Milton conversa com o policial

“Nome completo, por favor?” – lhe pergunta o oficial. Eu olho para Milton, que como eu, não está assustado.

“Demis Menéndez” – ele só disse um sobrenome. Aqui no Brasil costumasse usar só o último para acompanhar o nome, ao contrário de lá, de onde nós viemos.

“Procedência?”

“A ilha dos Castros, ilha-à-deriva se prefere”.

“Pare com a palhaçada… qual país você nasceu?” vocifera o galante uniformado.

“Cuba… procure aí perto dos Estados Unidos”

“Não consta esse país no registro, como se escreve?”

“C.H.I.L.E.” – ele faz uma pausa seca – “Cuba, sacou?” e me pisca um olho.

“Uhum…” – digita automaticamente – “do MERCOSUL”.

“Isso ajuda em algo, camarada?”

SILÊNCIO.

O guarda sai da sala. Volta uns minutos depois.

“Me dê seus documentos”

“Serve este?” – ele passa um negocio tudo amassado.

“Uhum…” – o pega e transcreve alguns dados. E me devolve. “Senhor Menéndez o que  você estaria fazendo na madrugada do 17 de setembro perto desse viaduto?” – olhei de novo pro Milton, ele calmo, eu ofegante.

“Existia camarada, só isso, meu corpo bípede, consciente, trasladava-se de um ponto ao outro numa ansiedade circular, parecida com a do senhor, agora, mexendo nas mãos com essa caneta” – ele na brisa, eu sorrindo.

“O guardinha de lá, o seu Pedro Bonfiglioli, acha você suspeitoso.” – o homem larga a caneta.

“Poetas nunca foram confiáveis”.

“Suas gracinhas aqui podem ser trocadas por tapas, sabia?”

“Sabia, policias são menos confiáveis que poetas” – o soco me passou perto, mas o Milton tirou o rosto, ainda sorrindo.

“E isso aqui, é o que, fala aí?” – pergunta.

“Ah, isso é ganja, manja?”

“Não sei não” – eu achando que era um truque.

“Olha…” – Milton estica a mão e pega um envelopinho da mão do guarda – “… isso você solta ele até virar um pozinho verde, pega este papel fininho, chamada de seda, põem dentro, enrola, tá vendo, devagarinho, com arte, passa a língua e cola” – o policial estava estupefato.

“Huuum… é um cigarro?”

“É… tem um isqueiro ai?”

“Tenho sim, pera…” – ele procura na gaveta, pega um isqueiro e dá pro Milton.

“Assim oh…”

“Aqui não pode fumar, Senhor Menéndez!”

“Não podia…” – e o Milton ascende.

“Que porra é essa?”

“Marihuana, meu senhor”

“Era isso que o seu Bonfiglioli suspeitava”

“O suspeito, na real, é esse viejo aí. Eu vi ele, tirando várias caixas e colocando-as no carro dele” – eu me assustei naquela hora, eram pouco mais das duas da madrugada.

“O que que era?” – Milton aguenta a respiração e a fumaça.

“Sei não, não passo informação que não tenha certeza”.

“Poetas, não são confiáveis mesmo, não é não?”

“Somos, mas só quando estamos apaixonados…” – traga, segura um pouco, e solta no rosto dele. Eu tentei segurá-lo mais não tive a reação necessária.

“Por quê?”

“Porque não mentimos quando amamos”

“A verdade é muito perigosa nestes casos” – afirma o oficial.

“Por isso nos perseguem, e às vezes nos matam”

“Nessa noite ninguém vai morrer não” – o policial me devolve o documento.

Gracias, muchas gracias” – disse Milton.

“Deixe-me experimentar essa parada” – e lhe passo o cigarrinho.

“Puxa e segura…”

“Uma ilha você disse…?” – e solta a fumaça na minha cara – “Cuba?”

Anuncios

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s