amigos? Como chamaria aquela muchacha que um dia o esquecera? Haveria tempo para rescrever estas palavras num perfeito cubaneo?   

Era em La Habana – como eu – que o Milton tinha nascido. Lá que tinha transado pela primeira vez com uma mulher. Lá tinha amado, sofrido, amado novamente, sofridamente de novo. Foi lá que tinha escrito seus primeiros versos, e sem sabê-lo ainda, começado esta vida de poeta maldito, poeta bem vivido, meu alter-ego.

Olhando o Milton nos olhos, lembrei-me de toda minha vida vivida naquela terra flutuante-à-deriva… era longa a história nos fundos escuros no meio de tantos fios de sangue ocular.

Me aproximei devagar, parecia que ambos os dois tremíamos… Foi ele quem me deu o abraço.

Eu chorei.

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