Eu, ator global

No começo dos anos 80´s – pelo que eu lembro – tenho minhas primeiras lembranças de uma novela brasileira: La Esclava Isaura. A memoria se ativa nos acordes da música Retirantes de Dorival Caymmi e as poucas imagens que tenho daquela serie, começam desaparecer.

Mas foi no Roque Santero que as novelas entraram no meu histórico. Era sucesso na televisão e nas conversas dos meus coleguinhas de sala. Como a novela, passava no horário para adultos, meus pais não deixavam, minha irmã e eu, assistirmos-a.

Enquanto isso, na escola, eu era exiliado das conversas na falta do capítulo na noite anterior. E precisamente por esse fator de exclusão que meus pais logo mais, reviram seus modos e tiveram uma ideia. Eles gravavam o episódio, e nas manhãs, antes de irmos à escola, assistíamos a sequência.

Por anos – e até hoje – o símbolo da rede Globo exibia-se em horário nobre nos lares cubanos, e alternava-se diariamente com produções dramatúrgicas cubanas. Sempre as produções brasileiras desbancavam em popularidade as novelas cubanas: El Rey del Ganado, Felicidad, La próxima víctima, Vale todo… as que eu lembro.

Para mim, o problema era com a rotina. Todo dia, à mesma hora em casa, era praticamente impossível, mas lembro-me que a cidade parava, quando uma dessas novelas estava na programação.

Uma das ocasiões que a Natalia esteve em Cuba, era época da Señora del Destino. E sem dúvidas, era sucesso. Quando alguém descobria a nacionalidade da moça, primeiro que pedia era para desvendar detalhes da trama, ao qual, frustrando os interlocutores, se negava, pois ela não tinha assistido.

Assim descobrimos que a interpretação ao vivo de “Encontros e despedidas” de Milton Nascimento na voz dela, nos renderia várias vantagens. Num museu, conseguimos não pagar. Em Santiago de Cuba, após negociações, o dono de uma pizzaria de rua, deu-lhe de presente uma pizza em troca da canção. Era de morrer de rir…

Daí que ressurge a novela brasileira na minha vida, já deste lado do mundo, em terras paulistanas. Não fosse a Katharine, jornalista devota aos seriados globais, me adverte na atual Amor a la vida, tem um personagem com dreads. Eu começo a perceber nos ónibus de manhã, na compañía do meu filho, como algumas mulheres que me olham, entre a curiosidade e o fetiche.

O Ninho é um artista plástico que tem uma filha com a protagonista, Paloma, médica, que se apaixonou dele no Perú. Ela supostamente perde a filha no parto e eles se separam. A novela deslancha em histórias e chantagens difíceis de acreditar. Obviamente, não acompanhei.

E lá estou eu na rua, e as crianças passam me olhando, e às minhas costas escuto “Ninhoooo…” e o grito se converte em sorrisos que se afastam. Eu abro mi sonrisa e os vejo partir. Com eles se vai a última esperança de ser um ator global, não que eu gostaria, mas por vê-los assim… feliz.

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2 pensamientos en “Eu, ator global

  1. Senhora do Destino fez bombar aqui no Brasil o amor pela vilã Nazaré Tedesco ❤
    depois desse folhetim, somente Avenida Brasil elevaria novamente o ibope de dona Globo com as cenas da então querida Carminha ❤ <3. Mas Ninho (graças a Deus!) nada tem a ver com você, nem nos dreads se parecem, já que os dele são falsos ( e essa novela é chata pacai).

    novela é amor, Brasil!

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